assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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Dizendo estas palavras, Zaratustra sobressaltou-se, não como quem tem medo e perde alento, mas como um visionário possuído do
Espírito. A águia e a serpente olharam-no estupefatos: porque à semelhança da aurora, uma próxima ventura lhe pairava no semblante.
 “Que me sucedeu, animais meus? — disse Zaratustra. — Não estou transformado?! Não se abeirou de mim a ventura como uma
tempestade?
 A minha ventura é louca e apenas dirá loucuras; ainda é nova demais. Suportai-a, pois, com paciência!
 Aniquila-me a ventura! Sejam meus médicos os que sofrem!
 Posso tornar a descer para o pé dos meus amigos e também dos meus inimigos! Zaratustra pode tornar a falar e dar e a fazer bem aos
seus prediletos!
 O meu impaciente amor transborda em torrentes, precipitando-se desde o oriente até o ocaso. Até minha alma se agita nos vales,
abandonando os montes silenciosos e as tempestades da dor.
 Demasiado tempo sofri e estive em perspectiva. Demasiado tempo me possuiu a solidão. Agora esqueci o silêncio.
 Todo eu me tornei qual boca e murmúrio de um rio que salta de elevadas penhas: quero precipitar as minhas palavras nos vales.
 Corre o rio do meu amor para o insuperável! Como não encontraria um rio enfim o caminho do mar?
 Sem dúvida há um lago em mim, um lago solitário que se basta a si mesmo; mas o meu rio de amor arrasta-o consigo para o mar.
 Eu sigo novas sendas e encontro uma linguagem nova; à semelhança de todos os criadores, cansei-me das línguas antigas. O meu
espírito já não quer correr com solas gastas.
 Toda a linguagem me torna moroso. Salto para o teu carro, tempestade! E a ti também quero fustigar com a minha malícia!
 Quero passar por vastos mares como uma exclamação ou um grito de alegria, até que encontre as ilhas bem-aventuradas onde moram
os meus amigos... e entre eles os meus inimigos! Como amo agora todos a quem posso falar! Os meus inimigos também formam parte da
minha ventura.
 E quando quero montar no meu mais fogoso cavalo, nada me ajuda tanto como a minha lança; sempre está pronta a servir-me, a lança
que brando contra os meus inimigos.
 É muito grande a tensão da minha nuvem; por entre os risos dos relâmpagos quero lançar granizo às profundidades.
 Formidavelmente se alevantará o meu peito; formidavelmente soprará a sua tempestade; assim se aliviará.
 Verdadeiramente, a minha felicidade e minha liberdade sobrevém como tempestades! É mister, porém, que os meus inimigos imaginem
que o mal desencadeia sobre as suas cabeças.
 Sim; também a vós, meus amigos, vos assombrará a minha selvagem sabedoria, e talvez vos ponhais em fuga com os meus inimigos.
 Ah! Saiba eu tornar a atrair-vos com flautas pastoris! Aprenda a rugir com ternura a minha leonina sabedoria! Já temos aprendido
tanta coisa juntos!
 A minha selvagem sabedoria emprenhou nos montes solitários; nas duras pedras pariu o mais novo dos seus filhos.
 Agora corre louca pelo deserto árido e procura sem cessar o branco céspede.
 No mais branco céspede de vossos corações, meus amigos... no vosso amor desejaria eu depositar o mais caro que possuo!”
 Assim falava Zaratustra.

NAS ILHAS BEM-AVENTURADAS

file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/zara.rb/000000-zara.html (27 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 “Os figos caem das árvores: são bons e doces; e conforme caem assim se lhes abre a vermelha pele. Eu sou um vento do Norte para os
figos maduros.
 Assim como os figos, caem em vós estas práticas; recebei o seu suco e a sua doce polpa. Em torno de nós reina o outono, reina a tarde
como um céu sereno.
 Vede que plenitude em nosso redor! E que belo, do seio da abundância, olhar para fora, para os mares longínquos!
 Noutro tempo, quando se olhava para os mares longínquos, dizia-se: “Deus”; mas agora eu vos ensinei a dizer: “Super-homem”.
 Deus é uma conjectura; mas eu quero que a vossa conjectura não vá mais longe do que a vossa vontade criadora.
 Poderíeis criar um Deus? Pois então não me faleis de deuses! Poderíeis, contudo, criar um Super-homem.
 Talvez vós o não sejais, meus irmãos! Podeis transformar-vos em pais e ascendentes do Super-homem: seja essa a vossa melhor criação!
 Deus é uma conjectura; mas eu quero que a vossa conjectura se circunscreva ao imaginável.
 Poderíeis imaginar um Deus? Signifique, para vós outros, a vontade de verdade, que tudo se transforme no que o homem pode pensar,
ver e sentir! Deveis cuidar até o último os vossos próprios sentidos!
 E o que chamáveis mundo deve ser criado já por vós outros; a vossa razão, a vossa imagem, a vossa vontade, o vosso amor devem
tornar-se o vosso próprio mundo. E verdadeiramente, será para ventura vossa!
 Vós, que pensais e compreendeis, como havíeis de suportar a vida sem essa esperança? Não deveríeis persistir no que é incompreensível
nem no que é irracional.
 Hei de vos abrir, porém, inteiramente o meu coração, meus amigos; se existissem deuses como poderia eu suportar não ser um deus?!
Por conseguinte, não há deuses.
 Fui eu, na verdade, quem tirou essa conseqüência; mas agora é ela que me tira a mim mesmo.
 Deus é uma conjectura; mas, quem beberia sem morrer, todos os tormentos desta conjectura?
 Acaso se quererá tirar ao criador a sua fé, e à águia o seu vôo pelas regiões longínquas?
 Deus é um pensamento que torce tudo quanto está fixo.
 Que!? Não existiria já o tempo, e todo o perecível seria mentira?
 Pensar tal produz vertigem nos ossos humanos e náuseas no estômago; verdadeiramente, pensar assim é como sofrer modorra.
 Chamo mau e desumano a isso: a todo esse ensinamento do único, do pleno, do imóvel, do saciado, do imutável.
 O imutável é apenas um símbolo! E os poetas mentem demais.
 As melhores parábolas devem falar do tempo e do acontecer; devem ser um elogio e uma justificação de tudo o que é perecível.
 Criar é a grande emancipação da dor e do alívio da vida; mas, para o criador existir são necessárias muitas dores e transformações.
 Sim, criadores, é mister que haja na vossa vida muitas mortes amargas. Sereis assim os defensores e justificadores de tudo o que é
perecível.
 Para o criador ser o filho que renasce, é preciso que queira ser a mãe com as dores de mãe.
 Em verdade, o meu caminho atravessou cem almas, cem berços e cem dores de parto. Muitas vezes me despedi; conheço as últimas
horas que desgarram o coração.
 Mas assim o quer a minha vontade criadora, o meu destino. Ou, para o dizer mais francamente: esse destino quer ser minha vontade.
 Todos os meus sentimentos sofrem em mim e estão aprisionados; mas o meu querer chega sempre como libertador e mensageiro de
alegria.
 “Querer, libertar”: é essa a verdadeira doutrina da vontade e da liberdade; tal é a que ensina Zaratustra.
 Não querer mais, não estimar mais e não criar mais! Ó! fique sempre longe de mim, esse grande desfalecimento.
 Na investigação do conhecimento só sinto a alegria da minha vontade, a alegria do engendrar; e se há inocência no meu conhecimento,
é porque nele há vontade de engendrar.
 Essa vontade apartou-me de Deus e dos deuses. Que haveria, pois, que criar se houvesse deuses?
 A minha ardente vontade de criar impele-me sempre de novo para os homens, assim como é impelido o martelo para a pedra.
 Ai, homens! Uma imagem dormita para mim na pedra, a imagem das minhas imagens. Ó! haja de dormir na pedra mais feia e mais
rija!
 Agora o meu martelo desencadeia-se cruelmente contra a sua prisão. A pedra despedaça-se: que me importa?
 Quero acabar esta imagem, porque uma sombra me visitou; qualquer coisa muito silenciosa e leve se dirigiu para mim!
 A excelência do Super-homem visitou-me como uma sombra. Ai, meus irmãos! Que me importam já os deuses?”
 Assim falava Zaratustra.

DOS COMPASSIVOS

 “Meus amigos, aos ouvidos do vosso amigo chegaram palavras zombeteiras: “Olhem para