assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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inventores de imagens e de fantasmas em suas inimizades, e com as suas imagens e os seus fantasmas devem travar
entre si o maior combate.
 Bom e mau, rico e pobre, alto e baixo, todos os nomes de valores devem ser armas e símbolos bélicos, em sinal de que a vida sempre se
há de superar novamente a si mesma.
 Ela, a própria vida, quer elevar-se às alturas com pilares e grades: quer escrutar os longínquos horizontes e penetrar com os seus
olhares as supremas belezas: para isso necessita as alturas.
 Por conseguinte necessita alturas, necessita degraus e contradição dos degraus e dos que se elevam! A vida quer elevar-se e superar-se
a si mesma.
 E vede, meus amigos! Aqui, onde está a caverna da tarântula, elevam-se as ruínas de um templo antigo: olhai com olhos iluminados.
 O que aqui em outros dias elevou na pedra os seus pensamentos para as alturas, esse deve ter conhecido o segredo da vida toda, como o
mais sábio.
 Haja até na beleza luta e desigualdade e guerra pelo poder e pela supremacia; isto nos ensina ele aqui no símbolo mais luminoso.
 Assim como aqui abóbadas e arcos travam corpo a corpo um divino combate, e assim como luz e sombra pugnam entre si em divina
competência, assim fortes e nobres, sejamos nós também inimigos, meus amigos! Pugnemos divinamente uns contra os outros!
 Desventura! Também me picou a tarântula, minha antiga inimiga! Divinamente firme e bela picou-me no dedo!
 “Há de haver castigo e justiça — pensa a tarântula: — não é em vão que canta aqui o hino em honra da inimizade!”
 Sim; está vingada! Pobre de mim; vai minha alma girar como um turbilhão de vingança!
 Mas, para ela não girar, meus amigos, atai-me fortemente a esta coluna. Antes quero ser um estilista do que um turbilhão de vingança!
 Zaratustra não é um turbilhão nem uma tromba, e se é bailarino, não é bailarino de tarantela!”
 Assim falava Zaratustra.

DOS SÁBIOS CÉLEBRES
 “Todos vós, ó sábios célebres, tendes servido o povo e a superstição do povo, e não a verdade! E é precisamente por isso que vos têm
honrado.
 E por isso também foi tolerada a vossa incredulidade, porque era um rodeio engenhoso para o povo. Assim procede o amo com os seus
escravos, e por seu desaforo o mantém.
 O povo, porém, a quem detesta, tanto como os cães ao lobo, o espírito livre, inimigo dos preconceitos, aquele que a ninguém presta
culto e que habita nos bosques.
 Escorraçá-lo do seu esconderijo é o que o povo chamou sempre o “sentido da justiça”, e até açula contra o espírito livre os seus mais
ferozes mastins.
 “Porque a verdade está onde está o povo! Desgraçado, três vezes desgraçado aquele que investiga!” Eis o que em todos os tempos se
tem repetido.
 Queríeis justificar a veneração do vosso povo: a isto chamastes “desejo de verdade”. Ó! sábios célebres!
 E o vosso coração disse sempre: “Eu saí do povo: dele me veio também a voz de Deus”.
 Pacientes e astutos como o asno sempre intercedestes pelo povo.
 E mais de um potentado, que queria estar bem com o povo, atrelou à dianteira dos seus corcéis, um burrico, um sábio célebre.
 E agora, ó! sábios célebres! quisera que arrojasseis para longe de vós a pele de leão.
 A pintada pele da fera e o pêlo do explorador, do investigador e do conquistador.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Para aprender a crer na vossa “veracidade” necessitava ver-vos romper com a vossa vontade veneradora.
 Por mim, chamo verídico àquele que vai para os desertos sem Deus, aniquilando o seu coração reverente.
 No meio da amarela areia e abrasado pelo sol acontece-lhe olhar com avidez para as ilhas de copiosas fontes onde, sob umbrosas
árvores, repousa a vida.
 A sua sede, porém, não o decide a imitar esses sibaritas porque onde há oásis há também ídolos.
 Faminta, violenta, solitária, sem deuses: assim se quer a si própria a vontade-leão.
 Livre dos deleites dos servos, livre dos deuses e das adorações, sem espanto e espantosa, grande e solitária: tal é a vontade do verídico.
 No deserto têm vivido sempre os verídicos, os espíritos livres, como senhores do deserto; mas nas cidades residem os sábios célebres e
bem alimentados: os animais de tiro.
 Que eles puxem sempre, como burros, pelo carro de povo!
 E não é porque lho queira lançar em cara, mas não passam de servidores e de seres jungidos, embora usem dourados arreios.
 E muitas vezes têm sido bons servidores, dignos de louvor; porque assim fala a virtude: “Se é forçoso seres servidor procura aquele a
quem mais aproveitem os teus serviços.
 O espírito e a virtude do teu amo devem aumentar por estares ao serviço dele: e assim tu mesmo te engrandeces com o seu espírito e a
sua virtude”.
 E na verdade, sábios célebres, servidores do povo, aumentastes com o espírito e a virtude do povo, e o povo aumentou por vossa causa.
Digo isto em vossa honra.
 Continuais, porém, a ser povo, até nas vossas virtudes, povo de olhos fracos, povo que não sabe o que é o espírito.
 O espírito é a vida que clarifica a própria vida; como o seu mesmo sofrimento aumenta o seu saber: já o sabíeis?
 E a felicidade do espírito consiste nisto: em ser ungido pelas lágrimas, em ser vítima sagrada do holocausto: já o sabíeis?
 E o que pensa e compreende deve aprender a construir com montanhas! Transportar montanhas é para o espírito pouca coisa: já o
sabíeis?
 Vós só vedes as centelhas do espírito; mas não a qualidade de bigorna que é, nem aonde chega a crueldade do seu martelo.
 Na verdade, vós não conheceis a altivez do espírito! Ainda suportaríeis menos a sua modéstia, se a modéstia do espírito quisesse falar!
 E nunca pudestes guindar o vosso espirito a cumieiras de neve; não tendes bastante valor para isso! Ignorais também, por conseguinte,
os arroubamentos da sua frescura.
 Em todas as coisas, porém, me pareceis tomar demasiadas liberdades com o espírito, e muitas vezes fizestes da sabedoria um hospital
de maus poetas.
 Vós não sois águias: por isso não conhecestes o gozo no assombro do espírito. Quem não é ave não deve voar sobre abismos.
 Pareceis-me tíbios, e a corrente de todo o conhecimento profundo é fria. São glaciais as fontes interiores do espirito: um consolo para
mãos e trabalhadores ardentes.
 Vós, sábios célebres, permaneceis aí, respeitáveis e eretos, com a espinha direita! Não vos impele o vento forte de uma vontade
poderosa.
 Nunca vistes cruzar o mar uma vela trêmula enfunada pela impetuosidade do vento?
 Como vela que treme com a impetuosidade do espírito, assim cruza o mar a minha sabedoria, a minha selvática sabedoria!
 Mas vós, servidores do povo, sábios célebres, como poderíeis acompanhar-me?
 Assim falava Zaratustra.

O CANTO DA NOITE

 “É noite; agora eleva-se mais a voz das fontes. E a minha alma é também uma fonte.
 É noite; agora despertam todos os cantos dos amantes. E a minha alma é também um canto de amante.
 Há qualquer coisa em mim não aplicada nem aplicável, que quer elevar a voz. Há em mim um anelo de amor que fala a linguagem do
amor.
 Eu sou luz. Ah! se fosse noite! Mas é esta a minha soledade: ver-me rodeado de luz.
 Ah! se eu fosse sombrio e noturno! Como sorveria os seios da luz!
 E também vos bendiria a vós, estrelinhas que brilhais lá em cima como pirilampos! E seria venturoso com vossos mimos de luz.
 Eu, porém, vivo da minha própria luz, absorvo em mim mesmo as chamas que de mim brotam.
 Eu não conheço o prazer de receber, e freqüentemente tenho sonhado que roubar deve ser ainda maior deleite do que receber.
 A minha pobreza reside em que a minha mão nunca se cansa de dar, a minha inveja são os olhos que vejo esperando, e as noites vazias
do desejo.
 Ó! miséria de todos os que dão! Ó! eclipse do meu sol! Ó! desejo de desejar! Ó! fome devoradora na fartura!