assim falava zaratustra
50 pág.

assim falava zaratustra

Disciplina:Filosofia e Ética2.172 materiais71.569 seguidores
Pré-visualização50 páginas
para isso! Ignorais também, por conseguinte,
os arroubamentos da sua frescura.
 Em todas as coisas, porém, me pareceis tomar demasiadas liberdades com o espírito, e muitas vezes fizestes da sabedoria um hospital
de maus poetas.
 Vós não sois águias: por isso não conhecestes o gozo no assombro do espírito. Quem não é ave não deve voar sobre abismos.
 Pareceis-me tíbios, e a corrente de todo o conhecimento profundo é fria. São glaciais as fontes interiores do espirito: um consolo para
mãos e trabalhadores ardentes.
 Vós, sábios célebres, permaneceis aí, respeitáveis e eretos, com a espinha direita! Não vos impele o vento forte de uma vontade
poderosa.
 Nunca vistes cruzar o mar uma vela trêmula enfunada pela impetuosidade do vento?
 Como vela que treme com a impetuosidade do espírito, assim cruza o mar a minha sabedoria, a minha selvática sabedoria!
 Mas vós, servidores do povo, sábios célebres, como poderíeis acompanhar-me?
 Assim falava Zaratustra.

O CANTO DA NOITE

 \u201cÉ noite; agora eleva-se mais a voz das fontes. E a minha alma é também uma fonte.
 É noite; agora despertam todos os cantos dos amantes. E a minha alma é também um canto de amante.
 Há qualquer coisa em mim não aplicada nem aplicável, que quer elevar a voz. Há em mim um anelo de amor que fala a linguagem do
amor.
 Eu sou luz. Ah! se fosse noite! Mas é esta a minha soledade: ver-me rodeado de luz.
 Ah! se eu fosse sombrio e noturno! Como sorveria os seios da luz!
 E também vos bendiria a vós, estrelinhas que brilhais lá em cima como pirilampos! E seria venturoso com vossos mimos de luz.
 Eu, porém, vivo da minha própria luz, absorvo em mim mesmo as chamas que de mim brotam.
 Eu não conheço o prazer de receber, e freqüentemente tenho sonhado que roubar deve ser ainda maior deleite do que receber.
 A minha pobreza reside em que a minha mão nunca se cansa de dar, a minha inveja são os olhos que vejo esperando, e as noites vazias
do desejo.
 Ó! miséria de todos os que dão! Ó! eclipse do meu sol! Ó! desejo de desejar! Ó! fome devoradora na fartura!
 Eles recebem de mim; mas, acaso lhes tocarei eu sequer a alma? Entre dar e receber há um abismo; e é muito difícil transpor o mais
pequeno abismo.
 Nasceu um homem da minha beleza: quereria prejudicar os que ilumino; quereria saquear os que cumulo de presentes: assim tenho
ânsia de maldade.
 Retirando a mão, quando a mão já se estende; vacilando como a cascata que vacila até na sua queda; assim eu tenho sede de maldade.
 Tais vinganças medita a minha exuberância; tais malícias nascem da minha soledade.
 O meu prazer de dar morreu à força de dar; a minha virtude cansou-se de si mesmo por sua própria exuberância.

file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/zara.rb/000000-zara.html (34 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 O que dá sempre, corre perigo de perder o pudor; aquele que reparte sempre, à forca de repartir acaba por se lhe calejarem as mãos e
o coração.
 Os meus olhos já se não arrasam de lágrimas ao ver a vergonha dos que imploram; a minha mão endureceu demais para experimentar
o tremor das mãos cheias.
 Para aonde foram as lágrimas dos meus olhos e a plumagem do meu coração? Ó! soledade de todos que dão! Ó! silêncio dos que
brilham!
 Muitos sóis gravitam no espaço vazio; a sua luz fala a tudo que é obscuro; só para mim emudeceu.
 Ó! É a inimizade da luz contra o luminoso! Desapiedade, segue o seu caminho. Profundamente injusto contra o luminoso, frio para com
os sóis, assim caminha todo o sol.
 Como uma tempestade, voam os sóis por suas órbitas: é esse o seu caminho. Seguem a sua vontade inexorável: é essa a sua frialdade.
 Ai! só vós obscuros e noturnos, que tirais o vosso calor do luminoso, só vós bebeis o leite balsâmico dos úberes da luz!
 Ai! há gelo em torno de mim, gelo que queima as minhas mãos! Tenho uma sede que suspira por vossa sede!
 É noite. Ai! Por que hei de eu ser luz? E sede do noturno! E soledade!
 É noite... como uma fonte, brota o meu anelo \u2014 meu anelo de fulgor.
 É noite: agora eleva-se mais a voz das fontes; e a minha alma é também uma fonte.
 É noite: agora despertam todos os cantos dos namorados. E a minha alma é também um canto de namorado\u201d.
 Assim falava Zaratustra.

O CANTO DO BAILE

 Uma tarde, atravessava Zaratustra o bosque com os seus discípulos, e procurando uma fonte, chegou a um verde prado rodeado de
árvores e matagais: estavam ali bailando umas jovens. Logo que viram Zaratustra deixaram de bailar; mas Zaratustra aproximou-se-lhes
amigavelmente e disse estas palavras:
 \u201cNão pareis de bailar, encantadoras meninas! Quem se aproxima de vós não é um obstáculo ao vosso recreio, não é um inimigo das
jovens.
 Sou o advogado de Deus ante o diabo, e o diabo é o espírito da gravidade. Como, ó! vaporosas! poderia eu ser inimigo das divinas
danças ou dos pés juvenis de lindos tornozelo?
 É certo que sou uma selva e uma noite de escuras árvores; mas aquele que não temer a minha obscuridade encontrará sob os meus
ciprestes sendas de rosas.
 Saberá também encontrar o pequenino deus preferido das donzelas: está junto da fonte, silencioso, com os olho cerrados.
 Adormeceu em pleno dia o folgazão! Andou azafamado demais à procura de mariposas?
 Não vos agasteis comigo, formosas bailadeiras, se fustigo um tanto o pequenino deus. Pode ser que ele se ponha a gritar e a chorar; mas
até chorando se presta ao riso.
 E com lágrimas nos olhos vós deveis pedir uma dança; e eu mesmo acompanharei essa dança com uma canção.
 Uma canção de baile e uma sátira sobre o espírito da gravidade, sobre o meu diabo soberano onipotente, que dizem ser o \u201cdono do
mundo\u201d.
 Eis aqui a canção que Zaratustra cantou. Cupido e as jovens dançavam:
 \u201cAinda há pouco olhei os teus olhos, ó! vida! e parecia-me cair no insondável!
 \u201cAssim falam todos os peixes \u2014 dizias \u2014 o que eles não podem penetrar é insondável\u201d.
 \u201cEu, porém, sou volúvel e selvagem, mulher em tudo, e nunca virtuosa\u201d.
 \u201cPosto que para vós, homens, eu seja \u201ca profunda\u201d, ou \u201ca fiel\u201d, \u201ca eterna\u201d, \u201ca misteriosa\u201d.
 \u201cMas vós, homens, ó! virtuosos! emprestais-nos sempre as vossas próprias virtudes\u201d.
 Assim ria ela, a inacreditável; que nunca a acredito, nem a ela nem ao seu riso, quando fala de si própria.
 E quando eu falava a sós com a minha selvagem sabedoria, disse-me ela irritada:
 \u201cTu queres, tu desejas, tu amas! e só por isso lisonjeias a vida\u201d.
 Pouco me faltou para responder mal e dizer a verdade à irritada; e ninguém pode responder pior do que quando \u201cdiz a verdade\u201d à sua
sabedoria.
 Assim sucede convosco. Eu nada amo mais profundamente do que a vida, e ainda mais quando a detesto.
 Se me inclino para a sabedoria, e amiúde com excesso, é porque me lembra bastante a vida.
 Tem os seus olhos, o seu riso e até o seu dourado anzol. Que hei de fazer, se se parecem tanto as duas?
 E quando um dia a vida me perguntou:
 \u201cMas, que é sabedoria?\u201d \u2014 eu respondi pressuroso: \u201cAh! sim! a sabedoria!
 Estamos sedentos dela, e não nos saciamos; olhamo-la através de uma bruma; queremos alcançá-la através de uma rede.
 É formosa? Não sei! Até as carpas mais velhas, porém, se deixam colher por ela.
 É versátil e obstinada: muitas vezes lhe vi morder os lábios e eriçar o cabelo com o pente.
 Talvez seja má e falsa mulher em tudo; mas quando fala mal de si mesma, é quando seduz mais\u201d.
 Quando disse isto à vida, ela riu-se maldosamente e cerrou os olhos. \u201cMas, de quem falas tu? \u2014 disse. É de mim?
 E conquanto tivesses razão, dizeres-me isso na minha cara. Fala, pois da tua sabedoria!\u201d
 Ai! E então tornaste a abrir os olhos, ó! amada vida! E parecia-me tornar a cair no insondável!\u201d

file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/zara.rb/000000-zara.html