assim falava zaratustra
113 pág.

assim falava zaratustra

Disciplina:Filosofia e Ética2.285 materiais67.812 seguidores
Pré-visualização50 páginas
(37 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Certamente vós chamais a isso vontade de criar ou impulso para o fim, para o mais sublime, para o mais longínquo, para o mais
múltiplo; mas tudo isso é apenas uma só coisa e um só segredo.
 Prefiro desaparecer a renunciar a essa coisa única: e, na verdade, onde há morte e queda de folhas, é onde se sacrifica a vida pelo
poder.
 É mister que eu seja luta e sucesso e fim e contradição dos fins. Ai! Aquele que adivinha a minha vontade adivinha também os
caminhos tortuosos que precisa seguir.
 Seja qual for a coisa que eu crie e o amor que lhe tenha, em breve devo ser adversário e o adversário do meu amor: assim o quer a
minha vontade.
 E tu também, investigador, não és mais do que a senda e a pista da minha vontade: a minha vontade de domínio segue também os
vestígios da tua vontade de verdade.
 Certamente não encontrou verdade aquele que falava da “vontade de existir”; não há tal vontade.
 Porque o que não existe não pode querer; mas como poderia o que existe ainda desejar a existência!
 Só onde há vida há vontade; não vontade de vida, mas como eu predico, vontade de domínio.
 Há muitas coisas que o vivente aprecia mais do que a vida; mas nas próprias apreciações fala a “vontade de domínio”.
 Isto ensinou-me um dia a vida, e por isso, sapientíssimos, eu resolvo o enigma do vosso coração.
 Em verdade vos digo. Bem e mal imorredouros não existem. É preciso que incessantemente se excedam a si mesmos.
 Com os vossos valores e as vossas palavras do bem e do mal, vós, os apreciadores de valor, exerceis poderio; e é este o vosso amor
oculto e o esplendor, o tremor e o transbordar da vossa alma.
 Dos vossos valores, porém, surge um poder mais forte e uma nova vitória sobre si, que parte os ovos e as cascas do ovo.
 E o que deve ser criador no bem e no mal deve começar por ser destruidor e quebrar os valores.
 Assim a maior malignidade forma parte da maior benignidade; mas esta benignidade é a criadora.
 Digamo-lo, sapientíssimos, embora nos custe muito; calarmo-nos é ainda mais duro: todas as verdades caladas se tornam venenosas.
 Aniquile-se tudo quanto pode ser aniquilado pelas nossas verdades! Há ainda muitas casas a edificar!”
 Assim falava Zaratustra.

DOS HOMENS SUBLIMES

 Tranqüilo é o fundo do meu mar. Quem adivinharia que oculta monstros divertidos!
 A minha profundidade é inabalável, mas radiante de enigmas e gargalhadas!
 Hoje vi um homem sublime, solene, um purificador do espírito. Como a minha alma se riu da sua fealdade!
 Inflando o peito, como quem aspira, estava ali silencioso o homem sublime, engalanando com feias verdades, sua polaina de caça, e rico
com vestidos rotos também nele havia muitos espinhos, mas não vi nenhuma rosa.
 Ainda não conhece o riso nem a beleza.
 Com semblante desabrido voltou esse caçador do conhecimento.
 Lutou com animais selvagens; mas a sua rígida fisionomia ainda reflete o animal selvagem: um animal não subjugado.
 Ei-lo sempre como um tigre preparando o salto; mas a mim não me agradam essas almas mesquinhas; não são do meu gosto todos esses
retraídos.
 E vós, amigos, dizeis-me que questões de gostos não se discutem. Toda a vida, contudo, é luta pelos gostos.
 O gosto é a um tempo o peso, a balança, e o pesador; e ai de toda a coisa viva que quisesse viver sem luta pelos pesos, as balanças e os
pesadores.
 Se este homem sublime se enfastiasse da sua sublimidade, só então principiaria a sua beleza, e só então quereria eu gostar dele, só então
lhe acharia gosto.
 E só quando se apartar de si saltará por cima da sua sombra e penetrará no seu sol.
 Demasiado tempo esteve sentado à sombra; o purificador do espírito viu empalidecer as faces, e quase o matou de fome a espera.
 Ainda, nos seus olhos há desdém, e repugnância oculta nos seus lábios.
 É verdade que descansa agora, mas ainda não descansou ao sol.
 Deveria fazer como o touro, e a sua felicidade deveria rescender a terra, e não ao desprezo da terra.
 Quereria vê-lo como um touro branco que sopra e muge diante do arado e o seu mugido deveria cantar o louvor de tudo o que é
terrestre.
 O seu semblante ainda é sombrio; nele se projeta, a sombra da mão. Ainda está na sombra o seu olhar.
 A sua própria ação nele não é mais do que uma sombra; a mão escurece o que atua. Ainda não está superior ao seu ato.
 Agrada-me ver nele o pescoço de um touro, mas agora também me agradaria ver-lhe o olhar de anjo.
 É preciso igualmente que esqueça a sua vontade de herói: deve ser para mim um homem elevado, e não só sublime: até o éter deveria
elevar esse homem sem vontade.
 Venceu monstros, adivinhou enigmas; mas precisava também salvar os seus monstros e os seus enigmas; precisava transformá-los em
filhos divinos.
 O seu conhecimento ainda não aprendeu a sorrir e a não ter inveja: a onda da sua paixão ainda se não acalmou na beleza.
 Não é de certo na sociedade que se deve calar e submergir o seu desejo, mas na beleza. A graça forma parte da generosidade dos que
pensam com elevação.

file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/zara.rb/000000-zara.html (38 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Com o braço sobre a cabeça: eis como deveria repousar o herói; assim até deveria estar superior ao seu repouso.
 Mas, precisamente para o herói, a beleza é a mais difícil de todas as coisas. A beleza é inexequível para toda a vontade violenta.
 Um tanto mais, um tanto menos, esse pouco aqui é muito.
 Permanecer com os músculos inativos e a vontade desembaraçada é o que há de mais difícil para vós, homens sublimes.
 Quando o poder se torna clemente e desce ao visível, a essa clemência chamo eu beleza.
 De ninguém exijo tanto a beleza como de ti, que és poderoso; seja a tua bondade a tua última vitória sobre ti mesmo.
 Julgo-te capaz de todas as maldades: mas exijo de ti o bem.
 Na verdade tenho-me rido amiúde dos fracos que se julgam bons por terem as patas tolhidas!
 Deveis imitar a virtude da coluna, que vai sendo mais bela e mais fina, porém mais dura e resistente interiormente à medida que se
alteia.
 Sim, homem sublime: um dia serás belo e apresentarás ao espelho a tua própria beleza.
 Então estremecerá a tua alma com desejos divinos, e na tua vaidade haverá adoração!
 Porque eis aqui o segredo da tua alma: quando o herói a abandona, é então que se aproxima em sonhos o super-herói”.
 Assim falava Zaratustra.

DO PAÍS DA CIVILIZAÇÃO
 “Voei demasiado longe pelo futuro, e horrorizei-me.
 Quando olhei em torno de mim reparei que o tempo era o meu único contemporâneo.
 Tornei então para trás, cada vez mais apressado: assim cheguei até vós, homens atuais; assim cheguei ao país da civilização.
 Pela primeira vez vos olhei com olhos favoráveis e com bons desejos.
 E que me sucedeu? Apesar do medo que me invadiu... tive que me pôr a rir! Nunca meus olhos viram o que quer que fosse tão bizarro.
 Eu ria, ria, ao passo que me tremiam os pés e também o coração. “Mas este — disse comigo — é o país dos vasos coloridos!”
 Com a face e os membros pintados de mil maneiras, assim me assombrasteis, homens atuais.
 E com mil espelhos à vossa roda, que adulavam e repetiam o efeito das vossas cores.
 Certo, não podíeis usar melhores máscaras do que a vossa própria cara, homens atuais.
 Quem vos poderia reconhecer?
 Pintalgados com os sinais do passado, cobertos por seu turno com outros sinais: assim vos ocultasteis de todos os intérpretes!
 E embora se soubesse examinar as entranhas, quem acreditaria que tivésseis entranhas? Pareceis feitos de cores e de papéis pegados.
 Todos o tempos e todos os povos olham revoltadamente através dos vossos véus; todos os costumes e todas as crenças falam
confundidos através de vossa atitude.
 Aquele