assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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que vos tirasse os véus, os retoques, as cores e as atitudes, não deixaria mais do que um espantalho.
 Na verdade, eu mesmo sou um pássaro espantado que uma vez vos viu nu e sem cores! e quando tal esqueleto me acenou amoroso, fugi
espavorido.
 Porque preferiria descer aos profundos e confundir-me nas sombras do passado! As sombras dos que existiram têm mais consistência
do que vós.
 A minha íntima amargura, homens atuais, é que vos não posso suportar nem nus, nem vestidos!
 Tudo o que inquieta no futuro e tudo o que pode afugentar um pássaro espantado inspira verdadeiramente mais quietude e calma do
que a vossa “realidade”.
 Porque vós dizeis: “Somos inteiramente reais, não temos crenças nem superstições”; assim encheis o papo, sem ter papo sequer.
 Sim. Como seria possível vós crerdes, tão pintados! Vós que sois pinturas de tudo quanto se tem acreditado!
 Sois uma refutação da própria fé, e a rutura de todos os pensamentos.
 Seres incríveis! Assim vos chamo eu a vós, “homens da realidade”.
 Todas as épocas declamaram umas contra as outras em vossos espíritos: e os sonhos e as declamações de todas as épocas eram mais
reais do que a vossa vigília.
 Sois estéreis: por isso vos falta a fé. Aquele, porém, que devia criar, tinha também sempre os seus sonhos de verdade e os seus sinais
estelares, e tinha fé na fé!
 Sois portas entreabertas onde aguardam os coveiros. Eis a vossa realidade: “Tudo merece desaparecer”.
 Ah! Como estais aí diante de mim, homens estéreis? Que pobreza de costelas! E quantos dentre vós que o não têm visto.
 E dizem: “Tirar-me-ia algum deus qualquer coisa enquanto eu dormia? Certamente, o suficiente para formar uma mulher! É
prodigiosa a pobreza das minhas costelas!” Assim têm falado já muitos homens célebres.
 Sim; fazeis-me rir, homens atuais e sobretudo quando vos assombrais de vós mesmos.
 Pobre de mim se me não pudesse rir do vosso assombro e se tivesse de tragar tudo quanto há de repugnante em vossas escudelas!
 Eu, porém, tomo-vos ao de leve, pois tenho coisas pesadas para levar; e que me importa pousem na minha carga insetos e moscas?
 A verdade é que a minha carga não será mais pesada por isso. Não sois vós, contemporâneos, que me haveis de ocasionar maior fadiga.
 Aonde devo subir ainda com o meu desejo? Olho do alto de todos os píncaros à procura de pátrias e de terras natais.
 Em nenhuma parte, porém, as encontro: ando errante por todas as cidades e saio de todas as portas.
 Os homens atuais, para quem há pouco se inclinava o meu coração, agora são-me estranhos e provocam-me o riso: e vejo-me expulso
das pátrias e das terras natais.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Já não amo, pois, senão o país dos meus filhos, a terra incógnita entre mares longínquos: é essa que a minha vela deve, incessante,
procurar.
 Em meus filhos quero remediar o ser filho de meus pais; e, no futuro todo, quero remediar este presente”.
 Assim falava Zaratustra.

DO IMACULADO CONHECIMENTO

 “Ontem a lua, ao nascer, pareceu-me que ia dar à luz um sol: tão avultada e prenhe jazia no horizonte.
 Mentia, porém, com a sua prenhez, e mais julgaria a lua homem do que mulher.
 Claro que também é muito pouco homem este tímido notâmbulo. Anda pelos telhados com a consciência turva.
 Que a solitária lua está cheia de cobiça e de inveja: cobiça a terra e todas as alegrias dos que amam.
 Nada; não me agrada esse gato dos telhados; previnem-me todos os que espreitam as janelas voltadas.
 De manso e silencioso anda por alfombras de estrelas; mas eu detesto todos os pés cautelosos em que nem mesmo as esporas tilintam.
 Os passos do homem leal falam; mas o gato anda em segredo. Vede: a lua caminha deslealmente como o gato.
 A vós, hipócritas afetados, que procurais o “conhecimento puro”, ofereço esta parábola. A vós eu chamo lascivos.
 Vós também amais a terra e tudo quanto é terrestre: compreendi-vos bem! O vosso amor, porém, envergonha-se com uma consciência
tortuosa: pareceis-vos com a lua.
 O vosso espírito convenceu-se de que deve menosprezar tudo quanto é terreno; mas não se convenceram as vossas entranhas. Elas são,
todavia, o mais forte que há em vós.
 E agora o vosso espírito envergonha-se de obedecer às vossas entranhas, e segue caminhos escusos e ilusórios para se livrar da sua
própria vergonha.
 “Para mim seria a coisa mais elevada (assim diz a si mesmo o vosso falso espírito) olhar a vida sem cobiça, e não como cães, com a
língua de fora.
 Ser feliz na contemplação, com a vontade morta, isento de capacidade e de apetite egoísta, frio de corpo, mas com os olhos embriagados
de lua.
 Para mim seria o melhor (assim se engana a si mesmo o enganado) amar a terra como a luz a ama, e tocar na sua beleza apenas com os
olhos.
 Eis o que eu chamo o imaculado conhecimento de todas as coisas: não querer das coisas mais do que poder estar diante delas”.
 Hipócritas afetados e lascivos! Falta-vos a inocência no desejo, e por isso caluniais o desejo!
 Vós não amais a terra como criadores, como geradores satisfeitos de criar.
 Onde há inocência? Onde há vontade de engendrar. E o que criar qualquer coisa superior a si mesmo, esse, para mim, tem a vontade
mais pura.
 Onde há beleza? Onde é mister que eu queira com toda a minha vontade, onde eu quero amar e desaparecer, para que uma imagem não
fique reduzida a uma simples imagem.
 Amar e desaparecer: são coisas que andam a par há eternidades. Querer amar é também estar pronto a morrer. Assim vos falo eu,
covardes!
 Mas o vosso olhar ambíguo e afeminado quer ser contemplativo! E para vós, que maculais os nomes nobres, o que se pode tocar com
olhos pusilânimes deve-se chamar “belo!”
 A vossa maldição, porém, — ó! imaculados que procurais o simples conhecimento! — há de ser nunca chegardes a dar à luz, por muito
avultados e prenhes que apareçais no horizonte.
 Na verdade, encheis a boca de palavras nobres, e havíamos de crer que o vosso coração transborda, embusteiros?
 As minhas palavras, porém, são grosseiras, desprezadas e informes: a mim agrada-me recolher o que nos vossos festins cai da mesa.
 Com as minhas palavras chego sempre a dizer a verdade aos hipócritas! Sim, as minhas arestas, as minhas conchas e as minhas folhas
espinhosas devem fazer-vos cócegas nos narizes, hipócritas!
 Sempre há ar viciado em redor de vós e dos vossos festins: porque no ar flutuam os vossos lascivos pensamentos, as vossas mentiras e as
vossas dissimulações.
 Atreveis-vos, pois, em primeiro lugar a ter fé em vós mesmos — em vós e nas vossas entranhas! — o que não tem fé em si mesmo mente
sempre.
 Pusesteis diante de vós a máscara de um deus, homens “puros”: a vossa ignominiosa e rasteira larva ocultou-se detrás da máscara de
um deus.
 A verdade é que vos enganais, “contemplativos!” Zaratustra também foi joguete das vossas divinas peles; não suspeitou que eram
serpentes que enchiam essa pele.
 Nos vossos divertimentos julgava eu ver divertir-se a alma de um deus, simples investigadores! Eu não conhecia arte melhor que os
vossos artifícios!
 A vossa distância ocultava-me imundícies de serpente e maus cheiros, e eu não sabia que por aqui rondava, lasciva, a astúcia de um
lagarto.
 Abeirei-me, porém, de vós: então chegou a mim a luz — e agora chega a vós; — os amores da lua estão no seu declive.
 Olhai-a. Aí a tendes surpreendida e pálida ante a aurora!
 Porque já surge ardente a aurora: o seu amor pela terra aproxima-se! Todo o amor solar é inocência e desejo do criador.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Vede como a aurora passa impaciente pelo mar! Não sentis a sede e o