assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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cálido alento do seu amor?
 Quer aspirar o mar e beber as suas profundidades, e o desejo do mar eleva-se com mil ondas.
 Porque o mar quer ser beijado e aspirado pelo sol; quer tornar-se ar e altura e senda de luz também.
 Eu, à semelhança do sol, como a vida e todos os mares profundos.
 E tal é para mim o conhecimento: todo o profundo deve subir à minha altura”.
 Assim falava Zaratustra.

DOS DOUTOS

 “Estando eu adormecido, pôs-se uma ovelha a despinicar a coroa de hera da minha cabeça, dizendo enquanto comia: “Zaratustra já
não é um sábio”.
 Dito isto retirou-se altiva e desdenhosa.
 Assim me contou um rapazinho.
 Gosto de me deitar onde as crianças estão brincando, junto do muro gretado, sob os cardos e as vermelhas papoulas.
 Ainda sou um sábio para as crianças, e também para os cardos e para as papoulas vermelhas. Todos eles são inocentes até na sua
maldade.
 Já não sou um sábio para as ovelhas: assim o quer a minha sorte. Bendita seja!
 Porque é esta a verdade: saí da casa dos sábios atirando com a porta.
 Demasiado tempo esteve a minha alma faminta sentada à sua mesa; eu não estou assim como eles, adestrado para o conhecimento
como para descascar nozes.
 Amo a liberdade e o ar na terra fresca; e até me agrada mais dormir em peles de bois do que nas suas honrarias e dignidades.
 Sou ardente demais e estou demasiado consumido pelos meus próprios pensamentos; falta-me amiúde a respiração; então necessito
procurar o ar livre e sair de todos os compartimentos empoeirados.
 Eles, porém, estão sentados muito frescos à fresca sombra: em parte alguma querem passar de espectadores, e livram-se bem de se
sentar onde o sol caldeia os degraus.
 À semelhança dos que se postam no meio da rua a olhar de boca aberta quem passa, assim eles aguardam de boca aberta os
pensamentos dos outros.
 Se se lhes toca com as mãos, involuntariamente levantam pó em torno de si, como sacos de farinha; mas quem suspeitaria que o seu pó
procede do grão e das douradas delícias dos campos de estio?
 Se dão mostras de sábios, horrorizam-me com as suas sentenças e as suas verdades: a sua sabedoria cheira amiúde como se saísse de
um pântano, e indubitavelmente já nele ouvi cantar as rãs.
 São destros e têm dedos hábeis: que tem que ver a minha simplicidade com a sua complexidade? Os seus dedos estendem à maravilha
tudo quanto seja fiar, ajuntar e tecer; tanto assim que fazem as meias do espírito.
 São bons relógios — sempre que haja o cuidado de lhes dar corda. — Indicam então a hora sem falar e com um ruído modesto.
 Trabalham como moinhos e morteiros: basta lançar-lhes grão! Eles já sabem moer bem o grão e convertê-lo em branca farinha.
 Olham os dedos uns dos outros com desconfiança. Inventivos em pequenas maldades, espreitam aqueles cuja ciência coxeia; espreitam-
nos como aranhas.
 Sempre os vi preparar veneno com precaução, tapando as mãos com luvas de cristal.
 Também jogam com dados falsos, e vi-os jogar com tal entusiasmo que estavam banhados de suor.
 Somos estranhos uns aos outros, e as suas virtudes ainda me contrariam mais do que as suas falsidades e trapaças.
 E quando eu andava entre eles, mantinha-me sempre por cima deles; e é por isso que me olham de soslaio.
 Não querem ouvir andar ninguém por cima das suas cabeças; por isso entre mim e as suas cabeças puseram ramagem, terra e lixo.
 Assim abafaram o ruído dos meus passos; e até agora os mais doutos são os que menos me têm ouvido.
 Entre mim e eles interpuseram todas as fraquezas e todas as faltas dos homens: “andar falso” eis como chamam a isto nas suas casas.
 Eu, porém, apesar de tudo, ando sempre por cima da cabeça deles com os meus pensamentos; e se quisesse andar com os meus próprios
defeitos, ainda assim andaria sobre eles e sobre as suas cabeças.
 Que os homens não são iguais: assim fala a justiça. E o que eu quero não poderiam eles querer!”
 Assim falava Zaratustra.

DOS POETAS

 “Desde que conheço melhor o corpo — dizia Zaratustra a um dos seus discípulos — para mim o espírito já não é espírito senão até
certo ponto; e todo o “imorredouro” não é também mais do que símbolo”.
 “Já te ouvi falar assim — respondeu o discípulo — e nesse tempo acrescentavas: “Os poetas, porém, mentem demais. Por que dizias
que os poetas mentem demais?”
 “Por que? — disse Zaratustra. — Perguntas por que?
 Eu não pertenço ao número daqueles a quem é lícito interrogar sobre o seu porque.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Será de ontem por acaso o que eu tenho experimentado? Há muito tempo que experimento os fundamentos das minhas opiniões.
 Precisaria ser um tonel de memória para poder arrecadar as minhas razões.
 Bastante me custa já arrecadar as minhas opiniões e mais de um pássaro me foge.
 E também acontece introduzir-se-me no pombal qualquer bicho estranho para mim, o qual treme quando o agarro.
 No entanto, que te dizia um dia Zaratustra? Que os poetas mentem demais?
 Zaratustra, contudo, também é poeta.
 Julgas então que eu falava verdade?
 Por que julgas isso?”
 O discípulo respondeu: “Eu creio em Zaratustra”, Zaratustra, porém, meneou a cabeça sorrindo.
 “Não me salve a fé — respondeu — e a fé em mim mesmo, ainda menos do que nenhuma.
 Supondo, todavia, que alguém dissesse seriamente que os poetas mentem demais, esse alguém teria razão: nós mentimos demasiado.
 Sabemos também pouco demais e aprendemos mal demais; por conseguinte, forçoso é mentirmos.
 Logo, quem entre nós, poetas, não terá adulterado o seu vinho? Muitas misturas envenenadas se têm feito em nossas tabernas: tem-se
realizado nelas o indiscritível.
 E é por sabermos pouco que nos seduzem os pobres de espírito, especialmente quando são mulheres novas.
 E até desejamos as coisas que as velhas contam entre si à noite. É o que em nós mesmos chamamos o eterno feminino.
 E como se existisse um caminho secreto que conduzisse ao saber e se subtraísse aos que aprendem qualquer coisa, assim cremos no povo
e na sua sabedoria.
 Todos os poetas, porém, julgam que aquele que está deitado na erva ou numa encosta solitária, com o ouvido à escuta, aprende algo do
que se passa entre o céu e a terra.
 E se experimentam ternas comoções os poetas supõem sempre que a própria Natureza está apaixonada por eles.
 E que se lhe acerca ao ouvido a murmurar coisas secretas e palavras carinhosas. Disso se gabam e se gloriam, perante todos os mortais.
 Ai! Existem tantas coisas entre o céu e a terra que só os poetas sonharam!
 E mormente no céu: porque todos os deuses são símbolos e artifícios de poeta.
 A verdade é que sempre nos sentimos atraídos para o alto, isto é, para o reino das nuvens: lá colocamos os nossos manequins de mil
cores, e chamamos-lhes deuses e Super-homens.
 Que todos esses deuses e Super-homens são bastante leves para poder ocupar esses lugares.
 Ah! Como estou farto de todo o deficiente que se empenha em ser um acontecimento!
 Ah! como estou farto dos poetas!”
 Quando Zaratustra disse isto, o discípulo ficou irritado contra ele, mas calou-se. Zaratustra emudeceu igualmente e os olhos volveram-
se-lhes para o íntimo como se olhassem ao longe. Por fim começou a suspirar e a tomar alento!
 “Eu sou hoje e de antes — disse — mas em mim há qualquer coisa que é amanhã, de depois de amanhã e do futuro.
 Estou enfastiado dos poetas, dos antigos e dos novos: para mim todos são superficiais, todos são mares esgotados.
 Não pensaram profundamente; por isso mesmo não sentiram fundo.
 Um tanto de voluptuosidade e um tanto de tédio; eis ao que se reduziram as suas meditações.
 Os seus arpejos apenas me parecem hálito e fuga de fantasmas. Até hoje que sabem eles da alacridade dos sons?
 Também os acho pouco