assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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asseados: todos turvam as suas águas para parecer profundas.
 Gostam de se fazer passar por conciliadores; mas, para mim, são sempre pessoas de meios termos, de composições e miscelâneas, e
sórdidos.
 Ai! Lancei as minhas redes aos mares deles para apanhar peixes, mas tão só pesquei a cabeça de um deus antigo.
 Assim deu o mar uma pedra ao faminto. E os próprios poetas parecem vir do mar.
 Certo, neles encontram-se pérolas: devem parecer-se ainda mais a duros testáceos. E ao invés de alma tenho visto freqüentemente no
seu interior espuma salgada.
 Também do mar aprenderam a sua vaidade: não é o mar o primeiro dos pavões reais?
 Até diante do mais feio búfalo abre a sua cauda: nunca se há de cansar do seu leque de rendas, prata e seda.
 O búfalo olha essas coisas com enfado, pois tem o pensamento em areias, matas e pântanos.
 Que lhe importam a ele a beleza e o Oceano, e as galas do pavão? Eis o símbolo que ofereço aos poetas.
 O seu espírito próprio é o rei dos pavões e um oceano de vaidade.
 O espírito do poeta quer espectadores; assim fossem búfalos!
 Eu, porém, enfastiei-me desse espírito e vejo chegar um tempo em que ele próprio se enfastiará de si mesmo.
 Já vi poetas transformarem-se e procederem contra si próprios.
 Tenho visto redentores do espírito: saíram dos poetas”.
 Assim falava Zaratustra.

DOS GRANDES ACONTECIMENTOS

 Há uma ilha no mar — perto das Ilhas Bem-aventuradas de Zaratustra — onde fumega constantemente uma montanha de fogo. O
povo, e mormente as velhas, dizem que essa ilha está colocada como um penhasco diante da porta do inferno; mas o mesmo atalho que
leva a essa porta atravessa a ígnea montanha.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Sucedeu, pois, que na época em que Zaratustra vivia nas Ilhas Bem-aventuradas, ancorou um baixel na ilha onde se acha a montanha
fumegante, e a sua tripulação saltou para terra para atirar aos coelhos. Ao meio dia, porém, quando novamente estavam reunidos o
capitão e a sua gente, viram de súbito um homem atravessar o ar perto deles, e uma voz pronunciou nitidamente estas palavras: “Já é
tempo! não há um instante a perder!”
 Quando a visão se aproximou mais — passava rápida, como uma sombra, em direção da montanha de fogo — reconheceram
sobressaltados que era Zaratustra: porque já todos o conheciam, exceto o capitão, e lhe queriam como quer o povo, misturando em partes
iguais o amor e o receio.
 “Olhem — disse o piloto — é Zaratustra que vai para o inferno”!
 Pela mesma época em que estes marinheiros arribaram à ilha do fogo, correu o rumor de que desaparecera Zaratrustra, e,
interrogados os amigos, responderam que durante a noite embarcara sem dizer para onde.
 Houve, por conseguinte, certa inquietação; mas ao fim de três dias essa inquietação aumentou com a narrativa dos marinheiros, e todo
o povo julgava que o demônio levara Zaratustra. A verdade é que os discípulos dele se riam desses rumores, e até um deles chegou a dizer:
“Prefiro acreditar que foi Zaratustra quem levou o demônio”. No íntimo, porém, todos estavam cheios de angústia e de sobressalto!
Grande foi, portanto, o seu alvoroço quando ao fim de cinco dias, Zaratustra lhes apareceu.
 Eis a descrição da conversa que Zaratustra teve com o cão do fogo:
 “A terra — disse — tem pele, e essa pele sofre enfermidades; uma delas, por exemplo, chama-se “homem”.
 E a outra chama-se “cão do fogo”. Acerca dele têm os homens dito e deixado dizer muitas mentiras.
 Para aprofundar esse segredo cruzei o mar e vi a verdade, nua, nua dos pés à cabeça.
 Sei agora a que me hei de ater sobre o cão do fogo, assim como sobre todos os estragos que atemorizam, e não só as velhas.
 Sai da tua profundidade, cão do fogo — exclamei — e confessa quão profundo é essa profundidade! Donde tiras o que vomitas?
 Bebes copiosamente do mar: é isso o que revela o sal da tua facúndia. Verdadeiramente, para um cão das profundidades, tomas
demasiado alimento da superfície.
 Olho-te em suma, como o ventríloquo da terra, e sempre que ouvi falar a demônios de erupções e estragos, sempre me pareceram
semelhantes a ti, com o teu sal, as tuas mentiras e as tuas trivialidades.
 Sabes mugir e obscurecer com cinzas! Tens as maiores bocarras, e aprendestes bastante a arte de fazer ferver lodo.
 Por onde quer que andes sempre há de haver perto de ti lodo e coisas esponjosas, cavernosas e comprimidas: tudo isso quer liberdade.
 “Liberdade!” é o teu grito predileto, mas eu perdi a fé nos “grande acontecimentos” desde que em torno deles haja muitos uivos e
muita fumarada.
 Creia em mim, ruído do inferno! Os acontecimentos maiores não são os mais ruidosos, mas as nossas horas mais silenciosas.
 O mundo gira, não em redor dos inventores de estrondos novos, mas à roda dos inventores de valores novos: gira sem ruído.
 E confessa-o! Quando o teu ruído e o teu fumo se dissipavam, sempre sucedia ter-se passado coisa pouco importante. Que importa que
uma cidade se torne múmia, e que caia no lodo uma coluna!
 E acrescentarei mais estas palavras para os destruidores de colunas: “É rematada loucura deitar sal no mar e colunas no lodo.
 A coluna jazia no lodo do desprezo; mas a sua lei quer que surja do desprezo com nova vida e beleza.
 Ergue-se agora com mais divina aparência e sedutor sofrimento, e ainda dará graças, destruidores, por a terdes derrubado.”
 É este, porém, o conselho que dou aos reis e às igrejas, e a quanto fraqueja pela idade e pela virtude: “deixai-vos derrubar para
volverdes à vida e de vós se assenhoreie a virtude!”
 Assim falei diante do cão do fogo; mas ele interrompeu-me rosnando e perguntou-me: “Igreja? Isso que é?”
 Igreja — respondi — é uma espécie de Estado, e a espécie mais enganosa. Galante, porém, cão hipócrita: tu conheces a tua raça melhor
que ninguém!
 O Estado é um cão hipócrita como tu; como a ti, agrada-lhe falar fumegando e uivando, para fazer crer, como tu, que fala saindo das
entranhas das coisas.
 Que o Estado empenha-se em ser o animal mais importante da terra. E julga sê-lo.
 Quando disse isto, o cão do fogo pareceu louco de ciúme “Que! — exclamou. — O animal mais importante da terra?
 E julga sê-lo?” E do seu gasnete saíram vozes tão terríveis que eu supus o asfixiaria a cólera e a inveja.
 Por fim foi-se calando, diminuindo os seus uivos; mas quando ele se calou, disse-lhe eu rindo:
 “Encolerizas-te, cão do fogo! Por conseguinte, tenho razão.
 E para eu conservar a razão, deixa-me falar-te doutro cão do fogo; este fala realmente do coração da terra.
 O seu hálito é de ouro e uma chuva de ouro: assim o quer o seu coração. As cinzas, o fumo e a espuma quente, para ele que são?
 Do seu seio voa um riso como uma nuvem colorida: é inimigo dos teus murmúrios, das tuas erupções, e da raiva das tuas entranhas.
 O seu ouro e o seu riso, porém, tira-os do coração da terras porque, não sei se sabes que o coração da terra é de ouro!”
 Ao ouvir isto o cão do fogo não pôde escutar-me mais. Envergonhado meteu o rabo entre as pernas, e arrastando-se para a sua casota,
ia dizendo, confuso: “Guão! guão!”
 Assim contava Zaratustra; mas os discípulos quase o não ouviam, tanta era a sua vontade de lhes falar dos marinheiros, dos coelhos e
do homem voador.
 “Que hei de eu pensar disso? — disse Zaratustra. — Acaso serei um fantasma?
 Isso deve ter sido a minha sombra.
 Já ouvistes falar do viajante e da sua sombra?
 O certo é que devo prendê-la mais, ou tornará a prejudicar-me a reputação.
 E Zaratustra tornou a menear a cabeça com admiração: “Que devo pensar disso? — repetiu.
 Por que gritaria o fantasma? “Já é tempo! Não há um instante a perder!”

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