assim falava zaratustra
113 pág.

assim falava zaratustra

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização50 páginas
15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Mas, para que é que já é tempo?”
 Assim falava Zaratustra.

O ADIVINHO

 “... e vi os homens sumirem-se numa grande tristeza. Os melhores cansaram-se das suas obras.
 Proclamou-se uma doutrina e com ela circulou uma crença: Tudo é oco, tudo é igual, tudo passou!”
 “É verdade que temos colhido; mas porque apodreceram e enegreceram os nossos frutos? Que foi que na última noite caiu da má lua?
 O nosso trabalho foi inútil; o nosso vinho tornou-se veneno; o mau olhado amareleceu-nos os campos e os corações.
 Secamos de todo, e se caísse fogo em cima de nós, as nossas cinzas voariam em pó. Sim; cansámos o próprio fogo.
 Todas as fontes secaram para nós, e o mar retirou-se. Todos os solos se querem abrir, mas os abismos não nos querem tragar!
 “Ó! Aonde haverá ainda um mar em que uma pessoa se possa afogar?” Assim a nossa queixa ressoa através dos pântanos.
 Na verdade, já nos fatigamos demais para morrer; agora continuamos a viver acordados em abóbadas funerárias!”
 Assim ouviu Zaratustra falar um adivinho; e a sua predição chegou-lhe diretamente à alma e transformou-o. Vagueou triste e fatigado,
e tornou-se semelhante àqueles de que falara o adivinho.
 “Na verdade — disse ele aos discípulos — pouco falta para chegar esse grande crepúsculo. Ai! Como hei de haver para o atravessar
salvando a minha luz?
 Como farei para a minha luz se não afogar nessa tristeza? Deve ser ainda a luz de mundos longínquos a iluminar as noites mais
longínquas!”
 Fundamente preocupado, Zaratustra começou a vaguear de uma para outra parte, e durante três dias não comeu nem bebeu, nem
descansou e perdeu a palavra. Por fim caiu num profundo sono.
 Entretanto, os discípulos passavam grande vigílias, sentados à roda dele, e aguardavam desassossegados que ele despertasse e se
curasse da sua tristeza.
 Eis, porém, o discurso que lhes dirigiu Zaratustra ao despertar, ainda que sua voz parecesse vir de longe.
 — “Ouvi o sonho que tive, amigos, e ajudai-me a adivinhar a sua significação!
 Para mim este sonho é um enigma; o seu sentido permanece ainda oculto nele e vela; ainda não paira livremente sobre ele.
 Sonhei que renunciara à vida. Convertera-me em vigilante noturno e guardião dos túmulos, na montanha solitária do palácio da Morte.
 Lá guardava eu os seus ataúdes: as abóbadas sombrias estavam cheias desses troféus das suas vitórias.
 Através dos féretros de cristal olhavam-me as vidas vencidas.
 Eu respirava a atmosfera de eternidades reduzidas a pó: a minha alma jazia sufocada e pulverulenta. E quem poderia arejar ali a
alma?
 Rodeava-me a claridade da noite, e ao seu lado acaçapava-se a solidão; sobre isto um sepulcral silêncio de agonia, o pior dos meus
amigos.
 Eu levava as minhas chaves, o mais ferrugentas que podiam ser; e sabia abrir com elas as portas mais perras.
 Com gritos roucos de cólera corriam os sons por largas galerias, quando se abriam os batentes da porta: uma ave soltava gritos
sinistros: não queria ser acordada.
 O mais espantoso, porém, e quando mais se me oprimia o coração era quando tudo outra vez se calava, e eu tornava a ver-me só no
meio daquele silêncio traiçoeiro.
 Assim passou o tempo lentamente, se é que ainda se podia falar de tempo; mas afinal sucedeu o que me despertou.
 Soaram três pancadas à porta, as abóbadas tremeram e ressoaram três vezes seguidas: aproximei-me da porta.
 — Alpa — exclamei. — Quem leva a sua cinza para a montanha? Alpa! Alpa! Quem leva a sua cinza para a montanha?
 E apertava a chave, e empurrava a porta, e forcejava; mas a porta não cedia.
 Nisto o furacão separou-lhe, violento, os batentes; e por entre silvos e gritos agudos, que cortavam o ar, atirou-me com um negro
ataúde.
 E, silvando e rugindo, o ataúde despedaçou-se e despediu mil gargalhadas.
 Mil visagens de crianças, de anjos, de corujas, de loucos e de borboletas do tamanho de crianças se riam e zombavam de mim.
 Eu tinha um medo horrível: cai no chão e gritei de pavor como nunca gritara.
 O meu grito despertou-me, porém, e tornei a mim”.
 Assim contou Zaratustra o seu sonho, depois calou-se, porque ainda lhe não conhecia a significação; mas o seu discípulo mais dileto
levantou-se imediatamente, pegou-lhe na mão e disse:
 “A tua própria vida nos explica esse sonho, Zaratustra!
 Não serás tu o vento de silvos agudos que arranca as portas do palácio da Morte?
 Não serás tu o ataúde cheio de malignidades e de angélicas visagens da vida?
 Na verdade, com mil gargalhadas infantis chega Zaratustra a todas as câmaras mortuárias, rindo-se de todos esses vigias noturnos e de
todos esses guardiães dos sepulcros que agitam as suas chaves com sinistro som.
 Tu os espantarás e derribarás com o teu riso; o desmaio e o despertar provaram o teu poder sobre eles.
 E mesmo quando chegar o longo crepúsculo e a mortal lassidão, tu não desaparecerás do nosso céu, patrocinador da vida!
 Mostraste-nos novas estrelas e novos esplendores noturnos; estendeste sobre nós o próprio riso com um toldo ricamente matizado.
 Agora, dos túmulos brotarão sempre risos infantis; agora virá, sempre vitorioso de todos os desfalecimentos mortais, um vento

file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/zara.rb/000000-zara.html (44 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

enérgico, do qual tu és o fiador e o adivinho.
 Em verdade sonhaste com eles — com os teus inimigos; — foi esse o teu sonho mais doloroso.
 Mas assim como despertaste deles e tornaste a ti, assim eles devem despertar-se a si próprios... e tornar para ti”.
 Deste modo falou o discípulo; e todos os outros se apinhavam à roda de Zaratustra, pegavam-lhe as mãos e queriam induzi-lo a largar
o leito e a tristeza para tornar para eles. Zaratustra, porém, continuava no leito, com um olhar estranho.
 Como se regressasse de longa ausência contemplou os discípulos e observou-lhes os semblantes; e ainda assim os não reconheceu; mas
quando o ergueram e puseram de pé, os olhos transformaram-se-lhe de repente; compreendeu tudo quanto sucedera, e cofiando a barba,
disse com voz firme:
 “Ora! tudo isso virá a seu tempo; mas, agora, discípulos meus, ide arranjar bom alimento, e já. Quero penitenciar-me assim dos meus
maus sonhos!
 O adivinho, porém, deve comer e beber a meu lado; e eu lhe indicarei um mar onde se possa afogar”.
 Assim falou Zaratustra; mas depois olhou largo tempo o discípulo que lhe explicara o sonho, e meneou a cabeça.

DA REDENÇÃO
 Um dia, passando Zaratustra pela ponte grande, viu-se rodeado de aleijados e de mendigos, e um corcunda disse-lhe assim:
 “Olha, Zaratustra! Também o povo aprende de ti, e começa a crer na tua doutrina; mas para te acreditarem de todo ainda falta uma
coisa: tens que nos convencer também a nós, aleijados. Tens por onde escolher! Podes curar cegos, fazer andar coxos e aliviar um tanto o
que leva às costas uma carga pesada. Será este, a meu ver, o melhor modo de fazer que os aleijados creiam em Zaratustra”.
 Zaratustra respondeu assim ao que falara: “Se ao corcunda se lhe tira a corcova tira-se-lhe ao mesmo tempo o espirito — assim diz o
povo. — Se ao cego se restitui a vista, vê na terra demasiadas coisas más; de forma que maldiz daquele que o curou. — O que faz correr o
coxo faz-lhe o maior dos males: porque apenas se apanha a correr desenvolvem-se-lhe os vícios. Eis o que diz o povo quanto aos aleijados.
E por que razão não aprenderia Zaratustra do povo o que o povo aprendeu de Zaratustra?
 Desde que vivo entre os homens, porém, o que menos me importa é ver que a este falta um olho, àquele um ouvido, a um terceiro a
perna, ou que haja outros que perderam a língua, o nariz ou a cabeça.
 Vejo e já vi coisas piores: e as há tão espantosas, que não quereria falar de todas elas nem também calar-me sobre alguma,