assim falava zaratustra
113 pág.

assim falava zaratustra

Disciplina:Filosofia e Ética2.285 materiais67.876 seguidores
Pré-visualização50 páginas
a saber: há
homens que carecem de tudo, conquanto tenham qualquer coisa em excesso — homens que são unicamente um grande olho, ou uma
grande boca, ou um grande ventre, ou qualquer outra coisa grande. — A esses chamo eu aleijados às avessas.
 Quando, ao sair da minha soledade, atravessava pela primeira vez esta ponte, não dei crédito aos meus olhos, não cessei de olhar e
acabei por dizer: “Isto é uma orelha! Uma orelha do tamanho de um homem!” Acercava-me mais, e por trás da orelha movia-se algo tão
pequeno, mesquinho e débil que fazia compaixão. E efetivamente: a monstruosa orelha descansava num tênue cabelo — esse cabelo era
um homem! — Olhando através de uma lente ainda se podia reconhecer uma cara invejosa, e também uma alma vã que se agitava no
remate do cabelo. O povo, contudo, dizia-me que a orelha grande era não só um homem mas um grande homem, um gênio. Eu, porém,
nunca acreditei no povo quando ele me falava de grandes homens, e sustento a minha idéia de que era um aleijado às avessas que tinha
pouquíssimo de tudo e uma coisa em demasia”.
 Assim que Zaratustra disse isto ao corcovado e àqueles de quem era intérprete e representante, voltou-se para os discípulos com
profundo descontentamento e disse:
 “Meus amigos, ando entre os homens como entre fragmentos e membros de homens.
 Para os meus olhos o mais horrível é vê-los destroçados e divididos como em campo de batalha e de morticínio.
 E se os meus olhos fogem do presente para o passado, sempre encontram o mesmo: fragmentos, membros, e casos espantosos... mas
homens, não!
 O presente e o passado sobre a terra... ai, meus amigos! eis para mim o mais insuportável; e eu não viveria se não fosse um visionário do
que deve vir.
 Um vidente, um voluntário, um criador, um futuro e uma ponte para o futuro — e também, ai! até certo ponto, um aleijado no meio
dessa ponte: — tudo isto é Zaratustra.
 E vós também vos interrogastes amiúde: “Para nós quem é Zaratustra? Como lhe poderemos chamar?” E à minha imitação destes as
vossas perguntas como respostas.
 É o que promete ou o que cumpre? Um conquistador ou um herdeiro? O outono ou a relha do arado? Um médico, ou um
convalescente?
 É poeta ou diz a verdade? É libertador ou dominador? Bom ou mau?
 Eu ando entre os homens como entre os fragmentos do futuro: desse futuro que os meus olhares aprofundam.
 E todos os meus pensamentos e esforços tendem a condenar e a unir numa só coisa o que é fragmento e enigma e espantoso azar.
 E como havia eu de surportar ser homem, se o homem não fosse também poeta adivinho de enigmas e redentor do azar?!
 Redimir os passados e transformar tudo, “foi” num “assim o quis”: só isto é redenção para mim.
 Vontade! — assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria: — eis o que vos ensino, meus amigos; mas aprendei também isto: a
própria vontade é ainda escrava.
 O querer liberta; mas, como se chama o que aprisiona o libertador?
 “Assim foi”: eis como se chama o ranger de dentes e a mais solitária aflição da vontade. Impotente contra o fato, a vontade é para todo
o passado um malévolo espectador.

file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/zara.rb/000000-zara.html (45 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 A vontade não pode querer para trás: não pode aniquilar o tempo e o desejo do tempo é a sua mais solitária aflição.
 O querer liberta: que há de imaginar o próprio querer para se livrar da sua aflição e zombar do seu cárcere?
 Ai! Todo o preso enlouquece! Também loucamente se liberta a vontade cativa.
 A sua raiva concentrada é o tempo não retrocer; “o que foi”: assim se chama a pedra que a vontade não pode remover.
 E por isso, por despeito e raiva, remove pedras e vinga-se do que não sente como ela raiva e despeito.
 Assim a vontade, a libertadora, tornou-se maléfica; e vinga-se em tudo que é capaz de sofrer, de não poder voltar para trás.
 Isto, e só isto, é a vingança em si mesma, a repulsão da vontade contra o tempo e o seu “foi”.
 Realmente vive uma grande loucura na nossa vontade; e a maldição de todo o humano é essa loucura haver aprendido a ter espírito.
 O espírito de vingança: meus amigos, tal foi até hoje a melhor reflexão dos homens; e onde-quer-que houvesse dor, deve sempre ter
havido castigo.
 “Castigo”: assim se chama a si mesma a vingança: com uma palavra enganadora finge uma consciência limpa.
 E como naquele que quer há sofrimento, posto que não é permitido querer para trás, a própria vontade e toda a vida deviam ser
castigo.
 E assim se acumulou no espírito uma nuvem após outra, até que a loucura proclamou: “Tudo passa; por conseguinte, tudo merece
passar!”
 “E aquela lei que diz que o tempo deve devorar os seus próprias filhos, é a mesma justiça”. Assim se proclamou a loucura.
 “A ordem moral das coisas repousa no direito e no castigo. Ai! Como livrarmo-nos da corrente das coisas e do castigo da ‘existência’?
Assim se proclamou a loucura.
 “Como pode haver redenção, se há um direito eterno? Ai! Não se pode remover a pedra do passado: é mister que todos os castigos
sejam também eternos!” Assim se proclamou a loucura.
 Nenhum fato pode ser destruído; como poderia ser desfeito pelo castigo?” Eis o que há de eterno no castigo da existência: a existência
deve ser uma vez e outra, eternamente, ação e dívida. “A não ser que a vontade acabe por se libertar a si mesma, e que o querer se mude
em não querer.” Mas, irmãos, vós conheceis estas canções da loucura!
 Eu vos afastei delas quando vos disse: “A vontade é um criador”.
 Todo o “foi” é fragmento e enigma e espantoso azar, até que a vontade criadora acrescente: “Mas eu assim o quero! Assim o hei de
querer”.
 Já falou, porém, assim? E quando sucederá isso? Acaso a vontade se livrou da sua própria loucura?
 Porventura se tornou a vontade para si mesma redentora e mensageira de alegria? Acaso esqueceu o espírito de vingança e todo o
ranger de dentes?
 Então quem lhe ensinou a reconciliação com o tempo e qualquer coisa mais alta que a reconciliação?
 É preciso que a vontade, que é vontade de Jerônimo, queira qualquer coisa mais alta que a reconciliação; mas, como? Quem a ensinará
também a retroceder?”
 Neste ponto do seu discurso, Zaratustra deteve-se, como de súbito assaltado pelo terror. Contemplou os discípulos com olhos
espantados: o seu olhar penetrava como setas nos seus pensamentos. Passado um momento, porém, tornou-se a rir e disse com serenidade:
 “É difícil viver entre os homens porque é tão difícil uma pessoa calar-se. Sobretudo para um falador!
 Assim disse Zaratustra. O corcunda, entretanto, escutara a conversa ocultando a cara: quando ouviu rir Zaratustra ergueu os olhos
com curiosidade e disse lentamente:
 “Porque é que Zaratustra nos fala de uma maneira e doutra diferente aos seus discípulos?”
 Zaratustra respondeu: “Que há de estranhar? Com seres disformes pode-se muito bem falar de uma maneira disforme!”
 “Sim, disse o corcunda. — E com estudantes bem se pode fazer de professor.
 Mas, porque é que Zaratustra fala de um modo aos seus discípulos, e doutro a si próprio?

DA CIRCUNSPECÇÃO HUMANA
 “Não é a altura que aterroriza; o que aterroriza é o declive!
 O declive donde o olhar se precipita para o fundo, e a mão se estende para o cume. É aqui que se apodera do coração a vertigem da sua
dupla vontade.
 Ai, meus amigos! Adivinhais a dupla vontade do meu coração?
 Vede, vede, qual é o meu declive e o meu perigo; o meu olhar precipita-se para o cume, enquanto a minha mão quereria fincar-se e
amparar-se... no abismo!
 Ao homem se me aferra a vontade, ao homem me prendo com cadeias, enquanto do alto me atrai o Super-homem: porque para lá quer
ir a minha outra vontade.
 E por isso vivo cego entre os homens, como se os não conhecesse: para a minha mão não perder inteiramente a sua fé nas coisas sólidas.