assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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a imposição, o fim e o erro.
 E quando eu caminhava só, de que tinha a minha alma fome durante as noites e nos caminhos do erro? E quando eu escalava montes, a
quem procurava nos píncaros senão a ti?
 E todas as minhas viagens e todas minhas ascensões não passavam de um expediente e recurso da inércia. O que a minha vontade toda
quer é voar, voar para ti!
 E que odiava eu mais do que as nuvens e tudo o que te empana? E odiava até o meu próprio ódio porque te empanava!
 Tenho aversão às nuvens, a esses gatos monteses que se arrastam: tiram-nos a ti e a mim o que nos é comum: a imensa e infinita
afirmação das coisas.
 Nós outros temos aversão às rasteiras nuvens, a esses seres de meio termo e de composições, a esses seres mistos que não sabem nem
bendizer nem maldizer com todo o seu coração.
 Preferia estar metido num túnel ou num abismo sem ver o céu, a ver-te a ti, céu de luz, empanado pelas nuvens que passam!
 E muitas vezes tenho sentido desejos de as trespassar com fulgurantes fios de ouro e rufar como trovão na sua pança de caldeira: rufar
de cólera, visto que me roubam a mim a tua afirmação — céu puro! céu sereno! abismo de luz! — e roubam-te a ti em mim.
 Que eu prefiro o ruído e o troar e as execrações do mau tempo a essa calma medida e duvidosa de gatos.
 E “quem não sabe bendizer deve aprender a maldizer!” De um luminoso céu me caiu, esta máxima luminosa: — até nas escuras noites
brilha esta estrela no meu céu.
 Eu, porém, bendigo e afirmo sempre, contanto que me rodeies, céu sereno, abismo de luz! A todos os abismos, pois, levo a minha
benfeitora afirmação.
 Eu cheguei a ser o que bendiz e afirma; tenho sido um lutador a fim de um dia ter as mãos livres para abençoar.
 E a minha bênção consiste em estar por cima de cada coisa com o seu próprio céu, a sua redonda abóbada, a sua abóbada cerúlea e sua
eterna serenidade: e bem aventurado daquele que assim abençoa!
 Que todas as coisas são batizadas na fonte da eternidade e além do bem e do mal; mas o bem e o mal mesmo não são mais do que
sombras interpostas, úmidas aflições e nuvens passageiras.
 Há bênção certamente, e não maldição quando eu predico: “Sobre todas as coisas se encontra o céu Azar, o céu Inocência, o céu Acaso
e o céu Ufania.”
 “Por azar” é esta a mais antiga nobreza do mundo; eu a restituí a todas as coisas; eu as livrei da servidão do fim.
 Essa liberdade e essa serenidade celeste coloquei-as como abóbadas cerúleas sobre todas as coisas, ao ensinar que acima delas, e por
elas, nenhuma “vontade eterna” queria.
 Eu pus, em vez desta vontade, essa petulância, essa loucura quando ensinei: Há uma coisa impossível em qualquer parte, e essa coisa é
a racionalidade.
 Um pouco de razão, um grão de sensatez, disperso de estrela em estrela, é a levadura indubitavelmente misturada a todas as coisas: por
causa da loucura se acha a sensatez misturada a todas as coisas!
 Um pouco de sensatez é possível: mas eu encontrei em todas as coisas esta benfeitora certeza: preferem bailar sobre os pés do acaso.
 Ó! céu puro e excelso! A tua pureza para mim consiste agora em que não haja nenhuma aranha, nem teia de aranha eterna da razão:
em seres um salão de baile para os azares divinos, uma mesa divina para os divinos dados e jogadores de dados.
 Mas, sorris-te? Disse coisas indizíveis? Maldisse-te querendo abençoar-te?
 O que te faz sorrir é a vergonha de ser dois. Mandas-me retirar e calar, porque chega agora o dia?
 O mundo é profundo, e mais profundo do que jamais pensou o dia. Nem tudo pode falar diante do dia. Mas chega o dia. Separemo-nos
então!
 Ó! céu desenrolado sobre mim, céu pudico e incendido! Ó! felicidade antecedente à saída do sol! Chega o dia. Separemo-nos!”
 Assim falava Zaratustra.

DA VIRTUDE AMESQUINHADORA

I

 Quando Zaratustra chegou à terra firme não foi logo direto à sua montanha e à sua caverna, mas deu muitas voltas e fez muitas
perguntas para se informar duma porção de coisas; e dizia de si para consigo, gracejando: “Eis aqui um rio que, por mil voltas, retrocede
à sua nascente!” Que ele queria saber o que fora feito do homem durante a sua ausência: se se tornara maior ou mais pequeno. E um dia
divisou uma fileira de casas novas; admirado, disse:
 “Que significam aquelas casas? Em verdade, nenhuma alma grande as edificou como símbolo de si mesma.
 Tirá-las-ia da sua caixa de brinquedos algum rapazinho idiota?
 Pois torne-as a meter na caixa outro rapazinho!

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 E aqueles aposentos e desvãos! Poderão ali entrar e sair homens? Parecem-me feitos para bichos de sedas ou para gatos gulosos, que
talvez se deixam também comer”.
 E Zaratustra ficou-se a refletir. Por fim disse com tristeza: “Tudo se tornou pequeno!”
 Por toda a parte vejo portas mais baixas; aquele que é da minha espécie ainda poderá talvez passar por elas, mas tem que se agachar!
 Ó! quando tornarei para a minha pátria onde já não terei que me curvar... ante os pequenos?
 E Zaratustra suspirou e olhou ao longe.
 Nesse mesmo dia pronunciou o seu discurso sobre a virtude amesquinhadora.

II

 “Passo pelo meio deste povo e abro os olhos; esta gente não me perdoa que eu lhe não inveje as virtudes.
 Querem morder-me por eu lhes dizer que as pessoas pequenas necessitam pequenas virtudes, e porque me é difícil conceber que sejam,
necessárias as pessoas pequenas.
 Estou aqui como galo em terreiro estranho, que até as galinhas lhe querem picar; mas eu nem por isso conservo rancor a tais galinhas.
 Sou indulgente com elas como com a pequena moléstia; ser espinhosos para com os pequenos parece-me um proceder digno de ouriços.
 Todos falam de mim quando estão sentados à noite à roda do lar; falam de mim, mas ninguém pensa em mim.
 Eis o novo silêncio que aprendi a conhecer; o rumor que fazem à minha roda, estende-me um manto sobre os pensamentos.
 Eles vociferam: “Que nos quer esta sombria nuvem? Andemos com cautela, não nos traga alguma epidemia!”
 E ultimamente uma mulher puxou pelo filho que se queria aproximar de mim, e gritou: “Afastai as crianças! Olhos daqueles queimam
as almas das crianças!”
 Quando eu falo, fogem, julgam que a tosse é uma objeção contra os ventos rijos: nada conjecturam do sussurro da minha felicidade.
 “Ainda não temos tempo para Zaratustra”. — Tal é a sua objeção. — Mas, que importa um tempo que “não tem tempo” para
Zaratustra?
 Ainda que me glorificassem, como poderia adormecer aos seus louvores? O seu elogio é para mim um cinturão de espinhos: mortifica-
me mesmo depois de o tirar.
 E também aprendi isto entre eles: o que elogia como que entrega, mas em rigor quer que se lhe dê mais.
 Perguntai ao meu pé se lhe agrada essa maneira de elogiar e de atrair! Verdadeiramente não quer bailar nem estar quieto a esse som e
compasso.
 Procuram elogiar-me a sua modesta virtude e atrair-me para ela; quiseram arrastar o meu pé ao som da modesta felicidade.
 Eu passo pelo meio do povo e abro os olhos: amesquinharam-me e continuam a amesquinhar-se. Deve-se isto à sua doutrina da
felicidade e da virtude.
 É que também são modestos na sua virtude, porque querem ter as suas conveniências, e só uma virtude modesta se conforma com as
conveniências.
 Aprendem também a andar a seu modo e andar para adiante: a isto chamo eu ir coxeando. São assim um obstáculo a todos que andam
depressa.
 E há quem caminhe para a frente, a olhar para trás e com o pescoço estendido; de boa vontade disputaria com semelhantes corpos.
 Os pés, os olhos não devem mentir nem desmentir; mas entre as pessoas pequenas há muitas mentiras.
 Alguns deles querem, mas na maioria apenas são queridos. Alguns são sinceros, mas o mais deles são maus cômicos.
 Há entre eles cômicos sem o saber