assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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e cômicos sem querer; os sinceros são sempre raros, principalmente os cômicos sinceros.
 Escasseia o varonil: por isso as mulheres se masculinizam. Que só o que for homem bastante emancipará na mulher... a mulher.
 Eis a pior das hipocrisias que tenho encontrado entre os homens: até os que mandam fingem as virtudes dos que obedecem.
 “Eu sirvo, tu serves, nós servimos” — assim salmodeia também aqui a hipocrisia dos governantes.
 — E ai quando o primeiro amo não é mais do que o primeiro servidor!
 O meu olhar curioso deteve-se também na sua hipocrisia, e adivinhou a sua felicidade de moscas e seu zumbido à roda das vidraças
assoalhadas.
 Toda a bondade que vejo é pura fraqueza, toda a justiça e piedade, fraqueza pura.
 São corretos, leais e benévolos uns para com os outros, como são corretos, leais e benévolos entre si os grãos da areia.
 Abraçar modestamente uma pequena felicidade é o que chamam “resignação”! e ao mesmo tempo olham de soslaio modestamente
para outra pequena felicidade.
 No fundo da sua simplicidade só têm um desejo: que ninguém os prejudique. Por isso são amáveis com todos e praticam o bem.
 Isto, porém, é covardia, conquanto se chame “virtude”.
 E quando a esses mesquinhos lhes sucede falar com rudeza, eu na sua voz só ouço a farfalheira, porque toda a rajada de vento os
enrouquece!
 São hábeis; as suas virtudes têm dedos hábeis; mas faltam-lhes os pulsos; os seus dedos não sabem desaparecer por detrás dos pulsos.
 Para eles, o que modera e domestica é a virtude; assim fizeram do lobo um cão e do próprio homem o melhor animal doméstico do
homem.
 “Nós colocamos a nossa caldeira mesmo no meio, — assim me confessa o seu sorriso — a igual distância dos gladiadores moribundos e
dos imundos suínos”.
 Isto, porém, é mediocridade, embora lhe chamem moderação.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

III

 Passo por entre este povo e deixo cair muitas palavras; mas não sabem receber nem aprender.
 Assombram-se de eu não vir anatematizar os apetites e os vícios, e na verdade, também não vim para pôr de sobre-aviso contra os
ladrões.
 Admiram-se de eu não estar pronto a afinar e aguçar-lhe a sutileza: como se não tivessem ainda bastante sábios sutis, cujas vozes
chiam aos meus ouvidos como rodas a que falta óleo.
 E quando grito: “Maldizei todos os demônios covardes que há em vós e quereriam gemer, cruzar as mãos e adorar”, então eles
clamam: “Zaratustra é ímpio”.
 E os seus pregadores de resignação são os que mais vociferam, mas é justamente a esses que me apraz gritar ao ouvido: “Sim! Eu sou
Zaratustra o ímpio!”
 Os pregadores de resignação! Onde quer que haja ruindade, enfermidade e tinha, arrastam-se como piolhos e só por nojo os não
esmago!
 Pois bem! Eis o sermão que lhes prego ao ouvido: eu sou Zaratustra, o ímpio que diz: “Quem há mais ímpio de que eu, para me
regozijar com a sua ensinança?”
 Eu sou Zaratustra, o ímpio: aonde encontrarei semelhantes meus? Semelhantes meus são todos os que se dão a si próprios, à sua
vontade se desprendem de toda a resignação.
 Eu sou Zaratustra, o ímpio; no meu caldeirão cozo todos os sucessos; e só quando estão em ponto é que lhes dou as boas-vindas como
sustento meu.
 E mais de um acidente se me aproximou com ares de senhor; mas a minha vontade falou-lhe de uma maneira ainda mais dominante, e
logo se me ajoelhou aos pés, suplicando-me lhe desse asilo e acolhesse cordialmente, dizendo em tom adulador: “Olha Zaratustra: só um
amigo pode aproximar-se assim de um amigo!”
 A quem falar, porém, quando ninguém tem os meus ouvidos? Por isso quero gritar a todos os ventos:
 Gente mesquinha, cada vez vos amesquinhais mais! Gente acomodaticia, estai-vos esmigalhando! E acabareis por irdes a pique com a
vossa infinidade de minguadas virtudes, minguadas comissões e de minguada resignação.
 O vosso solo é demasiado fofo e mole! E para uma árvore se tornar grande tem que se abraçar a duras rochas com duras raízes.
 Até o que omitís a tecer a teia do futuro dos homens, até o vosso nada é uma teia de aranha e uma aranha que vive o sangue do futuro.
 E quando recebeis é como se furtásseis, mesquinhos e virtuosos; até entre ladrões, contudo, diz a honra: “Só se deve furtar onde não se
pode saquear”.
 Isto dá-se: tal é também uma doutrina de resignação; mas eu vos digo, a vós que amais as vossas comodidades: isto toma-se e tomar-se-
á sempre ainda mais de vós.
 Ai! se não acabardes de uma vez com essa vontade a meias! Não saberdes ser decididos tanto para a preguiça como para a ação!
 Ai! se não compreenderdes estas palavras minhas: “Fazei sempre o que quiserdes; mas sede desde logo daqueles que podem querer!”
 “Amais sempre o vosso próximo como a vós mesmos: mas sede desde logo dos que se amam a si mesmos — dos que se amam com
grande desdém”.
 Assim falava Zaratustra, o ímpio.
 “Mas, para que falar, quando ninguém tem os meus ouvidos? Ainda é hora demasiada matutina para mim.
 Eu sou entre esta gente o meu próprio precursor, o meu próprio canto de galo nas ruas escuras.
 Chega, porém, a sua hora! Chega também a minha! A cada hora se tornam mais pequenos, mais pobres, mais estéreis: pobre erva!
pobre terra!
 Breve estarão na minha frente como erva seca, como uma estepe, e verdadeiramente fatigados de si mesmos, e mais sedentos de fogo
que de água!
 Ó! bendita a hora do raio! Ó! mistério dantes do meio-dia! Há de chegar a vez de eu os converter em corrente de fogo e em profetas de
línguas de chamas.
 Até profetizarão com línguas de chamas: já vem, já se aproxima o Grande Meio-dia!”
 Assim falava Zaratustra.

NO MONTE DAS OLIVEIRAS

 “O inverno, mau hóspede, penetra na minha morada; tenho as mãos arroxeadas do apertão da sua amizade.
 Honro este hóspede maligno, mas agrada-me deixá-lo só, safar-me dele, e correndo bem, consegue uma pessoa safar-se.
 Quentes os pés e o pensamento, corro aonde o vento emudece, até o rincão assoalhado do meu monte das Oliveiras.
 Lá me rio do meu rigoroso hóspede, e lhe fico agradecido por me livrar das moscas e fazer calar uma porção de ruídos.
 Que ele não gosta de ouvir zumbir uma mosca, e até a rua põe tão solitário que a luz da lua chega a ter medo da noite.
 É um hóspede rígido; mas eu honro-o e não rezo ao pançudo deus do fogo, como fazem os efeminados.
 Vale mais bater um pouco os dentes do que adorar ídolos! — tal a minha condição. — E eu estou mal, mormente com os deuses do

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

fogo, como o espírito ardente, fervido e taciturno!
 Quando amo, amo melhor no inverno do que no estio; zombo agora melhor e mais animosamente dos meus amigos desde que o inverno
entra em minha casa.
 Animosamente, até chegar a aconchegar-me na cama — ainda então ri e se diverte a minha felicidade retirada; — será que ri o meu
sono enganador?
 Arrastar-me... eu? Nunca na minha vida me arrastei ante os poderosos, e se alguma vez menti foi por amor. Por isso estou satisfeito até
numa cama de inverno.
 Um leito humilde aquece-me mais do que um leito magnífico, porque eu sou zeloso da minha pobreza. E no inverno é quando a minha
pobreza me é mais fiel.
 Inauguro todos os dias com uma maldade: zombo do inverno com um banho frio: isto faz resmungar o meu rigoroso hóspede.
 Gosto também de me cocegar com uma velazinha, para enfim permitir ao céu sair da pardacenta aurora. Que eu quando sou mais mau
é de madrugada, quando chiam os baldes no poço e os cavalos relincham pelas ruas sombrias. Então espero impaciente que se levante o
céu luminoso, o céu invernal de nívea barba, o velho de cabeça branca: o silencioso céu invernal que até sobre