assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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Aqui apodrecem todos os grandes sentimentos; aqui só se pode ouvir o crepitar das paixonetas ressequidas
 Não sentes já o cheiro dos matadouros e das baiúcas do espirito? Não fumega esta cidade com os vapores do espíritos sacrificados?
 Não vês, penduradas, as almas, como frangalhos sujos? E desses frangalhos, todavia, fazem periódicos!
 Não ouves como aqui se troca o engenho em jogo de palavras? Cospem repugnantes intrigas verbais! E dessas intrigas fazem, os de cá,
periódicos!
 Provocam-se sem saber porque. Entusiasmam-se e não sabem porque. Chocalham com a sua lâmina de folha e tilintam com o seu ouro.
 Sentem frio e procuram calor nas bebidas quentes; acaloram-se e procuram frescura nos espíritos álgidos; a opinião publica consome-
os e torna-os febris.
 Todos os apetites e todos os vícios assentaram aqui; mas há também virtuosos, há muitas virtudes hábeis e laboriosas, virtudes com
dedos expeditos, com carnes duras para suportar boas assentadas, com o peito adornado de cruzinhas bentas por raparigas
enchumaçadas e sem nádegas.
 Também há aqui muita devoção, muita lisonja cortesã e muitas baixezas ante o deus dos exércitos.
 “De cima” chovem as estrelinhas e as magnânimas cuspideiras; para cima vão os desejos de todos os peitos desprovidos de estrelinhas.
 A lua tem a sua corte, e a corte seus satélites; mas o povo mendicante e as hábeis virtudes mendicantes rezam a tudo o que vem da corte.
 “Eu sirvo, tu serves, nós servimos”. Assim rezam ao soberano todas as virtudes hábeis, para que a merecida estrela se prenda afinal ao
peito esquálido.
 A lua, porém, gira em torno de tudo quanto é terrestre; assim também o soberano gira em torno do que há de mais terrestre: o ouro
dos merceeiros.
 O deus dos exércitos não é o deus das barras de ouro; o soberano propõe, mas o merceeiro... dispõe.
 Em nome de tudo quanto é claro, forte e bom que em ti existe, Zaratustra, cospe a esta cidade dos merceeiros e torna para trás!
 Aqui corre sangue viciado, pobre e espumoso, por todas as veias; cospe à grande cidade, que é o grande vasadouro onde se acumulam
todos os excrementos.
 Cospe à cidade das almas deprimidas e dos peitos estreitos, dos olhos penetrantes e dos dedos viscosos; à cidade dos importunos e dos
impertinentes, dos escritorzitos e dos palradores, dos ambiciosos exasperados; à cidade onde se reúne todo o carcomido, desconsiderado,
sensual, sombrio, putrefato, ulcerado e conjurado; cospe à grande cidade e torna sobre os teus passos!”
 Neste ponto porém Zaratustra interrompeu o louco furioso e tapou-lhe a boca.
 “Cala-te! — exclamou Zaratustra. — Já é tempo de me deixares com a tua linguagem e as tuas maneiras.
 Por que tens vivido tanto tempo à beira do pântano, a ponto de tu mesmo te converteres em rã e sapo?
 Não correrá agora em tuas próprias veias um sangue de pântano, viciado e espumoso, para teres aprendido a guinchar e a blasfemar
assim?
 Porque te não retiraste para o bosque? Porque não lavraste a terra? Não está o mar cheio de ilhas verdejantes?
 Desprezo o teu desdém; e já que me prevines, porque te não prevenistes a ti mesmo?
 Só do amor há de surgir o meu desdém e a minha ave anunciadora; não do pântano!
 Chamam-te o meu macaco, doido raivoso; mas eu chamo-te suíno grunhidor; com o teu grunhido acabas por me estropiar o meu elogio
da loucura.
 Em princípio, quem foi que te fez grunhir? Não te adularam bastante. Por isso te sentaste ao lado dessas imundícies, a fim de teres
numerosas razões de vingança. Que a vingança, louco vaidoso, é a tua espuma toda: calei-te perfeitamente!
 A tua língua de louco, porém, prejudica-me até naquilo em que tens razão. E ainda que tivesse mil vezes razão a palavra de Zaratustra,
tu sempre ma tirarias com a minha própria palavra!”
 Assim falava Zaratustra, e olhando a grande cidade, suspirou e ficou longo tempo calado. Por fim disse:
 “Também eu estou desgostoso nesta grande cidade, e não é só deste louco. Aqui e ali nada há que melhorar, nada há que piorar.
 Ai desta grande cidade! Quereria ver já a coluna de fogo em que se há de consumir.
 Que tais colunas de fogo hão de proceder o grande meio-dia: Isto, contudo, tem o seu tempo e o seu próprio destino.
 A ti, louco, te dou este ensinamento a modo de despedida: onde já se não pode amar, deve-se... passar!”
 Assim falava Zaratustra, e passou por diante do louco e da grande cidade.

DOS TRÂNSFUGAS
I

 “Ai! como já está triste e cinzento neste prado tudo o que há pouco estava ainda verde e cheio de cor! E quanto mel de esperança eu
daqui levei à minha colmeia!
 Todos estes corações juvenis se tornaram já velhos: e nem velhos sequer! Simplesmente fatigados, comuns e cômodos. Explicam-no
dizendo:
 “Tornamos a ser piedosos”.
 Ainda não há muito os vi à primeira hora a andar briosamente; mas as pernas do conhecimento fatigaram-se-lhes e agora caluniam até

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

os seus brios da manhã.
 Na verdade, mais de um alçava dantes as pernas como um bailarino; o riso acenava-lhe com a minha sabedoria; mas depois refletiu e
acabo de o ver curvado... arrastando-se até à cruz.
 Dantes giravam em redor da luz e da liberdade como mosquitos e jovens poetas.
 Um pouco mais velhos, um pouco mais frios, e já estão acocorados ao amor do lume como santarrões.
 Desfaleceram por me haver tragado a soledade como uma baleia? Teriam debalde prestado ouvidos durante longo tempo às minhas
trombetas e aos meus gritos de arauto?
 Ai! Sempre são muito poucos os que têm um coração de largo fôlego e larga impetuosidade; e são também os únicos de espíritos
perseverante. Tudo o mais é covardia.
 E o mais é sempre a grande massa, o ordinário; o supérfluo, os que estão de mais. Todos estes são covardes!
 Aquele que for da minha têmpera tropeçará no seu caminho com aventuras iguais às minhas; de forma que os seus primeiros
companheiros devem ser cadáveres e acróbatas.
 Os seus segundos companheiros, porém, chamar-se-ão seus crentes: um enxame animado, muito amor, muita loucura, muita veneração
infantil.
 A estes crentes não deverá ligar o seu coração aquele que dentre os homens for da minha índole; nessas primaveras e nesses prados de
variadas cores, o que conhece não deve presumir a fraca e fugitiva condição humana.
 Se pudessem doutra maneira quereriam também doutra maneira. As coisas por metade prejudicam o todo. Se há folhas que murcham,
porque se há de queixar uma pessoa?
 Deixa-a cair, Zaratustra, e não te queixes! Pelo contrário: varre-as com o sopro do teu vento; varre essas folhas, Zaratustra! Aparte-se
de ti tudo quanto é murcho!

II

 “Tornamos a ser piedosos” — assim confessam os trânsfugas; e muitos deles ainda são demasiados covardes para o confessar assim.
 A estes encaro eu, a estes digo eu nas suas caras envergonhadas: Sois vós os que rezam outra vez!
 Rezar, todavia, é uma vergonha! Não para toda a gente; mas para ti e para mim e para quantos têm a sua consciência na cabeça. Para
ti é uma vergonha rezar!
 Bem o sabes: o covarde demônio que dentro de ti se compraz em juntar as mãos e em cruzar os braços, e que desejaria ter uma vida
mais fácil, esse covarde demônio disse-te: “Há um Deus!”
 Assim, pois, fazes parte dos que temem a luz, daqueles a quem a luz nunca deixa repouso; tens agora que ocultar todos os dias a cabeça
mais profundamente na noite e nas trevas.
 E, na verdade, escolheste bem a tua hora; porque as aves noturnas tornaram a erguer o vôo. Chegou a hora dos seres que temem a luz,
a hora do descanso em que... se não descansa.
 Ouço-o bem: chegou a hora da sua caçada — não de uma caçada infernal, mas mansa, suave, farejando pelos cantos