assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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— um cofre aberto para deleite dos ursos púdicos e reverentes: — assim saiu o
mundo ao meu encontro.
 Enigma insuficiente para afujentar o amor dos homens; solução incapaz de adormecer a sabedoria dos homens; uma coisa
humanamente boa: tal me pareceu hoje o mundo de que tanto mal se diz.
 Quanto agradecido estou ao meu sonho da manhã por ter assim pesado o mundo à primeira hora! Como uma coisa humanamente boa,
me chegou esse consolador do coração!
 E para proceder como ele, para me servir de exemplo o melhor seu, quero pôr agora na balança os três males maiores e pesar
humanamente bem.
 O que ensinou a abençoar, ensinou também a amaldiçoar; quais são as três coisas mais amaldiçoadas no mundo? São essas que quero
pôr na balança.
 A volutuosidade, o desejo de dominação, o egoísmo: estas três coisas têm sido as mais difamadas e caluniadas até hoje; são estas três
coisas que quero pesar humanamente bem.
 Belo! Eis aqui o meu promontório, e eis ali o mar: com mil carícias se me dirige, correndo, o mar ondeado, esse cão velho e fiel,
monstro de cem cabeças a quem eu estimo.
 Pois hei-de aqui suster a balança, sobre o mar undoso; e elejo também uma testemunha; és tu, árvore solitária, de forte perfume e de
ampla abóbada, árvore querida!

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Por que ponte vai o presente para o futuro? Qual é a força que compele o alto a descer para baixo? E que foi que obrigou a coisa mais
alta a crescer ainda mais?
 Agora a balança está imóvel e em equilíbrio: lancei nela três pesadas perguntas: o outro prato sustém três pesadas respostas.

II

 Volutuosidade, és para todos os desprezadores do corpo cingidos de cilício, o seu aguilhão e mortificação, e o “mundo maldito” para
todos os que crêem em além-mundos; porque a volutuosidade se ri e moteja de todos os heréticos.
 Volutuosidaide, és para a canalha o fogo lento em que a queimam; para toda a madeira carcomida e de todos os trabalhos hediondos o
grande forno ardente.
 Volutuosidade, és para os corações livres qualquer coisa inocente e livre, as delícias do jardim terrestre, transbordante gratidão do
futuro presente.
 Volutuosidade, só és um veneno deleitoso para os melancólicos; para os que têm a vontade do leão, és o maior cordial, o vinho dos
vinhos, que se economiza religiosamente.
 Volutuosidade, és a maior felicidade simbólica para a ventura e a esperança superior. Que há muitas coisas a que é permitido o
consórcio, e mais que o consórcio, muitas coisas que são mais estranhas para si do que o homem para a mulher; e quem compreendeu, até
que ponto são estranhos um para o outro, o homem e a mulher?
 Volutuosidade... Mas quero limitar os meus pensamentos e também as minhas palavras, para os sórdidos e os exaltados me não
invadirem os jardins.
 Desejo de dominar: o açoite pungente dos mais duros de todos os corações endurecidos, o martírio espantoso reservado ao mais cruel, a
chama sombria das fogueiras vivas.
 Desejo de dominar: o afã que sentem os povos mais vãos, o que zomba de todas as virtudes incertas, o que cavalga sobre todos os
orgulhos.
 Desejo de dominar: o terremoto que quebra e desagrega tudo quanto é velho e oco, o furioso destruidor de todos os sepulcros caídos, o
sinal de interrogação que surge ao lado das respostas prematuras.
 Desejo de dominar: ante cujo olhar se arrasta e humilha o homem, descendo abaixo da cobra e do suíno, até que, enfim, clama nele o
grande desprezo.
 Desejo de dominar: o terrível mestre que ensina o grande desprezo, que predica na cara de cidades e de impérios: “Tira-te dai!” até
que afinal exclamam eles próprios: “Fora eu!”.
 Desejo de dominar: que ascende também até os puros e os solitários a fim de os atrair, que ascende até às alturas da satisfação de si
mesmo, ardente como um amor que pinta no céu terrestre sedutoras beatitudes purpúreas.
 Desejo de dominar... Mas, quem quereria chamar a isto um desejo quando para baixo é que a altura aspira ao poder!
 Nada há de febril nem doentio em tais desejos e decadências!
 Não se condene a altura solitária à eterna soledade, nem se contente de si! Desçam às montanhas para os vales e os ventos das alturas
para as planícies!
 Ó! quem encontrasse o verdadeiro nome para batizar e honrar semelhante desejo! “Virtude dadivosa”. Assim chamou Zaratustra
noutro tempo a essa coisa inefável.
 E também então — pela primeira vez, de certo — elogiou a sua palavra o egoísmo, o bom e o são egoísmo que brota da sua alma
poderosa a que corresponde o corpo elevado, belo, vitorioso e reconfortante, em redor do qual tudo se troca em espelho: o corpo flexível e
persuasivo, o dançarino cujo símbolo e expressão é a alma contente de si mesma.
 Ao próprio contentamento de tais corpos e tais almas chama-se “virtude”.
 Com os seus assertos sobre o bem e o mal essa alegria protege-se a si própria como se se rodeasse de bosques sagrados; com os nomes
da sua ventura, desterra para longe de si tudo o que é desprezível.
 Desterra para longe de si tudo quanto é covarde; diz ela: Mau é o que é covarde.
 Desprezível lhe parece o que sofre, suspira e se queixa sempre e arrebanha até as menores utilidades.
 Despreza também toda a sabedoria que floresce na obscuridade, uma sabedoria de sombra noturna, como a que suspira sempre “tudo
é vão”.
 Não estima a medrosa desconfiança, nem o que quer juramentos em vez de olhares e mãos, tampouco a sabedoria desconfiada demais
porque tudo isto é próprio de almas covardes.
 Ainda mais baixo lhe parece o obsequioso, o cão que se deita depois de costas, o humilde; e também há sabedoria humilde, piedosa e
obsequiosa.
 Odeia e tem asco àquele que nunca se quer defender, àquele que engole as salivas venenosas e os olhares de revés, ao pacientíssimo que
tudo suporta e com tudo se contenta: porque isso é próprio da ralé servil.
 Se há alguém que é servil ante os deuses e os pés divinos ou ante os homens e ante estúpidas opiniões de homens, a todo esse servilismo
cospe na cara este bendito egoísmo.
 Mau; assim chama a tudo o que é baixo, ruim e servil, aos olhos vesgos e submissos, aos corações contritos e essas criaturas falsas e
rasteiras que beijam com lábios covardes.
 E pseudo-sabedoria: chama assim às insulsas pretensões da gente servil, dos velhos e dos aborrecidos, e sobretudo à absurda loucura
pedante dos sacerdotes.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Os falsos sábios, todos os sacerdotes, os enfastiados do mundo, a gente de alma efeminada e servil, ó! como tem conseguido o egoísmo
com as suas manhas!
 E propriamente devia ser virtude e chamar-se virtude o perseguir o egoísmo!
 E todos esses covardes, e todas essas aranhas cansadas de viver desejam eximir-se com boas razões de apego à própria pessoa!
 Para todos eles, porém, chega agora a luz, a espada da justiça, o Grande Meio dia: manifestar-se-ão aqui muitas coisas!
 E o que glorifica o eu e santifica o egoísmo, esse, o adivinho, diz na verdade o que sabe: Vedes: vem aí, aproxima-se já o Grande Meio-
dia!”
 Assim falava Zaratustra.

DO ESPÍRITO DO PESADUME
I

 “A minha boca é a do povo: falo grosseiro e singelamente demais para os hipócritas. A minha palavra, porém, ainda parece mais
estranha aos escrevinhadores.
 A minha mão é uma mão de louco: pobres de todas as mesas e de todas as paredes e de quanto ofereça espaço para rabiscos e borrões
de louco!
 O meu pé é casco de cavalo; com ele troto e galopo por montes e vales, de cá para lá, e no transporte de toda a carreira rápida sou da
pele do diabo.
 Meu estômago talvez seja estômago de águia, pois a tudo prefere a carne de cordeiro; mas, certamente, é estômago de