assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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homens e o que dá o sentido e futuro à terra, só esse cria o bem e o mal de todas as coisas.
 E eu ordenei-lhes que derribassem as suas antigas cátedras, e onde quer que exista essa estranha presunção, mandei-os rir dos seus
grandes mestres de virtude, dos seus santos, dos seus poetas e dos seus salvadores do mundo.
 Mandei-os rir dos seus sábios austeros, e punha-os em guarda contra os negros espantalhos plantados na árvore da vida.
 Sentei-me à beira da sua grande rua de sepulturas, até entre os abutres, e ri-me de todo o seu passado e do triste esplendor desse
passado ruinoso.
 À semelhança dos pregadores de quaresma e dos loucos, fulminei anátemas contra as suas grandezas e pequenezas. — Como é pequeno
o melhor deles! E igualmente pequeno o pior! — Assim me ria.
 E freqüentemente o meu desejo me levou muito longe, mais além, para o alto, por entre riso; eu então voava estremecendo como uma
flecha através dos êxtases ébrios de sol: voava para remotos futuros que nenhum sonho viu, para meios-dias mais cálidos dos que jamais
pôde sonhar a fantasia — para além onde os deuses se envergonham de todos os vestidos — a fim de falar em parábolas e balbuciar e
coxear como os poetas, e na verdade, envergonho-me de ser ainda poeta!
 Voava aonde todo o acontecimento me parecia bailes e travessuras divinas, e o mundo só e desenfreado refugiando-se em si mesmo;
como um eterno fugir e procurar muitos desses, como o bendito contradizer-se, rir-se e tornar a si de muitos deuses.
 Aonde todo o tempo me parecia uma deliciosa zombaria dos instantes, aonde a necessidade era a mesma liberdade, que brincava
satisfeita com o aguilhão dessa liberdade.
 Aonde tornei a encontrar também o meu antigo demônio e inimigo inato, o espírito de pesadume e tudo o que ele criou: a coação, a lei,
a necessidade, a conseqüência, o fim, a vontade, o bem e o mal.
 Pois não é necessário haver coisas sobre os quais se possa dançar e passear dançando? Não é necessário que haja, por causa dos leves e
dos mais leves, míopes e pesados anões?

III

 Também além apanhei no meu caminho a palavra “Super-homem” e esta doutrina: o homem é uma coisa que deve ser superada; o
homem há de ser uma ponte, e não um fim: satisfeito do seu meio-dia e da sua tarde. A palavra de Zaratustra sobre o grande Meio-dia,
suspendi aos ombros como um segundo manto de púrpura.
 Fiz-lhes também ver novas estrelas e novas noites, e sobre as nuvens e o dia e a noite estendi o riso como um verdadeiro tapete de
variadas cores.
 Ensinei-lhes todos os meus pensamentos e todas as minhas aspirações: a concentrar e a unir tudo o que no homem não é mais que
fragmento e enigma e pavoroso azar.
 Como poeta, como adivinho de enigmas, como redentor do azar, ensinei-os a serem criadores do futuro e a salvar criando tudo o que
foi.
 Salvar o passado no homem e transformar tudo “o que foi” até a vontade de dizer: “Mas eu queria que fosse assim! Assim o hei de
querer!”
 Eis o que chamei a sua salvação; só a isso lhes ensinei a chamar salvação.
 Agora espero a minha para voltar pela última vez ao lado deles.
 Que mais uma vez quero voltar para o lado dos homens: quero desaparecer entre eles, e oferecer-lhes, ao morrer, o mais rico dos dons.
 Eis o que aprendi do sol, desse opulento sol de inesgotável riqueza que, ao pôr-se, derrama o seu ouro pelo mar; por isso, até os mais
pobres pescadores remam com dourados remos! Vi isto uma vez, e enquanto o via, as minhas lágrimas não se cansavam de correr...
 À maneira do solo, quer desaparecer também, Zaratustra: senta-se agora aqui a esperar, rodeado de antigas tábuas quebradas e de
tábuas novas... meio-escritas.

IV

 Vede: tendes aqui uma nova tábua; mas onde estão os meus irmãos para a levarem comigo ao vale e aos corações de carne?
 Assim o exige o meu grande amor aos mais afastados: não vejas pelo teu próximo! O homem é coisa que deve ser superada.
 Pode uma pessoa chegar a superar-se por múltiplos meios e caminhos: isso é coisa tua. Só um jogral pensa: “Também se pode saltar
por cima do homem:”.
 Supera-te a ti mesmo, até no teu próximo, e não consintas te dêem um direito que possas conquistar.
 O que tu fazes ninguém to pode tornar a fazer. Fica sabendo: não há recompensa.
 O que se não pode mandar a si mesmo deve obedecer.
 E há quem saiba mandar, mas esteja ainda muito longe de saber obedecer.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

V

 Tal é a condição das almas nobres: nada querem ter gratuitamente, e menos que tudo, a vida.
 O que forma parte da populaça quer viver gratuitamente; mas nós, a quem a vida se deu, pensamos sempre no melhor que poderíamos
dar em troca.
 E na verdade é nobre a linguagem que diz: “O que a vida nos prometeu a nós, queremo-lo nós cumprir... à vida!”
 Não se deve querer gozar onde se não é motivo de gozo. E... não se deve querer gozar!
 Que o gozo e a inocência são as coisas mais pudicas: nenhuma delas quer ser procurada.
 É preciso possuí-las; mas ainda vale mais procurar a culpa e a dor.

VI

 Meus irmãos, aquele que é uma primícia há de ser sempre sacrificado; e nós agora somos primícias.
 Todos sangramos no altar secreto dos sacrifícios, todos ardemos e nos assamos em honra dos velhos ídolos.
 O melhor de nós é ainda novo: excita os paladares velhos. A nossa carne é tenra, a nossa pele não é mais do que uma pele de cordeiro:
como não havemos de tentar velhos sacerdotes idólatras?
 Em nós mesmos respira ainda o velho sacerdote idólatra que se prepara para celebrar um festim com o melhor que temos.
 Ai, meus irmãos! como não hão de ser os precursores sacrificados!
 Mas assim o quer a nossa condição, e eu amo os que se não querem conservar. Amo de todo o meu coração os que desaparecem, porque
passam para o outro lado.

VII

 Ser verídicos.. . poucos o sabem! E o que o sabe não o quer ser! E menos que ninguém, os bons.
 Os tais bons. Os homens bons nunca dizem a verdade: ser bom de tal maneira é uma enfermidade para o espírito.
 Esses bons cedem, rendem-se; a sua memória repete como um eco e a sua razão obedece; não se ouve a si mesma!
 Tudo quanto os bons chamam mau deve reunir-se para nascer uma verdade. Ó! meus irmãos! Sois bastante maus para essa verdade?
 A audácia temerária, a prolongada desconfiança, o cruel Não, a versão, a incisão no vivo... como é raro isto tudo reunir-se! De tais
sementes nasce todavia... a verdade.
 Ao lado da consciência réproba cresce todo o saber até hoje! Quebrai, quebrai as antigas tábuas: vós que aspirais ao conhecimento!

VIII

 Quando há madeiras estendidas sobre a água, quando há pontes e parapeitos através do rio, não se dá crédito a ninguém que diga:
“Tudo corre”.
 Pelo contrário: até os imbecis o contradizem. “Que! — exclamam. — Tudo corre? Então as madeiras e os parapeitos que estão sobre o
rio?”
 “Por cima do rio tudo é sólido; todos os valores das coisas, os conceitos, todo o “bem e mal” tudo isso é sólido.
 E quando vem o cru inverno, o domador dos rios, os mais maliciosos aprendem a desconfiar; e não são só os imbecis que dizem então:
“Não estaria tudo imóvel?” “No fundo tudo permanece imóvel”: eis um verdadeiro ensinamento do inverno, uma boa coisa para os
tempos estéreis, um bom consolo para o sono invernal e os sedentários.
 “No fundo tudo permanece imóvel”; mas o vento do degelo protesta contra esta palavra.
 O vento do degelo, um vento que não lavra, um touro furioso e destruidor que quebra o gelo, com hastes coléricas! O gelo, por sua
parte, quebra as pontes!
 Ó! meus irmãos! Não corre agora tudo! Não cairam à água todos os parapeitos e todas as pontes! Quem esperaria ainda o bem e o mal?
 Ai de nós! Glória a nós! Sopra o vento do degelo! Pregai isto através de todas as ruas, meus irmãos.

IX

 Há