assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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uma estranha loucura que se chama bem e mal.
 A roda dessa loucura girou até hoje em torno dos adivinhos e dos astrólogos.
 Noutro tempo cria-se nos adivinhos e nos astrólogos, e por isso se cria: “Tudo é fatalidade: tu deves porque é necessário!”

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Desconfiou-se depois de todos os adivinhos e de todos os astrólogos, e por isso se acreditou: “Tudo é liberdade: podes porque queres!”
 Ó! meus irmãos! Sobre as estrelas e sobre o futuro não se tem feito até hoje senão conjeturar, sem se saber nunca; e por isso sobre o
bem e o mal não se tem feito senão conjeturar, sem se saber nunca.

X

 “Não roubarás! Não matarás!” Estas palavras chamavam-se santas noutro tempo; perante elas dobrava a gente os joelhos e a cabeça, e
descalçava-se.
 Eu pergunto-vos, porém: onde houve jamais no mundo melhores salteadores e assassinos que estas santas palavras? Não há na mesma
vida roubo e assassínio? E ao santificar estas palavras, não se assassinou a própria verdade?
 Ou seria predicar a morte, santificar tudo o que contradizia e desaconselhava a vida? Ó! Meus irmãos! Quebrai-me as antigas tábuas.

XI

 Condôo-me do passado inteiro quando vejo o seu abandono à mercê do arbítrio, das disposições, dos desvarios de cada geração que
chega e olha tudo o que existiu como ponto de si mesma.
 Poderia vir um grande déspota, um gênio maléfico que violentasse arbitrariamente todo o passado, até chegar a ser para ele uma
ponte, um prognóstico, um arauto e um canto de galo.
 Mas eis aqui o outro perigo e a minha outra compaixão: os pensamentos do que forma parte da população remontam até o avô; mas
com o avô acaba o tempo.
 Por isso todo o passado fica ao abandono: porque um dia poderia suceder a populaça tornar-se senhor, e todo o tempo se afogasse em
águas superficiais.
 Por isso, meus irmãos, é preciso uma nova nobreza adversária de toda a populaça e de todo o despotismo, e que escreva novamente, em
novas tábuas, a palavra “nobre”.
 Que são necessários muitos nobres para haver nobreza! Ou como em tempo disse uma parábola: “A divindade consiste precisamente em
haver deuses mas não Deus!”

XII

 Ó! Meus irmãos! Ao ensinar-vos que deveis ser para mim criadores e educadores — semeadores do futuro — invisto-vos de uma nova
pobreza; não é, na verdade, nobreza que possais comprar como bufarinheiros, e com ouro de bufarinheiros, porque tudo quanto tem
preço, pouco valor tem.
 O que vos honrará para o futuro não será a origem donde vindes, mas o tempo para onde ides! A vossa vontade e o vosso passo que
querem ir mais longe do que vós: cifre-se nisto a vossa nova honra!
 Não em terdes servido um príncipe — que importam já os príncipes! — ou em vos terdes tornado muralha do existente para o existente
ser mais sólido.
 Não em ter-se a vossa linhagem feito cortesã na corte, e me terdes aprendido como o flamengo, a estar durante longas horas à beira do
lago: porque saber estar de pé é um mérito nos cortesãos; e todos os cortesãos julgam que ter a autorização de se sentar faz parte da
felicidade depois da morte.
 Nem tampouco em que um espírito a que chamam santo conduziu os vossos ascendentes a terras prometidas, que eu não elogio; porque
no país onde brotou a pior das árvores — a cruz — nada há a elogiar!
 E na verdade, onde quer que esse “Espirito Santo” conduza os seus cavaleiros, tais cortejos são sempre... precedidos de cabras, gansos,
loucos e tresloucados.
 Ó! Meus irmãos! Não é para trás que a vossa nobreza deve olhar, mas para a frente! Deveis ser expulsos de todas as pátrias e de todos
os países dos vossos ascendentes.
 Deveis amar o país dos vossos filhos: seja este amor a vossa nobreza; o país inexplorado no meio de longínquos mares; é isto que eu
digo às vossas velas que procurem e tornem a procurar!
 Deveis redimir-vos em vossos filhos de serdes filhos de vossos pais: assim libertareis o passado todo! Ponho por cima de vós esta nova
tábua.

XIII

 “Para que viver? Tudo é vão! Viver... é trilhar palha; viver... é queimar-se sem se chegar a aquecer”.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Estas velhas cantilenas passam ainda por “sabedoria”: são estranhas, transcendem a ranço; por isso são mais honradas. Também a
podridão enobrece.
 Crianças é que podiam falar assim por que temem o fogo que já os queimou. Há muita puerilidade nos antigos livros da sabedoria.
 E o que trilha palha, como teria o direito de zombar quando se trilha o trigo?
 Seria preciso amordaçar tais loucos!
 Estes sentam-se à mesa sem levar nada, nem sequer um bom apetite, e agora blasfemam: “Tudo é vão!”
 Mas comer e beber bem, meus irmãos, não é na verdade uma arte vã. Quebrai, quebrai-me as tábuas dos eternamente descontentes.

XIV

 “Para os puros tudo é puro”. — Assim falava o povo. — Mas eu vos digo: para os porcos tudo é porco!
 Por isso os fanáticos e os que curvam a cerviz, que também têm o coração inclinado, predicam desta forma:
 “O próprio mundo é um monstro lamacento!”
 Porque todos esses têm o espirito sujo, especialmente os que se não dão paz nem sossego enquanto não vêm o mundo por detrás: são os
crentes no mundo posterior!
 A esses lhes digo eu na cara, conquanto não soe muito bem: o mundo parece-se com o homem por ter também traseiro: isto é muito
verdade!
 Há no mundo muita lama: isto é muita verdade! Mas nem por isso o mundo é um monstro lamacento!
 É sensato haver no mundo muitas coisas que cheirem mal: o próprio asco cria asas e forças que pressentem mananciais!
 Até nos melhores há qualquer coisa repugnante, até o melhor é coisa que se deve superar!
 Ó! Meus irimãos! É sensato haver muita lama no mundo!

XV

 Tenho ouvido piedosos crentes em além-mundos dizerem à sua consciência palavras como estas, e de verdade, sem malícia nem
zombaria, embora na terra nada haja mais falso nem pior:
 “Deixai o mundo ser mundo! Não movais sequer um dedo contra ele!”
 “Deixai as pessoas estrangularem-se, transpassarem-se, e pulverizarem-se; não movais sequer a um dedo para vos opordes a isso.
Assim aprenderão a renunciar ao mundo”.
 “E deverias abater e estrangular a sua própria razão, porque essa razão é deste mundo; assim aprenderás tu mesmo a renunciar ao
mundo”.
 Quebrai, quebrai, meus irmãos, essas velhas tábuas dos devotos! Aniquilai as palavras dos caluniadores do mundo!

XVI

 “Aquele que aprende muito esquece todos os desejos violentos”. Assim se murmura hoje em todas as ruas escuras.
 “A sabedoria fatiga; nada vale a pena; não devo cobiçar”. Também encontrei esta nova tábua suspensa nas praças públicas.
 Quebrai, meus irmãos, quebrai também essa nova tábua! Penduraram-na os enfastiados do mundo, os predicadores da morte e os
carcereiros: porque ela é também um apelo ao servilismo.
 Eles têm aprendido mal, e não as coisas melhores, e tudo cedo e depressa de mais: comeram mal e revolveu-se-lhes o estômago: que um
estômago revolto é esse espírito que aconselha a morte! Porque o espírito, meus irmãos, é verdadeiramente um estômago.
 A vida é uma fonte de alegria! Mas para aquele que deixa falar o estômago sobrecarregado, a da tristeza, todas as fontes estão
envenenadas.
 Conhecer é um gozo para quem tem vontade de leão. Mas o que se fatigou é tão somente “querido”; todas as ondas brincam com ele.
 E assim fazem todos os fracos: perdem-se no caminho. E o seu cansaço acaba por perguntar a si mesmo: “Porque seguimos este
caminho? Tudo é igual!”
 É a eles que agrada ouvir pregar: “Nada vale a pena! Não deveis querer!” Mas isso, todavia, é um apelo ao servilismo.
 Ó! Meus irmãos! Zaratustra chega como uma rajada de vento fresco para