assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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todos os que estão cansados do seu caminho; ainda há de
fazer espirrar muitos narizes!
 O meu hálito livre sopra através das paredes, penetrando nas prisões e nos espíritos presos!
 A vontade liberta, porque a liberdade é criadora: assim ensino eu. E só para criar precisais aprender!
 E só de mim necessitais aprender; a aprender, aprender bem. Quem tiver ouvidos que ouça.

XVII

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 A barca está pronta; voga ali, além, talvez para o grande nada.
 Quem quererá, porém, embarcar para esse “talvez?”
 Nenhum de vós quer embarcar na barca da morte? Como quereis então estar cansados do mundo!
 Cansados do mundo! E nem sequer estais desprendidos da terra! Eu sempre vos vi desejosos da terra, enamorados do vosso próprio
cansaço da terra!
 Não é em vão que tendes o lábio descaido: ainda nele pesa um desejo terrestre! E em vosso olhar não flutua uma nuvem de alegria
terrestre que ainda não esqueceste?
 Há na terra muitas boas invenções, umas úteis, outras agradáveis; por isso é preciso amar a terra.
 E algumas invenções são tão boas que, como o seio da mulher, são úteis e agradáveis ao mesmo tempo.
 A vós, porém, fatigados do mundo e preguiçosos, é preciso sacudir-vos com vergastas! É necessário aligeirar-vos as pernas com
vergastadas!
 Que, se não sois enfermos e seres gastos, de quem a terra está fatigada, sois preguiçosos ladinos ou gatos gulosos e casmurros que só
buscam o seu prazer.
 E se não quereis tornar a correr alegremente, o melhor é desaparecerdes.
 Não há que ter empenho em ser médico dos incuráveis; assim ensina Zaratustra. Desaparecei, pois!
 Mas é necessário mais valor para rematar do que para fazer um verso novo: isto sabem-no todos os médicos e todos os poetas.

XVIII

 Ó! Meus irmãos! Há tábuas criadas pela fadiga e tábuas criadas pela preguiça: conquanto falem de igual modo querem ser ouvidas de
maneira diferente.
 Vede esse prostrado! Falta-lhe apenas um passo para chegar ao fim; mas, por causa da fadiga, o valente caiu irritado na areia.
 Simplesmente rendido boceja à vista do caminho da terra, do seu fim e de si mesmo: não quer dar mais um passo, o valente!
 O sol agora derrete-o, e os cães quereriam lamber-lhe o suor; mas para ali está caido pertinazmente e prefere consumir-se.
 Consumir-se a um passo do seu fim! A semelhante herói o melhor é erguê-lo pelos cabelos até a sua reação!
 Mais vale, em verdade, que o deixeis onde caiu até que lhe venha o sono, o sono consolador, com um rumor de chuva refrigerante.
 Deixai-o deitado até despertar; até que repila todo o cansaço e tudo o que nele demonstrava cansaço.
 O que haveis de fazer, meus irmãos, é afastar dele os cães, os preguiçosos casmurros e toda essa praga invasora.
 Toda a praga invasora da gente “ilustrada” que se alimenta do suor dos heróis!

XIX

 Eu traço em torno de mim círculos e santas fronteiras: cada vez são menos os que sobem comigo por montanhas mais elevadas; eu
levanto uma cadeia de montes cada vez mais santos.
 Mas onde quer que desejeis subir comigo, meus irmãos, olhai que não haja parasitas que subam convosco!
 Um parasita é um verme rasteiro e insinuante que quer engordar com todas as vossas intimidades enfermas e feridas.
 É esta a sua arte; adivinhar onde estão, fatigadas, as almas que sobem. Na vossa aflição, no vosso descontentamento, no vosso frágil
pudor constrói o seu repugnante ninho.
 Onde o forte é débil, onde o nobre é demasiado indulgente, é ali que constrói o seu repugnante ninho; o parasita habita onde o grande
tem recantos doentes.
 Qual é espécie de seres mais elevada, e qual a mais baixa?
 O parasita é a espécie mais baixa, mas o da espécie mais alta é o que alimenta mais parasitas.
 Como não há de a alma, que tem a escala mais vasta, descer mais baixo, transportar sobre si o maior número de parasitas?
 A alma mais vasta que pode correr, extraviar-se e errar mais longe em si mesma; a mais necessária, que por prazer se precipita no azar.
 A alma que é e se submerge na corrente do há de ser; a alma que possui e quer o querer e o desejo.
 A alma que foge de si mesma, e que se alcança a si mesma no mais amplo círculo; a alma, mais sensata a quem a loucura convida mais
docemente.
 A alma que ama mais a si mesma, na qual todas as coisas têm a sua ascensão e a sua descensão, o seu fluxo e o seu refluxo... Ó! como
não havia a alma mais alta de ter os piores parasitas?

XX

 Ó! Meus irmãos! Acaso serei cruel? Mas eu vos digo; ao que cai é ainda mister empurrá-lo!
 Tudo o que é de hoje cai e se desconcerta: quem, pois, o quereria deter? Eu, pela minha parte, ainda quero empurrá-lo.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Conheceis a volutuosidade que precipita as pedra em profundidades? Vede os homens de hoje: olhai como rondam pelas minhas
profundidades!
 Eu sou um prelúdio para melhores tangedores, meus irmãos! Um exemplo! Procedei segundo meu exemplo!
 E a quem não ensinardes a voar, ensinai-lhe... a cair mais depressa!

XXI

 Agradam-me os valentes; mas não basta ser uma boa espada; é preciso saber também a quem se fere!
 E muitas vezes mais valentia em se abster e em passar adiante, a fim de se reservar para um inimigo mais digno.
 Vós deveis ter somente inimigos dignos de ódio, mas não inimigos dignos de desprezo: é mister estardes orgulhosos do vosso inimigo; já
uma vez vo-lo ensinei.
 É mister reservarde-vos para o inimigo mais digno, meus amigos: por isso há muitos adiante dos quais deveis passar; sobretudo ante a
canalha numerosa que vos apedreja os ouvidos, falando-vos do povo e das nações.
 Livrai os vossos olhos do seu “pró” e do seu “contra”! Há ali muita justiça e injustiça: ver tal coisa revolta.
 Vê-la é investir, é tudo a mesma coisa. Ide-vos, pois, ao bosque e dai paz à vossa espada!
 Segui os vossos caminhos! E deixai os povos, e nações seguir os seus! Caminhos escuros na verdade, onde já não trilha nenhuma
esperança.
 Reine o bufarinheiro onde tudo quanto brilha é só ouro de bufarinheiro! Já não é tempo de reis: o que hoje se chama povo merece rei.
 Senão, olhai como as nações imitam agora os bufarinheiros: aproveitam as menores utilidades em todas as varreduras.
 Espiam-se, espreitam-se; é a isso que chamam “boa vizinhança”. Ditosos tempos aqueles em que um povo dizia:
 “Sobre nações quero eu fazer-me senhor!”
 Que, meus irmãos, o melhor deve reinar, o melhor quer também reinar. E onde se ouve outra doutrina, é que falta o melhor.

XXII

 Se estes tivessem o pão de graça, atrás de quem andariam a gritar? Em que se ocupariam se não fosse da sua subsistência? E é
necessário terem vida rigorosa!
 São animais rapaces: no seu “trabalho” há também roubo; nos seus “lucros”... há também astúcia. Por isso devem ter vida rigorosa.
 Devem, pois, tornar-se melhores animais rapaces, mais finos e astutos, animais mais semelhantes ao homem porque é o melhor animal
rapace.
 O homem arrebatou já as suas virtudes a todos os animais; por isso, de todos os animais é o homem que tem tido vida mais dura.
 Só as aves estão acima dele. E se o homem aprendesse também a voar, ó! a que altura voaria a sua rapacidade!

XIII

 Eis como quero o homem e a mulher: um, apto para a guerra, a outra, apta para dar à luz; mas os dois aptos para dançar com cabeças
e pernas.
 E que todo o dia em que se não haja dançado, pelo menos uma vez, seja para nós perdido! E toda a verdade que não traga ao menos
um riso nos pareça verdade falsa.

XXIV

 Quanto à maneira por que “atais” os vossos matrimônios, cuidai não seja um mau nó.
 Atastes com demasiada pressa? Pois disso se segue