assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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um rompimento, um adultério.
 E ainda vale mais romper o vínculo do que sujeitar-se a mentir. Eis o que me disse uma mulher: “É verdade que quebrei os laços do
matrimônio, mas os laços do matrimônio tinham-me quebrado a mim”.
 Sempre vi os mal-avindos sedentos da pior vingança: vingam-se em toda a gente de não poderem já andar separados.
 Por isso quero que os que estão de boa fé digam: “Nós não nos amamos: procuremos conservar o afeto!” Ou então: “Seria a nossa
promessa um equívoco?”
 “Dai-nos um prazo, uma breve união para vermos se somos capazes de uma longa união! Grave coisa é ser sempre dois!”
 Assim aconselho a todos que estão de boa fé; e a que se reduziria o meu amor ao Super-homem e a tudo o que deve vir, se aconselhasse
e falasse doutro modo?
 E não só vos deveis multiplicar, mas elevar. Ó! Meus irmãos, ajude-vos nisso o jardim do matrimônio!

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

XXV

 Aquele que conhece a fundo as antigas origens acabará por procurar as fontes do futuro e novas origens.
 Meus irmãos, já não passará muito tempo sem novos mananciais soarem em novas profundidades.
 Que o terremoto funda muitas fontes e cria muita sede; eleva também à luz forças interiores e secretas.
 O tremor de terra revela mananciais. Do cataclismo dos povos antigos surgem mananciais novos.
 E se alguém exclama “Olhai: aqui tendes uma fonte para muitos sedentos, um coração para muitos desmaiados, uma vontade para
muitos instrumentos”, em torno desse alguém se reúne o povo, quer dizer, muitos homens que tentam a prova.
 O que ali se ensaia é quem sabe mandar e quem deve obedecer.
 A sociedade humana é uma tentativa: eis o que eu ensino: uma longa investigação; mas procura o que mando.
 Uma tentativa, meus irmãos, e não um “contrato”. Rompei com tais palavras dos corações covardes e dos amigos de composições!

XXVI

 Ó! Meus irmãos! Em quem se encontra o maior perigo do futuro humano? Não é nos bons e nos justos?
 Nos que dizem e sentem no seu coração: “Nós sabemos já o que é bom e justo, e possuimo-lo: desgraçados dos que ainda querem
procurar aqui!”
 E por muito mal que os maus possam fazer, o que fazem os bons é o mais nocivo de tudo!
 E por muito mal que os caluniadores do mundo possam fazer, o que fazem os bons é o mais nocivo de tudo!
 Meus irmãos, alguém olhou uma vez o coração dos bons e dos justos, e disse: “São os fariseus”. Ninguém, porém, o entendeu.
 Os bons e os justos mesmos, não o deviam compreender: o espírito deles é um prisioneiro da sua consciência.
 A verdade, porém, é esta: é forçoso os bons serem fariseus: não têm escolha!
 É forçoso os bons crucificarem o que inventa a sua própria virtude! É esta a verdade!
 Outro que descobriu o seu país — o país, o coração, e o terreno dos bons e dos justos — foi aquele que perguntou: “A quem odeiam
mais?”
 O criador é quem eles mais odeiam: aquele que quebrar tábuas e estranhos valores, ao destruidor, a esse é que chamam criminoso.
 Que os bons... não podem criar: são sempre o princípio do fim.
 Crucificam aquele que escreve novos valores em tábuas novas; sacrificam para si o futuro; crucificam o futuro inteiro dos homens!
 Os bons sempre o princípio do fim.

XXVII

 Meus irmãos, compreendestes também estas palavras, e o que disse um dia o “último homem?”.
 Em quem se encontram os maiores perigos para o futuro dos homens? Não nos bons e nos justos?
 Acabai, acabai com os bons e os justos! Meus irmãos, compreendestes também esta palavra?

XXVIII

 Fugis de mim? Assustai-vos? Tremeis ante esta palavra?
 Meus irmãos, enquanto vos não disse que acabasseis com os bons e com as tábuas dos bons, não embarquei o homem no seu alto mar.
 Só agora é que lhe sobrevem o grande terror, o grande olhar inquieto, a grande enfermidade, a grande náusea, o grande enjôo.
 Os bons ensinaram-vos coisas enganadoras e falsas seguranças: tínheis nascido entre as mentiras dos bons e havíeis-vos refugiado nelas.
 Os bons falsearam e desnaturalizaram radicalmente as coisas.
 Mas o que descobriu o país “homem” descobriu ao mesmo tempo o país “futuro dos homens”. Agora deveis ser para mim corajosos e
pacientes marinheiros!
 Caminhai direitos a tempo, meus irmãos! Aprendei a caminhar direitos! O mar está agitado; há muitos que necessitam de vós para se
encaminharem.
 O mar brama: tudo está no mar! Eia! Avante! velhos corações de marinheiros!
 Que importa a pátria? Nós queremos governar lá em baixo onde está o país de nossos filhos! Além, ao longo, mais fogoso do que o mar,
se desencadeia o nosso grande desejo.

XXIX

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 “Porque serei tão duro? — disse um dia o diamante ao carvão comum. — Não somos próximos parentes?”
 Porque sois tão brandos? vos pergunto eu, meus irmãos: então não sois meus irmãos?
 Porque sois tão brandos, tão pegajosos, tão frouxos? Porque há tanta renúncia, tanta abdicação em vossos corações? Tão pouco alvo no
vosso olhar?
 E se não quereis ser destinos, se não quereis ser inexoráveis, como poderíeis um dia vencer comigo?
 E se a nossa dureza não quer cintilar e cortar a sachar, como poderíeis um dia criar comigo?
 Que os criadores são duros. E deve-nos parecer beatitude imprimir a vossa mão em séculos como em cera branda, e escrever sobre a
vontade de milenários como sobre bronze — mais duros que o bronze, mais nobres que o bronze. — E o mais duro é mais nobre.
 Meus irmãos, eu coloco sobre vós esta nova tábua: Fazei-vos duros!

XXX

 Ó! tu, vontade, necessidade minha, trégua de toda a miséria! Livra-me de todas as pequenas vitórias!
 Azar da minha alma a que chamo destino! Tu que estás em mim e sobre mim, livra-me e reserva-me para um grande destino!
 E tu, última grandeza, vontade minha, conserva-a para um fim, para que sejas implacável na tua vitória! Ai! Quem não sucumbirá à
sua vitória?
 Ai! Que olhos se não têm turvado nessa embriaguez de crepúsculo? Que pé não tem tropeçado e perdido a sua firmeza na vitória?
 A fim de estar preparado e maduro quando chegar o Grande Meio-dia, preparado e maduro como o bronze reluzente, como a nuvem
cheia de relâmpagos e o seio cheio de leite.
 Preparado para mim mesmo e para a minha vontade mais oculta: um arco anelante da sua flecha, uma flecha anelante da sua estrela.
 Uma estrela preparada e madura no seu meio-dia, ardente e trespassada, satisfeita da flecha celeste que a destrói.
 Sol e implacável vontade de sol, pronta a destruir na vitória.
 Ó! vontade, necessidade minha, trégua de toda a miséria! Reserva-me para uma grande vitória”.
 Assim falava Zaratustra.

O CONVALESCENTE

I

 Uma manhã, pouco tempo depois do regresso à sua caverna, Zaratustra saltou do leito como um louco: começou a gritar com voz
terrível, gesticulando como se alguma pessoa deitada ainda se não quisesse levantar; e a voz de Zaratustra troava em termos tais, que os
seus animais se lhe aproximaram espantados e de todos os esconderijos próximos da caverna de Zaratustra todos os animais fugiram,
voando, revoando, arrastando-se e saltando, consoante tinham patas ou asas. Zaratustra, porém, pronunciou estas palavras:
 “Sobe, pensamento vertiginoso, sai da minha profundidade! Eu sou o teu galo e o teu crepúsculo matutino, adormecido verme! Levanta-
te! A minha voz acabará por te despertar!
 Escuta! Que eu quero ouvir-te! Levanta-te!
 Varre dos teus olhos o sono e tudo o que é miope e cego! Escuta-me também com os teus olhos: a minha voz é um remédio até para os
cegos de nascença.
 E quando chegares a acordar, acordado ficarás eternamente. Eu não costumo despertar dorminhocos para que tornem a adormecer.