assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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o grande
tem recantos doentes.
 Qual é espécie de seres mais elevada, e qual a mais baixa?
 O parasita é a espécie mais baixa, mas o da espécie mais alta é o que alimenta mais parasitas.
 Como não há de a alma, que tem a escala mais vasta, descer mais baixo, transportar sobre si o maior número de parasitas?
 A alma mais vasta que pode correr, extraviar-se e errar mais longe em si mesma; a mais necessária, que por prazer se precipita no azar.
 A alma que é e se submerge na corrente do há de ser; a alma que possui e quer o querer e o desejo.
 A alma que foge de si mesma, e que se alcança a si mesma no mais amplo círculo; a alma, mais sensata a quem a loucura convida mais
docemente.
 A alma que ama mais a si mesma, na qual todas as coisas têm a sua ascensão e a sua descensão, o seu fluxo e o seu refluxo... Ó! como
não havia a alma mais alta de ter os piores parasitas?

XX

 Ó! Meus irmãos! Acaso serei cruel? Mas eu vos digo; ao que cai é ainda mister empurrá-lo!
 Tudo o que é de hoje cai e se desconcerta: quem, pois, o quereria deter? Eu, pela minha parte, ainda quero empurrá-lo.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Conheceis a volutuosidade que precipita as pedra em profundidades? Vede os homens de hoje: olhai como rondam pelas minhas
profundidades!
 Eu sou um prelúdio para melhores tangedores, meus irmãos! Um exemplo! Procedei segundo meu exemplo!
 E a quem não ensinardes a voar, ensinai-lhe... a cair mais depressa!

XXI

 Agradam-me os valentes; mas não basta ser uma boa espada; é preciso saber também a quem se fere!
 E muitas vezes mais valentia em se abster e em passar adiante, a fim de se reservar para um inimigo mais digno.
 Vós deveis ter somente inimigos dignos de ódio, mas não inimigos dignos de desprezo: é mister estardes orgulhosos do vosso inimigo; já
uma vez vo-lo ensinei.
 É mister reservarde-vos para o inimigo mais digno, meus amigos: por isso há muitos adiante dos quais deveis passar; sobretudo ante a
canalha numerosa que vos apedreja os ouvidos, falando-vos do povo e das nações.
 Livrai os vossos olhos do seu \u201cpró\u201d e do seu \u201ccontra\u201d! Há ali muita justiça e injustiça: ver tal coisa revolta.
 Vê-la é investir, é tudo a mesma coisa. Ide-vos, pois, ao bosque e dai paz à vossa espada!
 Segui os vossos caminhos! E deixai os povos, e nações seguir os seus! Caminhos escuros na verdade, onde já não trilha nenhuma
esperança.
 Reine o bufarinheiro onde tudo quanto brilha é só ouro de bufarinheiro! Já não é tempo de reis: o que hoje se chama povo merece rei.
 Senão, olhai como as nações imitam agora os bufarinheiros: aproveitam as menores utilidades em todas as varreduras.
 Espiam-se, espreitam-se; é a isso que chamam \u201cboa vizinhança\u201d. Ditosos tempos aqueles em que um povo dizia:
 \u201cSobre nações quero eu fazer-me senhor!\u201d
 Que, meus irmãos, o melhor deve reinar, o melhor quer também reinar. E onde se ouve outra doutrina, é que falta o melhor.

XXII

 Se estes tivessem o pão de graça, atrás de quem andariam a gritar? Em que se ocupariam se não fosse da sua subsistência? E é
necessário terem vida rigorosa!
 São animais rapaces: no seu \u201ctrabalho\u201d há também roubo; nos seus \u201clucros\u201d... há também astúcia. Por isso devem ter vida rigorosa.
 Devem, pois, tornar-se melhores animais rapaces, mais finos e astutos, animais mais semelhantes ao homem porque é o melhor animal
rapace.
 O homem arrebatou já as suas virtudes a todos os animais; por isso, de todos os animais é o homem que tem tido vida mais dura.
 Só as aves estão acima dele. E se o homem aprendesse também a voar, ó! a que altura voaria a sua rapacidade!

XIII

 Eis como quero o homem e a mulher: um, apto para a guerra, a outra, apta para dar à luz; mas os dois aptos para dançar com cabeças
e pernas.
 E que todo o dia em que se não haja dançado, pelo menos uma vez, seja para nós perdido! E toda a verdade que não traga ao menos
um riso nos pareça verdade falsa.

XXIV

 Quanto à maneira por que \u201catais\u201d os vossos matrimônios, cuidai não seja um mau nó.
 Atastes com demasiada pressa? Pois disso se segue um rompimento, um adultério.
 E ainda vale mais romper o vínculo do que sujeitar-se a mentir. Eis o que me disse uma mulher: \u201cÉ verdade que quebrei os laços do
matrimônio, mas os laços do matrimônio tinham-me quebrado a mim\u201d.
 Sempre vi os mal-avindos sedentos da pior vingança: vingam-se em toda a gente de não poderem já andar separados.
 Por isso quero que os que estão de boa fé digam: \u201cNós não nos amamos: procuremos conservar o afeto!\u201d Ou então: \u201cSeria a nossa
promessa um equívoco?\u201d
 \u201cDai-nos um prazo, uma breve união para vermos se somos capazes de uma longa união! Grave coisa é ser sempre dois!\u201d
 Assim aconselho a todos que estão de boa fé; e a que se reduziria o meu amor ao Super-homem e a tudo o que deve vir, se aconselhasse
e falasse doutro modo?
 E não só vos deveis multiplicar, mas elevar. Ó! Meus irmãos, ajude-vos nisso o jardim do matrimônio!

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

XXV

 Aquele que conhece a fundo as antigas origens acabará por procurar as fontes do futuro e novas origens.
 Meus irmãos, já não passará muito tempo sem novos mananciais soarem em novas profundidades.
 Que o terremoto funda muitas fontes e cria muita sede; eleva também à luz forças interiores e secretas.
 O tremor de terra revela mananciais. Do cataclismo dos povos antigos surgem mananciais novos.
 E se alguém exclama \u201cOlhai: aqui tendes uma fonte para muitos sedentos, um coração para muitos desmaiados, uma vontade para
muitos instrumentos\u201d, em torno desse alguém se reúne o povo, quer dizer, muitos homens que tentam a prova.
 O que ali se ensaia é quem sabe mandar e quem deve obedecer.
 A sociedade humana é uma tentativa: eis o que eu ensino: uma longa investigação; mas procura o que mando.
 Uma tentativa, meus irmãos, e não um \u201ccontrato\u201d. Rompei com tais palavras dos corações covardes e dos amigos de composições!

XXVI

 Ó! Meus irmãos! Em quem se encontra o maior perigo do futuro humano? Não é nos bons e nos justos?
 Nos que dizem e sentem no seu coração: \u201cNós sabemos já o que é bom e justo, e possuimo-lo: desgraçados dos que ainda querem
procurar aqui!\u201d
 E por muito mal que os maus possam fazer, o que fazem os bons é o mais nocivo de tudo!
 E por muito mal que os caluniadores do mundo possam fazer, o que fazem os bons é o mais nocivo de tudo!
 Meus irmãos, alguém olhou uma vez o coração dos bons e dos justos, e disse: \u201cSão os fariseus\u201d. Ninguém, porém, o entendeu.
 Os bons e os justos mesmos, não o deviam compreender: o espírito deles é um prisioneiro da sua consciência.
 A verdade, porém, é esta: é forçoso os bons serem fariseus: não têm escolha!
 É forçoso os bons crucificarem o que inventa a sua própria virtude! É esta a verdade!
 Outro que descobriu o seu país \u2014 o país, o coração, e o terreno dos bons e dos justos \u2014 foi aquele que perguntou: \u201cA quem odeiam
mais?\u201d
 O criador é quem eles mais odeiam: aquele que quebrar tábuas e estranhos valores, ao destruidor, a esse é que chamam criminoso.
 Que os bons... não podem criar: são sempre o princípio do fim.
 Crucificam aquele que escreve novos valores em tábuas novas; sacrificam para si o futuro; crucificam o futuro inteiro dos homens!
 Os bons sempre o princípio do fim.

XXVII

 Meus irmãos, compreendestes também estas palavras, e o que disse um dia o \u201cúltimo homem?\u201d.
 Em quem se encontram os maiores perigos para o futuro dos homens? Não nos bons e nos justos?
 Acabai, acabai