assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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prepara uma lira, convalescente, uma lira nova!
 Olha, Zaratustra, para os teus novos cantos é preciso uma lira nova.
 Canta e distrai-te, Zaratustra; cura a tua alma com cantos novos, para poderes sustentar o teu grande destino, que ainda não foi
destino de ninguém.
 Que os teus animais bem sabem quem és, Zaratustra, e o que deves chegar a ser: tu és o mestre do eterno regresso das coisas, é este
agora o teu destino!
 Que tu hás de ser o primeiro a ensinar esta doutrina: como não há de ser esse grande destino também o teu maior perigo e a tua
enfermidade!?
 Olha: nós sabemos o que ensinas: que todas as coisas tornam eternamente e nós com elas; que nós temos já existido uma infinidade de
vezes, e todas as coisas conosco.
 Ensinas que há um grande ano do acontecer (do sobre-vir), um ano monstruoso que, à semelhança de um relógio de areia, tem sempre
que se voltar novamente para correr e se esvaziar outra vez.
 De forma que todos esses grandes anos são iguais a si mesmos, em ponto grande e pequeno; de forma que nós em todo o grande ano
somos iguais a nós mesmos, em ponto grande e pequeno.
 E se tu agora quisesses morrer, Zaratustra, também sabemos como falarias a ti mesmo; mas os teus animais te suplicam: não morras
ainda.
 Falarias sem tremer, e antes respirarias alegria, porque tu, o mais paciente, te verias livre de um grande peso.
 “Agora morro e desapareço — dirias — e daqui a um instante já nada serei. As almas são tão mortais como os corpos.
 O nó das causas em que me encontro enlaçado torna... tornará a criar-me!
 Eu próprio formo parte das causas do eterno regresso das coisas.
 Regressarei como este sol, como esta terra, como esta águia, com esta serpente, não para uma vida nova ou para uma vida melhor ou
análoga.
 Tornarei eternamente para esta mesma vida, igual em ponto grande e também em pequeno, a fim de ensinar outra vez o eterno
regresso das coisas, a fim de repetir mais uma vez as palavras do grande meio-dia, da terra e dos homens, a fim de instruir novamente os
homens sobre o Super-homem.
 Disse a minha palavra, e por ela sucumbo.
 Assim o quer o meu destino eterno: desapareço como anunciador!
 Chegou a hora: a hora em que o que desaparece se abençoa a si mesmo.
 Assim... acaba “o caso de Zaratustra”.
 Depois de pronunciarem estas palavras, os animais calaram-se, esperando que Zaratustra dissesse alguma coisa; mas Zaratustra não
deu por isso. Estava deitado tranqüilamente, com os olhos cerrados, como se dormisse; mas não dormia: conversava com a sua alma.
 Vendo-o tão silencioso, a águia e a serpente respeitaram o grande silêncio que o rodeava, e retiraram-se com precaução.

DO GRANDE ANELO

 “Alma minha, ensinei-te a dizer “hoje”, como “um dia” e “noutro tempo” e a passar dançando por cima de tudo aqui, acolá e além.
 Alma minha, livrei-te de todos os recantos; afastei de ti o pó, as aranhas e a obscuridade.
 Alma minha, lavei-te do mesquinho pudor e da virtude meticulosa, e habituei-te a estar nua ante os olhos do sol.
 Com a tempestade que se chama “espírito” soprei sobre o teu mar revolto e expulsei dele todas as nuvens e até estrangulei o
estrangulador que se chama “pecado”.
 Alma minha, dei-te o direito de dizer “não” como a tempestade, e de dizer “sim” como o céu límpido: agora estás serena como a luz e
passas através das tempestades.
 Alma minha, restituí-te a liberdade sobre o que está criado e por criar; e quem como tu conhece a volutuosidade do futuro?
 Alma minha, ensinei-te o desprezo que não vem como o caruncho, o grande desprezo amante que onde mais despreza mais ama.
 Alma minha, ensinei-te a persuadir de tal modo; que as próprias coisas se te rendem: tal como o sol que persuade o próprio mar a

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

erguer-se à sua altura.
 Alma minha, afastei de ti toda a obediência, toda a genuflexão e todo o servilismo; eu mesmo te dei o nome de “trégua de misérias” e de
“destino”.
 Alma minha, dei-te nomes novos e vistosos brinquedos, chamei-te “destino” e “circunferência das circunferências”, e “centro do
tempo” e “abóbada cerúlea”.
 Alma minha, dei a beber ao teu domínio terrestre toda a sabedoria, já os vinhos novos, já os mais raros e fortes da sabedoria, os de
tempo imemorial.
 Alma minha, derramei em ti todo o sol e toda a noite, todos os silêncios e todos os anelos: cresceste então para mim como uma vida.
 Alma minha, agora estás aí, repleta e pesada, como vide de cheios úberes, de dourados cachos exuberantes; exuberante e oprimida de
ventura, esperando entre a abundância e envergonhada da sua expectação.
 Alma minha, agora já não há em parte alguma alma mais amante, mais ampla e compreensiva! Onde estariam o futuro e o passado
mais perto um do outro do que em ti?
 Alma minha, dei-te tudo, por ti esvasiei as mãos... e agora! Agora dizes-me sorrindo, cheia de melancolia: “Qual de nós dois deve
agradecer?”
 Não é o doador que deve estar agradecido àquele que houve por bem aceitar?
 Não será uma necessidade o dar? Não será... pena aceitar?
 Alma minha, compreendo o sorriso da tua melancolia: a tua exuberância estende agora as mãos anelantes!
 A tua plenitude dirige os seus olhares aos mares rugidores, busca e aguarda: o desejo infinito da plenitude lança um olhar através do
céu sorridente dos teus olhos!
 E na verdade, alma minha, quem te veria o sorriso sem se desfazer em lágrimas?
 Os próprios anjos prorrompem em pranto vendo a excessiva bondade do teu sorriso.
 A tua bondade, a tua bondade demasiado grande, não se quer lastimar nem chorar, e, contudo, alma minha, o teu sorriso deseja as
lágrimas, e a tua trêmula boca os soluços.
 “Não será todo o pranto uma queixa, e toda a queixa uma acusação?” Assim dizes contigo, e por isso preferes sorrir, alma minha, a
derramar a tua pena, a derramar em torrentes de lágrimas toda a pena que te causa a tua plenitude e toda a ansiedade que faz que a
vinha suspire pelo vindimador e pelo podão do vindimador.
 Se não queres chorar, porém, chorar até o fim a tua purpúrea melancolia, precisas cantar, alma minha. — Já vês: eu, que predico isto,
eu mesmo sorrio. — Precisas cantar com voz dolente, até os mares ficarem silenciosos para escutar o teu grande anelo.
 Até que em anelantes e silenciosos mares se balouce o barco, a dourada maravilha, em torno de cujo ouro se agitam todas as coisas
boas, más e maravilhosas, e muitos animais grandes e pequenos, e tudo quanto possui pernas leves e maravilhosas para poder correr por
caminhos de violetas até à áurea maravilha, até à barca voluntária e até ao seu dono.
 Ele é, porém, o grande vindimador que espera com a sua podadeira de diamante, o teu grande libertador, alma minha, o inefável...
para quem só os cantos do futuro sabem encontrar nomes. E na verdade, já o teu hálito tem o perfume dos cantos do futuro, já ardes e
sonhas, já a tua sede bebe em todos os poços consoladores de graves ecos, já a tua melancolia descansa na beatitude dos cantos do futuro!
 Alma minha, dei-te tudo, até o meu último bem, e as minhas mãos por ti se esvaziaram: ter-te dito que cantasses foi o meu último dom.
 Disse-te que cantasses. Fala, portanto, fala: qual de nós dois deve agora agradecer? Mas não; canta para mim, canta, alma minha! E
deixa-me agradecer-te!”
 Assim falava Zaratustra.

O OUTRO CANTO DE BAILE

 “Acabo de te olhar nos olhos, vida; vi reluzir ouro nos teus olhos noturnos, e essa volutuosidade paralisou-me o coração: vi brilhar uma
barca dourada que se submergia em águas noturnas, uma barca dourada que se submergia e reaparecia fazendo sinais!
 Tu dirigias um olhar aos meus pés, doidos por dançar, um olhar acariciador, terno, risonho e interrogador,
 Duas vezes apenas agitaste com as mãos as tuas castanholas, e