assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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já os pés me pulavam, ébrios.
 Os calcanhares erguiam-se; os dedos escutavam para te compreender; não tem o dançarino os ouvidos nos dedos dos pés?
 Saltei ao teu encontro; tu retrocedeste ao meu impulso, e até a mim serpeava a tua voadora e fugidia cabeleira.
 Num pulo me afastei de ti e das tuas serpentes: já tu te erguias com os olhos cheios de desejos.
 Com lânguidos olhares me mostras sendas tortuosas; por tortuosas sendas aprende astúcias o meu pé.
 Receio-te quando te aproximas, amo-te quando estás longe; a tua fuga atrai-me; as tuas diligências detêm-me. Sofro; mas, por ti, que
não sofreria eu?
 Ó! tu, cuja frialdade incendeia, cujo ódio seduz, cuja fuga prende, cujos enganos comovem!
 Quem te não odiará, grande carcereira, sedutora, esquadrinhadora e descobridora! Quem te não amará, inocente, impaciente,
arrebatadora pecadora de olhos infantis!
 Aonde me arrastas agora, indômito prodígio? E já me tornas a fugir, doce esquiva, doce ingrata!
 Dançando sigo as tuas menores pisadas. Onde estás? Dá-me a mão! Ou um dedo sequer!
 Há por aí cavernas e bosques; extraviar-nos-emos. Pára! Detém-te! Não vês revoarem corujas e morcegos?
 Eh! lá, coruja! Morcego! Quereis brincar comigo? Onde estamos? Com os cães aprendestes a uivar e a rosnar.
 Mostravas-me graciosamente os brandos dentes, e os teus malvados olhos asseteavam-me por entre as frisadas madeixas.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Que correria por montes e vales! Eu sou o caçador; queres tu ser o meu cão?
 Agora, a meu lado! e depressa, invejável solitária! Acima agora! Ó! Ao voltar, caí.
 Olha como estou aqui estendido! Olha, altaneira, como imploro o teu socorro! Quereria continuar contigo... por caminhos mais
agradáveis! pelos caminhos do amor, através de esmaltados bosques! ou pelos que marginam o lago, onde nadam e saltam dourados
peixes!
 Estás cansada, agora? Ali em baixo há ovelhas e vespertinos arrebóis. Não é tão bom adormecer ao som da flauta dos pastores?
 Então, estás assim cansada? Vou-te levar lá; ao menos deixa pender os braços. E tens sede?... Poderia dar-te qualquer coisa... Mas a
tua boca não quer beber.
 Que maldita serpente esta! feiticeira fugidia, veloz e ágil. Aonde te meteste? Sinto na cara dois sinais da tua mão, dois sinais vermelhos!
 Estou deveras farto de te seguir sempre como ingênuo cordeirinho! Feiticeira, até agora cantei para ti: agora, para mim deves tu...
gritar!
 Deves dançar e gritar ao compasso de meu látego!
 Esquecê-lo-ia eu? Não!”

II

 Eis o que então respondeu a vida;, tapando os delicados ouvidos:
 “Ó! Zaratustra! Não vibres tão espantosamente o látego! Bem sabes que o ruído assassina os pensamentos... e assaltam-me agora
pensamentos tão ternos!
 Nós não somos bons nem maus para nada! Além do bem e do mal encontrámos a nossa ilha e o nosso verde prado: só nos dois o
encontrámos! Por isso nos devemos amar um ao outro!
 E conquanto nos não amemos de todo o coração, será caso para nos enfadarmos? Enfadam-se as pessoas por não se amarem de todo o
coração?
 É que eu te amo, te amo muitas vezes com excesso, sabe-lo demais, a razão é que estou ciosa da tua sabedoria. Ah! que velha louca é a
sabedoria!!
 Se alguma vez a tua sabedoria te deixasse, também logo o meu amor te deixaria.”
 Então a vida olhou pensativa para trás e em torno de si, e disse em voz baixa: “Ó! Zaratustra, não me és bastante fiel!
 Ainda falta muito para me teres o amor que dizes; sei que pensas deixar-me breve.
 Há um velho bordão pesado, pesadíssimo, que ressoa de noite até lá acima, à tua caverna; quando ouves esse sino dar a meia-noite,
pensas — bem o sei, Zaratustra — pensas deixar-me breve!”
 “Assim é — respondi titubeando; — mas tu também sabes...” E disse-lhe uma coisa ao ouvido, colado à sua emaranhada cabeleira, às
suas douradas e revoltas madeixas.
 “Tu sabes isso, Zaratustra? Ninguém sabe isso...
 Olhamo-nos, e dirigimos o nosso olhar para o verde prado por onde corria a frescura da tarde, e choramos juntos. Mas então a vida
era para mim mais cara do que jamais o foi toda a minha sabedoria”.
 Assim falava Zaratustra.

III

Uma!

Alerta, homem!

Duas!

Que diz a meia-noite profunda?

Três!

“Tenho dormido, tenho dormido...

Quatro!

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

“De um profundo sono despertei.

Cinco!

“O mundo é profundo...

Seis!

“E mais profundo do que o dia julgava.

Sete!

“Profunda é a sua dor...

Oito!

“E a alegria... mais profunda que a aflição.

Nove!

“A dor diz: Passa!

Dez!

“Mas toda alegria quer a eternidade...

Onze!

“Quer profunda eternidade!

Doze!

.....................................

OS SETE SELOS

I

 Se sou um adivinho, cheio desse espírito adivinhatório que caminha por uma alta crista entre dois mares, que caminha entre o passado
e o futuro como uma densa nuvem inimiga de todos os lugares baixos, de tudo quanto está fatigado e não pode morrer nem viver; disposta
a rasgar o seu obscuro seio, como o relâmpago, disposta a fulminar o raio de claridade redentora, cheia de relâmpagos que dizem sim! que
riem sim! pronta a exalações adivinhadoras — mas, ditoso do que está assim cheio! e, na verdade, forçoso é cingir-se ao cume como
pesada tormenta aquele que deve acender um dia luz do futuro! — se eu sou assim, como não hei de estar anelante pela eternidade,
anelante pelo nupcial anel dos anéis, o anel do regresso das coisas?
 Ainda não encontrei mulher de quem quisesse ter filhos, senão esta mulher a quem amo: porque te amo, eternidade!
 Por que te amo, eternidade!

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

II

 Se alguma vez a minha cólera profanou sepulturas, removeu barreiras e precipitou velhas tábuas partidas em escarpadas profundezas;
 se a minha zombaria varreu alguma vez as palavras apodrecidas; se fui como uma escova para as aranhas e um vento purificador para
velhas e bolorentas cavernas sepulcrais;
 se alguma vez estive sentado, cheio de alegria, no sítio onde jazem deuses antigos, abençoando e amando o mundo ao lado dos
monumentos de antigos caluniadores; do inundo — porque até as igrejas e os túmulos dos deuses eu amo, contanto que o céu espreite
serenamente através das suas rendilhadas abóbadas; que eu gosto de repousar sobre as igrejas arruinadas, como a erva e as vermelhas
papoulas — como não estaria anelante da eternidade, anelante do nupcial anel dos anéis, o anel do regresso?
 Nunca encontrei mulher de quem quisesse ter filhos senão esta mulher que amo: porque te amo, eternidade!
 Porque te amo, eternidade!

III

 Se alguma vez chegou até mim um sopro do sopro criador e dessa necessidade divina que até os azares obriga a dançar as danças das
estrelas;
 se alguma vez me ri com o riso do relâmpago criador, ao qual se segue resmungando, mas obediente, o prolongado troar da ação;
 se alguma vez joguei os dados com deuses, na mesa divina da terra, fazendo que a terra tremesse e se rasgasse, despedindo rios de
chamas — porque a terra é uma mesa divina que treme com novas palavras criadoras e com um ruído de dados divinos — como não hei
de eu estar anelante da eternidade, anelante do nupcial anel dos anéis, o anel do regresso?
 Nunca encontrei mulher de quem quisesse ter filhos senão esta mulher que amo: porque te amo, eternidade!
 Porque te amo, eternidade!

IV

 Se alguma vez bebi um longo trago desse cântaro espumoso de espécies e misturas, onde estão bem misturadas todas as coisas;
 se a minha mão alguma vez misturou o mais remoto com o mais próximo e o fogo com o engenho, e a alegria