assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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a caçar moscas, sentado à sombra, por detrás de uma grande pedra?
 E, na verdade, estou grato ao meu destino eterno, que me não fustiga nem empurra e me dá tempo para malícias; tanto que hoje trepei
a esta alta montanha para apanhar peixes.
 Acaso se viu já um homem pescando em altas montanhas? Mas ainda que o que eu quero lá em cima seja uma loucura, vale mais do
que se lá em baixo me tornasse solene e me pusesse verde e amarelo à força de esperar; cheio de cólera à força de esperar uma santa
tempestade rugidora que viesse da montanha, como um paciente que gritasse aos vales: “Ouvi, ou vos sacudo com o azorrague de Deus!”
 Não é que a mim me irritem tais coléricos; unicamente me fazem rir. Compreendo que estejam impacientes esses tambores ruidosos
que hão de ter a palavra hoje ou nunca!
 Eu e o meu destino, porém, não falamos ao “hoje” e tampouco ao “nunca”; temos paciência para falar, e tempo, muito tempo, para
isso. Porque ele há de chegar um dia, e não de passagem.
 Quem terá de vir um dia, e não de passagem? O nosso grande acaso: é esse o nosso grande e longínquo Reinado do Homem, o reinado
de Zaratustra, que dura mil anos...
 Se esse “hoje” está ainda longe, que me importa? Nem por isso é menos sólido para mim... Confiadamente me firmo com os dois pés
nesta base: sobre uma base eterna, sobre duas rochas primitivas, sobre estes antigos montes, os mais altos e rijos, de que todos os ventos se
aproximam como de um limite meteorológico para se informarem dos pontos de origem e destino.
 Ri-te aqui, ri luminosa e saudável malícia minha! Atira das altas montanhas o teu cintilante riso trocista! Atrai com o teu cintilar os
mais formosos peixes humanos!
 E tudo o que pertencer a mim em todos os mares, tudo o que for meu em todas as coisas, pesca-o para mim, traz-mo aqui acima: é o
que espera o pior de todos os pescadores.
 Ao longe, ao longe, meu anzol!... Desce, vai ao fundo, isca da minha ventura! Esparge o teu mais doce orvalho, mal do meu coração!
Morde, anzol, no ventre de toda a negra aflição.
 Ao longe, ao longe, olhos meus! Quantos mares em torno de mim, quanto futuro humiano na aurora! E por cima de mim... que risonho
silêncio! Que silêncio sem nuvens!”

O GRITO DE ANGÚSTIA
 No dia seguinte estava Zaratustra sentado na sua pedra diante da caverna, enquanto os animais andavam à cata de alimento... e de
novo mel; porque Zaratustra tinha dissipado até ao fim o mel antigo. Estando ali sentado com um pau na mão, seguindo o contorno da
sombra que o seu corpo projetava no solo, meditando profundamente — mas não em si mesmo nem na sua sombra — estremeceu de
repente e ficou sobressaltado de terror: porque vira outra sombra ao lado da sua. E levantando-se e voltando-se rapidamente, viu em pé a
seu lado o adivinho, o mesmo a quem uma vez dera de comer e beber à sua mesa, o proclamador do grande cansaço, que dizia: “Tudo é
igual; nada merece a pena; o mundo não tem sentido; o saber asfixia”.
 O semblante, porém, transformara-se-lhe desde então; e Zaratustra temorizou-se de novo, ao ver-lhe os olhos, a tal ponto se lhe lia
neles funestas predições.
 O adivinho, que logo compreendeu o que agitava a alma de Zaratustra, passou a mão pela face como se quisesse apagar o que havia
nela. Zaratustra, por sua parte, fez a mesmo. Quando desta forma serenaram e cobraram ânimo, deram-se as mãos em sinal de que se
queriam reconhecer.
 “Sê bem-vindo, adivinho da grande lassidão — disse Zaratustra; — não foste em vão meu hóspede e comensal. Come e bebe hoje
também na minha morada, e deixa que se sente à tua mesa um velho alegre”. — “Um velho alegre? — respondeu o adivinho, meneando a
cabeça. — Quem quer que sejas ou desejes ser, Zaratustra, já o não serás por muito tempo cá em cima; dentro em pouco a tua barca já
não estará ao abrigo”. “Acaso estou eu ao abrigo?” perguntou, rindo, Zaratustra. O adivinho respondeu: “Em torno da tua montanha
sobem mais e mais as ondas da imensa miséria e da aflição: não tarda a erguer a tua barca e arrastar-te com ela”. Zaratustra calou-se,
admirado. — “Não ouves, ainda? — continuou o adivinho. — Não sobe o abismo um zumbido, um rumor surdo?” Zaratustra permaneceu
calado e escutou. Ouviu então um grito prolongado, soltado de uns para os outros abismos, pois nenhum deles o queria reter, tão funesto

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

era o seu som.
 Sinistro agoureiro, — disse afinal, Zaratustra — isto é um grito de angústia, e grito de um homem; provavelmente sai de um mar negro.
 Que me importa, porém, a angústia dos homens! O último pecado que me está reservado... sabes como se chama?”
 “Compaixão! — respondeu o adivinho, cujo coração transbordava, erguendo as mãos. — Ó! Zaratustra! Venho aqui fazer-te cometer o
último pecado!”
 Apenas pronunciadas estas palavras, tornou a ressoar o grito, mais prolongado e angustioso do que dantes, e já muito mais próximo.
“Ouves, ouves, Zaratustra? — exclamou o adivinho. — A ti se dirige o grito, é por ti que chama: vem, vem, vem; já é tempo; não há um
momento a perder!”
 Zaratustra, entretanto, calava-se, perturbado e alterado. Por fim perguntou, como quem hesita interiormente: “E quem me chama lá
de baixo?”
 “Bem o sabes — respondeu vivamente o adivinho. — Por que te ocultas? É o homem superior que te chama em seu auxílio”.
 “O homem superior! — gritou Zaratustra, admirado. — E que quer ele? Que quer o homem superior? O que que quer ele aqui?” E o
corpo cobriu-se-lhe de suor.
 O adivinho não respondeu à angústia de Zaratustra: escutava e tornava a escutar, inclinado para o abismo. Mas como o silêncio se
prolongasse muito olhou para trás e viu Zaratustra de pé e a tremer.
 “Zaratustra, — começou a dizer em voz triste: — não aparentes brincar de alegria. Embora quisesses dançar diante de mim e dar
todos os teus saltos, ninguém me poderia dizer: “Olha, aí tens o baile do último homem alegre!”
 Em vão subirá a esta altura quem procurar aqui esse homem: encontraria cavernas e grutas, esconderijos para a gente que se precisa
ocultar, mas não poços de felicidade nem tesouros, nem novos filões áureos de ventura.
 Ventura! — como encontrá-la entre semelhantes sepultados, entre tais eremitas!
 Hei de buscar ainda a última felicidade nas Ilhas Bem-aventuradas e ao longe entre esquecidos mares?
 Mas tudo é igual, nada merece a pena, são inúteis todas as pesquisas; também já não há Ilhas Bem-aventuradas?”
 Assim suspirou o adivinho, mas ao ouvir o seu último suspiro, Zaratustra recuperou a serenidade e presença de espírito, como uma
pessoa que regressa à luz saindo de um antro profundo. “Não! Não! Mil vezes não! — exclamou com voz firme, cofiando a barba.
 — Isso sei-o eu muito melhor que tu. Ainda há Ilhas Bem-aventuradas! Não digas uma palavra, saco de tristezas!
 Cessa de cair, nuvem chuvosa da amanhã! Não me vês já molhado pela tua tristeza e orvalhado como um cão?
 Agora sacudo-me e fujo para longe de ti, para me secar: não te admires!
 Pareço-te indelicado? Mas a minha corte está aqui!
 Pelo que respeita ao teu homem superior, seja! Vou a correr procurá-lo por esses bosques: foi donde partiu o seu grito. Talvez o ameace
alguma fera.
 Está no meu domínio; não quero que lhe suceda nenhuma desgraça. E, na verdade, no meu domínio há muitas feras!
 Dito isto, Zaratustra dispôs-se a partir. Então o adivinho exclamou: “És um velhaco, Zaratustra!
 Bem sei: o que tu queres é livrar-te de mim! Preferes fugir para os bosques a perseguir animais monteses!
 De que te servirá isso, porém? À noite tornarás a encontrar-me: estarei sentado na tua própria caverna, com a paciência e o peso de
um madeiro: ali sentado, à tua espera”.
 “Pois seja! — exclamou Zaratustra, afastando-se. — E o que me pertence na caverna, pertence-te também a ti, que és meu hóspede.