assim falava zaratustra
113 pág.

assim falava zaratustra

Disciplina:Filosofia e Ética2.285 materiais67.876 seguidores
Pré-visualização50 páginas
seu amor. É preciso um leão para esse feito.
 Dizei-me, porém, irmãos: que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o altivo leão se mude
em criança?
 A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa

file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/zara.rb/000000-zara.html (9 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

afirmação.
 Sim; para o jogo da criação, meus irmãos, é preciso uma santa afirmação: o espírito quer agora a sua vontade, o que perdeu o mundo
quer alcançar o seu mundo.
 Três transformações do espírito vos mencionei: como o espírito se transformava em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente,
em criança”.
 Assim falava Zaratustra. E nesse tempo residia na cidade que se chama “Vaca Malhada”.

DAS CÁTEDRAS DA VIRTUDE
 Elogiaram a Zaratustra um sábio que falava doutamente do sono e da virtude; por isso se via cumulado de honrarias e recompensas, e
todos os mancebos acorriam à sua cátedra. Zaratustra foi ter com ele, e, como todos os mancebos, sentou-se diante da sua cátedra. E o
sábio falou assim:
 “Honrai o sono e respeitai-o! É isso o principal. E fugi de todos os que dormem mal e estão acordados de noite.
 O próprio ladrão se envergonha em presença do sono. Sempre vagueia silencioso durante a noite: mas o relento é insolente.
 Não é pouco saber dormir; para isso é preciso aprontar-se durante o dia.
 Dez vezes ao dia deves saber vencer-te a ti mesmo; isto cria uma fadiga considerável, e esta é a dormideira da alma.
 Dez vezes deves reconciliar-te contigo mesmo, porque é amargo, vencermo-nos, e o que não está reconciliado dorme mal.
 Dez verdades hás de encontrar durante o dia; se assim não for, ainda procurarás verdades durante a noite e a tua alma estará faminta.
 Dez vezes ao dia precisas rir e estar alegre, senão incomodar-te-á de noite o estômago, esse pai da aflição.
 Ainda que poucas pessoas o saibam, é preciso ter todas as virtudes para dormir bem.
 Levanto falsos testemunhos? Cometi adultério?
 Cobiço a serva do próximo? Tudo isto se combina mal com um bom sono.
 E se se tivessem as virtudes, seria preciso saber fazer coisa: adormecer a tempo todas as virtudes.
 É mister que estas lindas mulheres se não desavenham! E por tua causa, infeliz!
 Paz com Deus e com o próximo: assim o quer o bom sono. E também paz com o diabo do próximo, senão, atormentar-te-á de noite.
 Honra e obediência à autoridade, mesmo à autoridade que claudique! Assim o exige o bom sono! Acaso tem uma pessoa culpa do poder
gostar de andar com pernas coxas?
 Aquele que conduz as suas ovelhas ao prado mais viçoso, para mim será melhor pastor: isto é conveniente ao bom sono.
 Não quero muitas honras nem grandes tesouros; isto exacerba a bilis. Dorme-se mal, porém, sem uma boa reputação e um pequeno
tesouro.
 Prefiro pouca ou má companhia; mas é mister que venha e se vá embora no momento oportuno. É isto o que convém ao bom sono.
 Também me agradam muito os pobres de espírito: apressam o sono. São bem-aventurados, mormente quando se lhes dá sempre razão.
 Assim passam o dia os virtuosos. Quando chega a noite, livro-me bem de chamar o sono. O sono, que é o rei das virtudes, não quer ser
chamado.
 Somente penso no que fiz e pensei durante o dia. Ruminando, interrogo-me pacientemente como uma vaca. Então, quais foram as tuas
dez vitórias sobre ti mesmo?
 E quais foram as dez reconciliações, e as dez verdades, e os dez risos, com que se alegrou o meu coração?
 Maquinando nestas coisas e acalentado por quarenta pensamentos, o sono, que eu não chamei, logo me surpreende.
 O sono dá-me nos olhos, e sinto-os pesados. O sono aflora à minha boca, e a boca fica aberta.
 Sutilmente se introduz em mim o ladrão predileto e rouba-me os pensamentos. Estou de pé, feito um tronco; mas ainda há pouco de pé,
logo me estendo”.
 Ouvindo falar o sábio, Zaratustra riu-se consigo mesmo.
 “Parece-me doido este sábio com os seus quarenta pensamentos, mas creio que compreende bem o sono.
 Bem-aventurado o que habite ao pé deste sábio! Um sono assim é contagioso, mesmo através de uma parede espessa.
 Na sua cátedra mesmo há um feitiço. E não era debalde que os mancebos estavam sentados ao pé do pregador da virtude.
 Diz a sua sabedoria: “Velar para dormir bem”. E, na verdade, se a vida faltasse senso e eu tivesse que eleger um contra-senso, esse
contra-senso parecer-me-ia o mais digno de eleição.
 Agora compreendo o que se procurava primeiro que tudo em nossos dias, quando se procurava mestres de virtude. O que se procurava
era um bom sono, e para isso virtudes coroadas de dormideiras.
 Para todos estes sábios catedráticos, tão ponderados, a sabedoria era dormir sem sonhar: não conheciam melhor sentido da vida.
 Hoje ainda há alguns como este pregador da virtude, e nem sempre tão honestos como ele; mas o seu tempo já passou.
 E ainda bem não estão em pé, já se estendem.
 Bem-aventurados tais dormentes porque não tardarão a dormir de todo”.
 Assim falava Zaratustra.

DOS CRENTES EM ALÉM MUNDOS (1)

file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/zara.rb/000000-zara.html (10 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Um dia, Zaratustra elevou a sua ilusão mais além da vida dos homens, à maneira de todos os que crêem em além-mundos.
 Obra de um deus dolente e atormentado lhe pareceu então o mundo.
 “Sonho me parecia, e ficção de um deus: vapor colorido ante os olhos de um divino descontente.
 Bem e mal, alegria e desgosto, eu e tu, vapor colorido me parecia tudo ante os olhos criadores. O criador queria desviar de si mesmo o
olhar... e criou o mundo.
 Para quem sofre é uma alegria esquecer o seu sofrimento. Alegria inebriante e esquecimento de si mesmo me pareceu um dia o mundo.
 Este mundo, o eternamente imperfeito, me pareceu um dia, imagem de uma eterna contradição, e uma alegria inebriante para o seu
imperfeito criador.
 Da mesma maneira projetei eu também a minha ilusão mais para além da vida dos homens à semelhança de todos os crentes em além-
mundos. Além dos homens, realmente?
 Ai, meus irmãos! Este deus que eu criei, era obra humana e humano delírio, como todos os deuses.
 Era homem, tão somente um fragmento de homem e de mim. Esse fantasma saía das minhas próprias cinzas e da minha própria
chama, e nunca veio realmente do outro mundo.
 Que sucedeu, meus irmãos? Eu, que sofria, dominei-me; levei a minha própria cinza para a montanha; inventei para mim uma chama
mais clara. E vede! O fantasma ausentou-se!
 Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em semelhantes fantasmas. Assim falo eu aos que creem
em além-mundos.
 Sofrimentos e incompetências; eis o que criou todos os além-mundos, e esse breve desvario da felicidade que só conhece quem mais
sofre.
 A fadiga, que de um salto quer atingir o extremo, uma fadiga pobre e ignorante, que não quer ao menos um maior querer; foi ela que
criou todos os deuses e todos os além-mundos.
 Acreditai-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou do corpo: tateou com os dedos do espírito extraviado as últimas paredes.
 Acreditai-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou da terra: ouviu falar as entranhas do ser.
 Quis então que a sua cabeça transpassasse as últimas paredes, e não só a cabeça: até ele quis passar para o “outro mundo”.
 O “outro mundo”, porém, esse mundo desumanizado e inumano, que é um nada celeste, está oculto aos homens, e as entranhas do ser
não falam ao homem, a não ser como homem.
 É deveras difícil demonstrar o Ser, e difícil é fazê-lo falar. Dizei-me, porém, irmãos: a mais estranha de todas as coisas não será a
melhor demonstrada?
 E, este Eu que cria, que quer, e que dá a medida