assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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e o valor das coisas, este Eu, e a contradição e confusão do Eu falam com a maior
lealdade do seu ser.
 E este ser lealíssimo, o Eu, fala do corpo, e quer o corpo, embora sonhe e divague e esvoace com as asas partidas.
 O Eu aprende a falar mais realmente de cada vez, e quanto mais aprende, mais palavras acha para honrar o corpo e terra.
 O meu Eu ensinou-me um novo orgulho que eu ensino aos homens: não ocultar a cabeça nas nuvens celestes, mas levá-la descoberta;
sustentar erguida uma cabeça terrestre que creia no sentido da terra.
 Eu ensino aos homens uma nova vontade: querer o caminho que os homens têm seguido cegamente, e considerá-lo bom e fugir dele
como os enfermos e os decrépitos.
 Enfermos e decrépitos foram os que menosprezaram o corpo e a terra, os que inventaram as coisas celestes e as gotas de sangue
redentor; mas até esses doces e lúgubres venenos foram buscar no corpo e na terra!
 Queriam fugir da sua miséria, e as estrelas estavam demasiado longe para eles. Então suspiraram: “Oh! se houvessem caminhos
celestes para alcançar outra vida e outra felicidade!” E inventaram os seus artifícios e as suas beberagens sangrentas.
 E julgaram-se arrebatados para longe do seu corpo e desta terra, os ingratos! A quem deviam, porém, o seu espasmo e o deleite do seu
arroubamento? Ao seu corpo e a esta terra.
 Zaratustra é indulgente com os enfermos. Não o enfadam as suas formas de se consolarem, nem a sua ingratidão. Curem-se, dominem-
se, criem um corpo superior!
 Zaratustra também se não enfada com o que sara quando este olha com carinho as suas ilusões, e vai à meia-noite rodear a tumba do
seu Deus; mas as suas lágrimas continuam sendo para mim enfermidade e corpo enfermo.
 Houve semprei muitos enfermos entre os que sonham e suspiram por Deus; odeiam furiosamente o que procura o conhecimento e a
mais nova das virtudes, que se chama lealdade.
 Olham sempre para trás, para tempos obscuros; nesse tempo, de certo, a ilusão e a fé eram outra coisa. O delírio da razão era coisa
divina, e a dúvida, pecado.
 Conheço demasiado esses semelhantes a Deus; querem que se acredite neles e que a dúvida seja pecado. Também sei de sobra no que é
que eles crêem mais.
 Não é, certamente, em além-mundos e em gotas de sangue redentor; eles também crêem sobretudo no corpo, e ao seu próprio que
olham como a coisa em si.
 O seu corpo, porém, é coisa enfermiça e de boa vontade se livrarão dele. Por isso escutam os pregadores da morte e eles mesmos
pregam os além-mundos.
 Preferi, meus irmãos, a voz do corpo curado; é uma voz mais leal e mais pura.
 O corpo são, o corpo cheio de ângulos retos, fala com mais lealdade e mais pureza; fala do sentido da terra”.
 Assim falava Zaratustra.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

DOS QUE DESPREZAM O CORPO

 Aos que desprezam o corpo quero dizer a minha opinião. O que devem fazer não é mudar de preceito, mas simplesmente despedirem-
se do seu próprio corpo, e por conseguinte, ficarem mudos.
 “Eu sou corpo e alma” — assim fala a criança. — E porque sei não há de falar como as crianças?
 Mas o que está desperto e atento diz: — “Tudo é corpo, e nada mais; a alma é apenas nome de qualquer coisa do corpo”.
 O corpo é uma razão em ponto grande, uma multiplicidade com um só sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor.
 Instrumento do teu corpo é também a tua razão pequena, a que chamas espírito: um instrumentozinho e um pequeno brinquedo da tua
razão grande.
 Tu dizes “Eu” e orgulhas-te dessa palavra. Porém, maior — coisa que tu não queres crer — é o teu corpo e a tua razão grande. Ele não
diz Eu, mas: procede como Eu.
 O que os sentidos apreciam, o que o espírito conhece, nunca em si tem seu fim; mas os sentidos e o espirito quereriam convencer-te de
que são fim de tudo; tão soberbos são.
 Os sentidos e o espírito são instrumentos e joguetes; por detrás deles se encontra o nosso próprio ser (1). Ele esquadrinha com os olhos
dos sentidos e escuta com os olhos do espirito.
 Sempre escuta e esquadrinha o próprio ser: combina, submete, conquista e destrói.
 Reina, e é também soberano do Eu.
 Por detrás dos teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um senhor mais poderoso, um guia desconhecido, chama-se “eu sou”.
Habita no teu corpo; é o teu corpo.
 Há mais razão no teu corpo do que na tua melhor sabedoria. E quem sabe para que necessitará o teu corpo precisamente da tua melhor
sabedoria?
 O próprio ser se ri do teu Eu e dos seus saltos arrogantes. Que significam para mim esses saltos e vôos do pensamento? — diz. — Um
rodeio para o meu fim. Eu sou o guia do Eu e o inspirador de suas idéias.
 O nosso próprio ser diz ao Eu: “Experimenta dores!” E sofre e medita em não sofrer mais; e para isso deve pensar.
 O nosso próprio ser diz ao Eu: “Experimenta alegrias!” regozija-se então e pensa em continuar a regozijar-se freqüentemente; e para
isso deve pensar.
 Quero dizer uma coisa aos que desprezam o corpo: desprezam aquilo a que devem a sua estima. Quem criou a estima e o menosprezo e
o valor e a vontade?
 O próprio ser criador criou a sua estima e o seu menosprezo, criou a sua alegria e a sua dor. O corpo criador criou a si mesmo o
espírito como emanação da sua vontade.
 Desprezadores do corpo: até na vossa loucura e no vosso desdém sereis o vosso próprio ser. Eu vos digo: o vosso próprio ser quer
morrer e se afasta da vida.
 Não pode fazer o que mais desejaria: criar superando-se a si mesmo. É isto o que ele mais deseja; é esta a sua paixão toda.
 É, porém, tarde demais para isso: de maneira que até o vosso próprio ser quer desaparecer, desprezadores do corpo.
 O vosso próprio ser quer desaparecer: por isso desprezais o corpo! Porque não podeis criar já, superando-vos a vós mesmos.
 Por isso vos revoltais contra a vida e a terra. No olhar oblíquo do vosso menosprezo transparece uma inveja inconsciente.
 Eu não sigo o vosso caminho, desprezadores do corpo! Vós, para mim não sois pontes que se encaminhem para o Super-homem!”
 Assim falava Zaratustra.

DAS ALEGRIAS E PAIXÕES
 “Irmão, quando possues uma virtude e essa virtude é tua, não a tens em comum com pessoa nenhuma.
 A falar verdade, tu queres chamá-la pelo seu nome e acariciá-la; queres puxar-lhe a orelha e divertir-te com ela.
 E já vês! Tens agora o seu nome em comum com o povo, e tornaste-te povo e rebanho com a tua virtude!
 Farias melhor dizendo: “Coisa inexprimível e sem nome é o que constitui o tormento e a doçura da minha alma, e o que é também a
fome das minhas entranhas”.
 Seja a tua virtude demasiado alta para a familiaridade de denominações; e se necessitas falar dela não te envergonhes de balbuciar.
 Fala e balbucia assim: “Este é o meu bem, o que amo; só assim me agrada inteiramente; só assim é que quero bem!
 Não o quero como mandamento de um Deus, nem como uma lei e uma necessidade humana; não há de ser para mim um guia de terras
superiores e paraísos.
 O que eu amo é uma virtude terrena, que se não relaciona com a sabedoria e o sentir comum.
 Este pássaro, porém, construiu o seu ninho em mim; por isso lhe quero e o estreito ao coração. Agora incuba em mim os seus dourados
ovos”.
 É assim que deves balbuciar e elogiar a tua virtude.
 Dantes tinhas paixões e chamava-lhes males. Agora, porém, só tens as tuas virtudes: nasceram das tuas paixões.
 Puseste nessas paixões o teu objetivo mais elevado; então passaram a ser tuas virtudes e alegrias.
 Fostes da raça dos coléricos, ou dos volutuosos ou dos fanáticos, ou dos vingativos, todas as tuas paixões acabaram por se mudar em

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

virtudes, todos