assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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os teus demônios em anjos.
 Dantes tinhas no teu antro, cães selvagens, mas acabaram por se converter em pássaros e aves canoras.
 Com os teus venenos preparaste o teu bálsamo; ordenhaste a tua vaca de tribulação e agora bebes o saboroso leite dos seus úberes.
 E nenhum mal nasce em ti, a não ser aquele que brota da luta das tuas virtudes.
 Irmão, quando gozas de boa sorte tens uma virtude, e nada mais; assim passas mais ligeiro a ponte. É uma distinção ter muitas
virtudes, mas é sorte bem dura; e não são poucos os que se têm ido matar ao deserto por estarem fartos de ser combatente e campo de
batalha de virtudes.
 Irmão, a guerra e as batalhas são males? Pois são males necessários; a inveja, a desconfiança e a calúnia são necessárias entre as tuas
virtudes.
 Repara como cada uma das virtudes deseja o mais alto que há: quer todo o teu espírito para seu arauto, quer a tua força toda na
cólera, no ódio e no amor.
 Cada virtude é ciosa das outras virtudes, e os ciúmes são uma coisa terrível. Também há virtudes que podem morrer por ciúmes.
 O que anda em redor da chama dos ciúmes, acaba qual escorpião, por voltar contra si mesmo o aguilhão envenenado.
 Ai, meu irmão! Nunca viste uma virtude caluniar-se e aniquilar-se a si mesma?
 O homem precisa ser superado. Por isso necessitas amar as tuas virtudes, porque por elas morrerás”.
 Assim falava Zaratustra.

DO PÁLIDO DELINQÜENTE
 “Vós, juizes e sacrificadores, não quereis matar enquanto a besta não haja inclinado a cabeça? Vede: o pálido delinqüente inclinou a
cabeça; em seus olhos fala o supremo desprezo.
 “O meu Eu deve ser superado: o meu Eu é para mim o grande desprezo do homem”. Assim falam os olhos dele. O seu momento maior
foi aquele em que a si mesmo se julgou. Não deixeis o sublime tornar ai cair na sua baixeza!
 Para aquele que tanto sofre por si, só há salvação na morte rápida.
 O vosso homicídio, oh! juizes! deve ser compaixão, e não vingança. E ao matar, tratai de justificar a própria vida.
 Não vos basta reconciliar-vos com aquele que matais. Seja a vossa tristeza amor ao Super-homem; assim justificais a vossa
supervivência!
 Dizei “inimigo”, “malvado” não; dizei “enfermo” e não “infame”; dizei “insensato” e não “pecador”.
 E tu, vermelho juiz, se dissesses em voz alta o que fizeste já em pensamento, toda gente gritaria: Abaixo essa imundície e esse verme
venenoso!...
 Uma coisa, porém, é o pensamento, outra a ação, outra a imagem da ação. A roda da causalidade não gira entre elas.
 Uma imagem fez empalidecer esse homem pálido. Ele estava à altura do seu ato quando o realizou, mas não suportou a sua imagem
depois de o ter consumado.
 Sempre se viu só, como o autor de um ato. Eu chamo isso loucura; a exceção converteu-se para ele em regra.
 O golpe que deu fascina-lhe a pobre razão: a isso chamo eu a loucura depois do ato.
 Ouvi, Juizes! Ainda há outra loucura: a loucura antes do ato. Ah! não penetrastes profundamente nessa alma.
 O juiz vermelho fala assim: “Por que foi que este criminoso matou? Queria roubar”.
 Mas eu vos digo: a sua alma queria sangue e não o roubo; tinha sede do gozo da faca!
 A sua pobre razão, porém, não compreendia essa loucura e decidiu-o. “Que importa o sangue? — disse ela. — Nem ao menos desejas
roubar ao mesmo tempo? Não te desejas vingar?”
 E atendeu a sua pobre razão, cuja linguagem pesava sobre ele como chumbo; então roubou ao assassinar. Não se queria envergonhar
da sua loucura.
 E agora pesa sobre ele o chumbo do seu crime; mas a sua pobre razão está tão paralisada, tão torpe!...
 Se ao menos pudesse sacudir a cabeça, a sua carga cairia, mas, quem sacudirá esta cabeça?
 Quem é este homem? Um conjunto de enfermidades que, pelo espírito, abrem caminho para fora do mundo, onde querem apanhar a
sua presa.
 Que é este homem? Um magote de serpentes ferozes que se não podem entender; por isso cada qual vai por seu lado procurar presa
pelo mundo.
 Vede este pobre corpo! O que ele sofreu e o que desejou, a alma o interpretou a seu favor; interpretou-o como gozo e desejo
sanguinário do prazer da faca.
 O que enferma agora, vê-se dominado pelo mal, que é mal agora; quer fazer sofrer com o que o faz sofrer; mas houve outros tempos e
outros males e bens.
 Dantes era um mal a dúvida e a vontade própria. Então o enfermo torna-se hereje e bruxa; como hereje e bruxa padecia e fazia padecer.
 Mas isto não quer entrar nos vossos ouvidos; prejudica, dizeis, os vossos bons; mas que me importam a mim os vossos bons?
 Nos vossos bons há muitas coisas que me repugnam, e de certo não é o seu mal.
 Quereria que tivessem uma loucura que os levasse a sucumbir, como esse pálido criminoso.
 Quereria que a sua loucura se chamasse verdade, ou fidelidade, ou justiça; mas têm virtude para viver em mísera conformidade.
 Eu sou um anteparo na margem do rio; aquele que puder prender-me, que o faça. Saiba-se, porém, que não sou vossa muleta”.
 Assim falava Zaratustra.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

LER E ESCREVER

 “De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é
espírito.
 Não é fácil compreender sangue alheio: eu detesto todos os ociosos que lêm.
 O que conhece o leitor já nada faz pelo leitor. Um século de leitores, e o próprio espírito terá mau cheiro.
 Ter toda a gente o direito de aprender a ler é coisa que estropia, não só a letra mas o pensamento.
 Noutro tempo o espírito era Deus; depois fez-se homem; agora fez-se populaça.
 O que escreve em máximas e com sangue não quer ser lido, mas decorado. Nas montanhas, o caminho mais curto é o que medeia de
cimo a cimo; mas para isso é preciso ter pernas altas. Os aforismos devem ser cumieiras, e aqueles a quem se fala devem ser homens altos
e robustos.
 O ar leve e puro, o próximo perigo e o espírito cheio de uma alegre malícia, tudo isto se harmoniza bem.
 Eu quero ver duendes em torno de mim porque sou valoroso. O valor que afugenta os fantasmas cria os seus próprios duendes: o valor
quer rir.
 Eu já não sinto em unísono convosco; essa nuvem que eu vejo abaixo de mim, esse negrume e carregamento de que me rio, é
precisamente a vossa nuvem tempestuosa.
 Vós olhais para cima quando aspirais a vos elevar. Eu, como estou alto, olho para baixo.
 Qual de vós pode estar alto e rir ao mesmo tempo?
 O que escala elevados montes ri-se de todas as tragédias da cena e da vida.
 Valorosos, despreocupados, zombeteiros, violentos, eis como nos quer a sabedoria. É mulher e só lutadores podem amar.
 Vós dizeis-me: “A vida é uma carga pesada”. Mas, para que é esse vosso orgulho pela manhã e essa vossa submissão, à tarde?
 A vida é uma carga pesada; mas não vos mostreis tão contristados. Todos somos jumentos carregados.
 Que parecença temos com o cálice de rosa que treme porque o oprime uma gota de orvalho?
 É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor.
 Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura.
 E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes
assemelhe entre os homens.
 Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.
 Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.
 E quando vi o meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo e solene: era o espírito do pesadelo. Por ele caem todas as coisas.
 Não é com cólera, mas com riso que se mata. Adiante! matemos o espírito do pesadelo!
 Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a voar; por conseguinte não quero que me empurrem para mudar de sítio.