assim falava zaratustra
113 pág.

assim falava zaratustra

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização50 páginas
mesmos.
 Se tivésseis mais fé na vida, não vos entregaríeis tanto ao momento corrente; mas não tendes fundo suficiente para esperar nem tão
pouco para a preguiça.
 Por toda parte ressoa a voz dos que pregam a morte, e a terra está cheia de seres a que é mister pregar a morte.
 Ou “a vida eterna” — que para mim é o mesmo — contanto que se vão depressa”.
 Assim falava Zaratustra.

DA GUERRA E DOS GUERREIROS

 “Não queremos que os nossos inimigos nos tratem com indulgência, nem tão pouco aqueles a quem amamos de coração. Deixai-me,
portanto, dizer-vos a verdade!
 Irmãos na guerra! Amo-vos de todo o coração; eu sou e era vosso semelhante. Também sou vosso inimigo. Deixai-me, portanto, dizer-
vos a verdade!
 Conheço o ódio e a inveja do vosso coração. Não sois bastante grandes para não conhecer o ódio e a inveja. Sede, pois, bastante grandes
para não vos envergonhardes disso!
 E se não podeis ser os santos do conhecimento, sede ao menos os seus guerreiros. Eles são os companheiros e os precursores dessa
entidade.
 Vejo muitos soldados; oxalá possa ver muitos guerreiros. Chama-se “uniforme” o seu traje; não seja, porém, uniforme o que esse traje
oculta!
 Vós deveis ser daqueles cujos olhos procuram sempre um inimigo, o vosso inimigo. Em alguns de vós se descobre o ódio à primeira
vista.
 Vós deveis procurar o vosso inimigo e fazer a vossa guerra, uma guerra por vossos pensamentos. E se o vosso pensamento sucumbe, a
vossa lealdade, contudo, deve cantar vitória.
 Deveis amar a paz como um meio de novas guerras, e mais a curta paz do que a prolongada.
 Não vos aconselho o trabalho, mas a luta. Não vos aconselho a paz, mas a vitória. Seja o vosso trabalho uma luta! Seja vossa paz uma
vitória!
 Não é possível estar calado e permanecer tranqüilo senão quando se têm flechas no arco; a não ser assim questiona-se. Seja a vossa paz
uma vitória!
 Dizeis que a boa causa é a que santifica também a guerra? Eu vos digo: a boa guerra é a que santifica todas as coisas.
 A guerra e o valor têm feito mais coisas grandes do que o amor do próximo. Não foi a vossa piedade mas a vossa bravura que até hoje
salvou os náufragos.
 Que é bom? — perguntais. — Ser valente. Deixai as raparigas dizerem: “Bom é o bonito e o meigo”.
 Chamam-vos gente sem coração; mas o vosso coração é sincero, e a mim agrada-me o pudor da vossa cordialidade. Envergonhai-vos do
vosso fluxo, e os outros se envergonham do seu refluxo.
 Sois feios? Pois bem, meus irmãos; envolvei-vos no sublime, o manto da fealdade.
 Quando a vossa alma cresce, torna-se arrogante, e há maldade na vossa elevação. Conheço-vos.
 Na maldade, o arrogante encontra-se com o fraco, mas não se compreendem. Conheço-vos.
 Só deveis ter inimigos para os odiar, e não para os desprezar. Deveis sentir-vos orgulhosos do vosso inimigo; então os triunfos dele
serão também triunfos vossos.
 A revolta é a nobreza do escravo. Seja a obediência a vossa nobreza. Seja a obediência o vosso próprio mandato!
 Para o verdadeiro homem de guerra soa mais agradavelmente “tu deves” do que “eu quero”. E vós deveis procurar ordenar tudo o que
quiserdes.
 Seja o vosso amor à vida amor às mais elevadas esperanças, e que a vossa mais elevada esperança seja o mais alto pensamento da vida.
 E o vosso mais alto pensamento deveis ouvi-lo de mim, e é este: o homem deve ser superado.
 Vivei assim a vossa vida de obediência e de guerra. Que importa o andamento da vida! Que guerreiro quererá poupar-se?
 Eu não uso de branduras convosco, amo-vos de todo o coração, irmãos na guerra!”
 Assim falava Zaratustra.

DO NOVO ÍDOLO
 “Ainda em algumas partes há povos e rebanhos; mas entre nós, irmãos, entre nós há Estados.
 Estados? Que é isso? Vamos! Abri os ouvidos, porque vos vou falar da morte dos povos.
 Estado chama-se o mais frio dos monstros. Mente também friamente, e eis que mentira rasteira sai da sua boca: “Eu, o Estado, sou o
Povo”.
 É uma mentira! Os que criaram os povos e suspenderam sobre eles uma fé e um amor, esses eram criadores: serviam a vida.

file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/zara.rb/000000-zara.html (16 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Os que armam laços ao maior número e chamam a isso um Estado são destruidores; suspendem sobre si uma espada e mil apetites.
 Onde há ainda povo não se compreende o Estado que é detestado como uma transgressão aos costumes e às leis.
 Eu vos dou este sinal: cada povo fala uma língua do bem e do mal, que o vizinho não compreende. Inventou a sua língua para os seus
costumes e as suas leis.
 Mas o Estado mente em todas as línguas do bem e do mal, e em tudo quanto diz mente, tudo quanto tem roubou-o.
 Tudo nele é falso; morde com dentes roubados. Até as suas entranhas são falsas.
 Uma confusão das línguas do bem e do mal: é este o sinal do Estado. Na Verdade, o que este sinal indica é a vontade da morte; está
chamando os pregadores da morte.
 Vêm ao mundo homens demais, para os supérfluos inventou-se o Estado!
 Vede como ele atrai os supérfluos! Como os engole, como os mastiga e remastiga!
 “Na terra nada há maior do que eu; eu sou o dedo ordenador de Deus” — assim grita o monstro. E não são só os que têm orelhas
compridas e vista curta que caem de joelhos!
 Ai! também em vossas almas grandes murmuram as suas sombrias mentiras! Aí eles advinham os corações ricos que gostam de se
prodigalizar!
 Sim; adivinha-vos a vós também, vencedores do antigo Deus. Saistes rendido do combate, e agora a vossa fadiga ainda serve ao novo
ídolo!
 Ele queria rodear-se de heróis e homens respeitáveis. A este frio monstro agrada-lhe acalentar-se ao sol da pura consciência.
 A vós outros quer ele dar tudo, se adorardes. Assim compra o brilho da vossa virtude e o altivo olhar dos vossos olhos.
 Convosco quer atrair os supérfluos! Sim; inventou com isso uma artimanha infernal, um corcel de morte, ajaezado com adorno
brilhante das honras divinas.
 Inventou para o grande número uma morte que se preza de ser vida, uma servidão à medida do desejo de todos os pregadores da morte.
 O Estado é onde todos bebem veneno, os bons e os maus; onde todos se perdem a si mesmos, os bons e os maus; onde o lento suicídio de
todos se chama “a vida”.
 Vede, pois, esses supérfluos! Roubam as obras dos inventores e os tesouros dos sábios; chamam a civilização ao seu latrocínio, e tudo
para eles são doenças e contratempo.
 Vede, pois, esses supérfluos. Estão sempre doentes; expelem a bilis, e a isso chamam periódicos. Devoram-se e nem sequer se podem
dirigir.
 Vede, pois, esses adquirem riquezas, e fazem-se mais pobres. Querem o poder, esses ineptos, e primeiro de tudo o palanquim do poder:
muito dinheiro!
 Vede trepar esses ágeis macacos! Trepam uns sobre os outros e arrastam-se para o lodo e para o abismo.
 Todos querem abeirar-se do trono; é a sua loucura — como se a felicidade estivesse no trono! — Freqüentemente também o trono está
no lodo.
 Para mim todos eles são doidos e macacos trepadores e buliçosos. O seu ídolo, esse frio monstro, cheira mal; todos eles, esses idólatras,
cheiram mal.
 Meus irmãos, quereis por agora afogar-vos na exalação de suas bocas e de seus apetites? Antes disso, arrancai as janelas e saltai para o
ar livre!
 Evitai o mau cheiro! Afastai-vos da idolatria dos supérfluos.
 Evitai o mau cheiro! Afastai-vos do fumo desses sacrifícios humanos!
 Ainda agora o mundo é livre para as almas grandes. Para os que vivem solitários ou aos pares ainda há muitos sítios vagos onde se
aspira a fragrância dos mares silenciosos.
 Ainda têm franca uma vida livre as almas grandes. Na verdade, quem pouco possui tanto menos é possuído. Bendita seja a nobreza!
 Além onde acaba o Estado começa o homem que não é supérfluo; começa o canto dos que são necessários, a melodia única e