9_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY
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9_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY


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e não empírica e 2) histórica e não-geográfica. Não obstante as observações acauteladas 
do próprio Harvey sobre essas lacunas - principalmente quanto à segunda - é inegável 
que em Marx existem teses gerais, embora dispersas, sobre as relações abstrato/concreto 
e espaço/tempo \u2013 há, inclusive, uma \u201cteoria da localização\u201d que subjaz à discussão 
sobre a renda da terra (renda absoluta, diferencial e monopólica). Por isso mesmo, 
retornando aos escritos marxianos, foi possível a Harvey lançar mão de suas reflexões 
sobre \u201ca produção capitalista do espaço\u201d, desenvolvendo posteriormente o que ele 
propôs como sendo uma \u201cgeografia histórica do capitalismo\u201d. (Harvey, 2005a, p. 43)8. 
Os pontos a ser apresentados aqui - se quisermos ter uma dimensão geral sobre 
teoria da ordenação espaço-temporal - podem ser assim relacionados: (1) a continuidade 
do processo de produção do valor leva a (2) crises de sobreacumulação, exigindo para o 
escoamento do excedente produzido (3) a expansão geográfica, mediante ajustes ou 
deslocamentos espaço-temporais. Toda essa trama é sustentada pelos (4) circuitos do 
capital e seus sistemas territoriais correspondentes que, por fim, apresentam (5) um 
desenvolvimento geográfico desigual. 
 
2.1. Capital, crise e ordenação espaço-temporal 
 
A fórmula \u201cacumulação pela acumulação, produção pela produção\ufffd\ufffd\ufffd, proposta 
por Marx, toca fundo o cerne e expõe a força irracional9 da produção capitalista. Essa 
força, porém, não é uma mera abstração fantasiosa. Absolutamente. Ela surge como 
síntese dialética das ações singulares, viva e cotidianamente experimentadas pelos 
indivíduos sociais. Como diz Marx, 
o capitalista é respeitável apenas enquanto personificação [do capital]. 
Como tal, ele partilha com o avarento a paixão pela riqueza enquanto 
riqueza. No entanto, aquilo que, no avarento, é mera idiossincrasia, é, no 
capitalista, conseqüência do mecanismo social, do qual ele é apenas uma das 
forças propulsoras. (...) e a competição faz cada capitalista sentir as leis 
imanentes da produção capitalista como leis coercitivas externas. (Marx 
apud Harvey, 2005a, p. 44). (grifos meus) 
 No capitalismo, a anarquia da produção e da concorrência dos capitais privados 
põe em movimento um processo de contradições internas que leva freqüentemente à sua 
irrupção na forma de crises, já que nessa \u201cgrande feira que é o mundo\u201d, como diz 
Engels, o equilíbrio entre as forças concorrentes é algo inteiramente acidental. Desta 
 
8 Essa mesma preocupação é exposta por Csaba Deák, registrada aqui memoravelmente como epígrafe. 
9 Em Marx, a irracionalidade do capital ou de uma relação qualquer tem dois sentidos indiretamente 
relacionados: por um lado quer dizer algo cuja origem não se pode conhecer imediatamente (p.ex. a 
irracionalidade do capital fictício) e, por outro, se refere a algo incontrolável e que se realiza como 
negação do que é propriamente humano.