10_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY
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10_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY

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feita, a generalização das trocas campeia vastos territórios e irradia intensiva e

extensivamente a contradição fundamental entre valor de uso e valor de troca; entre

produção e consumo. A unidade dialética que relaciona esses dois momentos se

manifesta concretamente como crises de realização, pois,
se, por exemplo, compra e venda – ou o movimento da metamorfose da
mercadoria – apresenta a unidade de dois processos, ou melhor, o percurso
de um processo através de duas fases opostas, sendo essencialmente,
portanto, a unidade de ambas as fases, igualmente é a separação das
mesmas e sua autonomização uma face à outra. Como elas, então, se co-
pertencem, a autonomização dos movimentos co-pertinentes só pode
aparecer violentamente, como processo destrutivo. É a crise, precisamente,
na qual a unidade se efetua, a unidade dos diferentes. (Marx apud Grespan,
1999).

 A “autonomização dos movimentos co-pertinentes só pode aparecer

violentamente” como “crise (...) na qual a unidade se efetua, a unidade dos diferentes”.

Não obstante a generalidade desse nível de abstração, apresentando a modalidade da

crise ainda no âmbito da circulação simples de mercadorias, a contradição entre compra

e venda reaparece ao nível da acumulação capitalista como a contradição entre produção

(capital produtivo) e circulação (capital comercial, financeiro, renda da terra, etc.) –

fases diferentes e opostas de um mesmo processo: a reprodução ampliada do capital.

 De maneira geral, a acumulação capitalista deve ter satisfeitas três de suas

pressuposições fundamentais: 1) a existência de um excedente de mão-de-obra, ou seja,

um exército industrial de reserva que imprima sobre os trabalhadores empregados uma

pressão para o rebaixamento dos salários; 2) oferta de meios de produção (máquinas,

matérias-primas, infra-estrutura, etc.) para o consumo produtivo do capital e 3) a

existência de mercado para absorver as quantidades crescentes de mercadorias

produzidas. Assim, diz Harvey, “em cada um desses aspectos, o progresso da

acumulação capitalista talvez encontre uma barreira10 que, uma vez atingida,

provavelmente precipitará uma crise de determinada natureza” (2005a, p. 45).

 A crise de superprodução aparece, do lado do capital, como excesso de

mercadorias produzidas, de capital-dinheiro sem aplicação imediata possível ou como

capacidade ociosa das forças produtivas; do lado do trabalho, surgem imensas massas

desempregadas, subutilizadas e com baixos salários. Além disso, falências, taxas

decrescentes de lucro, falta de demanda efetiva, subemprego crônico são fenômenos que

10 Grespan (1999, p. 136) consegue identificar uma diferença sutil entre os significados de “limite”
(Grenzen) e “barreira” (Schranke) presentes no idealismo hegeliano e incorporados por Marx. De maneira
geral, o limite é algo exterior, que deve ser incorporado e ultrapassado continuamente. A barreira “é o
limite posto ao capital pelo próprio capital (...) que ele deve superar (...) e, assim, constituir-se como
capital”. Compreende-se, pois, porque, para Marx, “o capital é o impulso desmedido e sem barreiras de
ultrapassar suas barreiras”. (idem.)