O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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não conhece o perigo no
qual está se lançando". Pode-se aplicar esta reflexão a um Estado despótico, que é um
povo sem tribunos, e a uma monarquia, onde o povo possui, de alguma forma, tribunos.
De fato, vemos em toda parte que nos movimentos do governo despótico o povo, conduzido
por ele mesmo, leve sempre as coisas tão longe quanto possível; todas as desordens que
comete são extremas, ao passo que nas monar; quias as coisas são muito raramente levadas
ao extremo. Os chefes temem por si mesmos; têm medo de ser abandonados; os poderes
intermediários dependentes não querem que o povo leve demais a melhor. É raro que as
ordens do Estado estejam inteiramente corrompidas. O príncipe depende dessas ordens, e os
sediciosos, que não têm nem a vontade nem a esperança de derrubar o Estado, não podem nem
querem derrubar o príncipe.
Nestas circunstâncias, as pessoas que possuem sabedoria e autoridade se intrometem;
temperam-se os ânimos, arrumam-se e corrigem-se as coisas; as leis recuperam seu vigor e
fazem-se ouvir.
Assim, todas as nossas histórias estão cheias de guerras civis sem revoluções; as dos
Estados despóticos estão cheias de revoluções sem guerras civis.
Aqueles que escreveram a história das guerras civis dê alguns Estados, aqueles mesmos que
as fomentaram, provam bem quanto a autoridade que os príncipes deixam à certas ordens
para que o sirvam deve ser-lhes pouco suspeita, já que, em meio à confusão, só choravam
pelas leis e por seu dever e retardavam a fogosidade e a impetuosidade dos facciosos mais
do que poderiam servi-la.
O cardeal de Richelieu, pensando talvez que tinha aviltado por demais as ordens do
Estado, recorre, para sustentá-lo, às virtudes do príncipe e de seus ministros e exige
deles tantas coisas, que em verdade só um anjo pode possuir tanta atenção, tantas luzes,
tanta firmeza, tantos conhecimentos; é difícil vangloriar-se de que, de agora até a
dissolução das monarquias, possam existir tal príncipe e tais ministros.
Assim como os pavos que vivem sob uma boa organização são mais felizes do que aqueles
que, sem regra e sem chefes, vagueiam pelas florestas; assim, também os monarcas que
vivem sob as leis fundamentais de seu Estado são mais felizes do que os principes
despóticos, que não têm nada que possa regrar o coração de seus povos, nem o deles.
CAPÍTULO XII
Continuação do mesmo assunto

Que não se procure magnanimidade nos Estados despóticos; neles, o príncipe não poderia
dar uma grandeza que ele mesmo não possui: nele não há glória.
É nas monarquias que veremos em volta do príncipe os súditos receberem seus raios; é
nelas que todos, possuindo, por assim dizer, um espaço maior, podem exercitar estas
virtudes que dão à alma, não independência, e sim grandeza.

CAPÍTULO XIII
Idéia do despotismo

Quando os selvagens da Luisiana querem ter frutas, cortam a árvore e apanham a fruta. Eis
o governo despótico.

CAPÍTULO XIV
Como as leis são relativas ao princípio do governo despótico

O governo despótico tem como princípio o temor: mas para povos tímidos, ignorantes,
abatidos, não se precisa de muitas leis.

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Tudo deve girar em tomo de duas ou três idéias; portanto, não se precisa de idéias novas.
Quando ensinamos um animal, evitamos fazê-lo mudar de mestre, de lição ou dei jeito;
impressionamos seu cérebro com dois ou três movi mentos e nada mais.
Quando o príncipe está trancado, não pode sair de sul estadia na volúpia sem desconsolar
todos aqueles que nela a mantêm. Eles não podem suportar que sua pessoa e seu poder
passem para outras mãos. Assim, ele raramente faz a guerra pessoalmente, e não ousa
fazê-la através de seus tenentes.
Tal príncipe, acostumado em seu palácio a não encontrar nenhuma resistência, fica
indignada com aquela que se lhe faz de armas na mão; logo, ele é normalmente conduzido
pela cólera ou pela vingança. Aliás, ele não pode ter idéia da verdadeira glória. As
guerras devem pois realizar-se neste caso com toda sua fúria natural, e o direito das
gentes deve ter, neste mesmo caso, menos extensão do que alhures.
Tal príncipe tem tantos defeitos que se deveria temer expor à luz do dia sua estupidez
natural. Ele fica escondido e ignora-se o estado em que se encontra. Felizmente, os
homens deste país são tais que só precisam de um nome que os governe.
Carlos XII, quando estava em Bender, encontrando alguma resistência no senado da Suécia,
escreveu que lhes mandaria uma de suas botas para governar. Esta bota teria governado
como um rei despótico.
Se o príncipe toma-se prisioneiro, é tido como morto, e outro sobe ao trono. Os tratados
que fez o prisioneiro são nulos; seu sucessor não os ratificaria. De fato, como ele é as
leis, o Estado e o príncipe, e tão logo não é mais príncipe não é mais nada, se não fosse
tido como morto, o Estado estaria destruído.
Uma das coisas que mais determinaram os turcos a fazerem sua paz em separado com Pedro I
foi o fato de os moscovitas terem contado ao vizir que na Suécia haviam colocado outro
rei no trono.
A conservação do Estado é apenas a conservação do príncipe, ou melhor, do palácio ande
ele está trancado. Tudo a que não ameaça diretamente este palácio ou a capital não causa
nenhuma impressão em espíritos ignorantes, orgulhosos e preconceituosos; e, quanto ao
desenvolvimento dos acontecimentos, eles não conseguem acampanhá-lo, prevê-lo e até
pensar nele. A política, seus mecanismos e suas leis devem ser limitados neste governo; e
o governo político é ali tão simples quanto o governo civil.
Tudo se reduz a conciliar o governo político e civil com o governo doméstico, os oficiais
do Estado com os do serralho.
Tal Estada estará em sua melhor situaçao quando puder considerar-se o único no mundo;
quando estiver cercado por desertos e separado das povos que chamar de bárbaros. Não
podendo contar com sua milícia, será bom que ele destrua uma parte de si mesmo.
Assim como o princípio do governo despótico é o temor, seu objetivo é a tranqüilidade;
mas não se trata de paz; é o silêncio dessas cidades que o inimigo está prestes a ocupar.
Sendo que a força não se encontra no Estado, mas no exército que o fundou, seria
necessário, para defender o Estado, conservar este exército; mas ele é formidável demais
para o príncipe. Então, como conciliar a segurança do Estado com a segurança de sua
pessoa?
Observem, por favor, com que aplicação o governo moscovita tenta sair da despotismo, que
lhe é mais pesado do que aos próprios povos. Quebraram os grandes corpos das tropas;
diminuíram as penas para os crimes; estabeleceram tribunais; começaram a conhecer as
leis; instruíram os povos. Mas existem causas particulares que o trarão, talvez, de volta
à infelicidade da qual procurava escapar.
Nestes Estados, a religião tem mais influência do que em qualquer outro; é um temor que
se acrescenta ao temor. Nos impérios maometanos, é da religão que os povos retiram em
parte o respeito que têm por seu príncipe.
É a religião que corrige um pouco a constituição turca. Os súditos, que não estão ligados
à glória e à grandeza do Estado pela honra, o estão pela força e pelo princípio da
religião.
De todos os governos despóticos, não há nenhum que se tome mais pesado para si mesmo do
que aquele em que o príncipe se declara proprietário de todos os fundos de terras e o
herdeiro de todos os seus súditos. Resulta disto sempre o abandono do cultivo das terras;
e se, além disto, o príncipe for mercador, toda espécie de indústria estará arruinada.
Nestes Estados não se conserta, não se melhora nada. Só se constroem casas para a vida,
não se fazem fossos, não se plantam árvores; tira-se tudo da terra e não se lhe devolve
nada; tudo está inculto, tudo é deserto.
Vocês pensam que leis que suprimem a propriedade dos fundos de terras e a sucessão dos

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