O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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bens vão diminuir a avareza e a cupidez dos grandes? Não: elas excitarão essa cupidez e
essa avareza. As pessoas serão levadas a fazer mil vexações, porque pensarão que só é
possível possuir o ouro e a prata que se poderão roubar ou esconder.
Para que tudo não esteja perdido, é bom que a avidez do príncipe seja moderada por algum
costume. Assim, na Turquia, o príncipe se contenta normalmente em tomar três por cento
das heranças das pessoas do povo. Mas, como o grão-senhor dá a maior parte das terras à
sua milícia e dispõe delas segundo sua fantasia; como toma todas as heranças dos oficiais
do império; como, quando um homem morre sem filhos homens, o grão-senhor fica com a
propriedade e as filhas só têm seu usufruto, acontece que a maioria dos bens do Estado
são possuídos de forma precária.
Segundo a lei de Bantam, o rei fica com a herança, e até com a mulher, os filhos e a
casa. As pessoas são obrigadas, para escapar da disposição mais cruel desta lei, a casar
as crianças com oito, nove ou dez anos, e às vezes ainda mais jovens, para que não se
encontrem na situação de serem uma parte infeliz da sucessão de seu pai.
Em Estados onde não há leis fundamentais, a sucessão do império não poderia ser fixa. A
coroa é escolhida pelo príncipe, em sua família ou fora de sua família. Em vão se
estabeleceria que o primogênito deve herdar; o príncipe poderia sempre escolher outro. O
sucessor é declarado pelo próprio príncipe, ou por seus ministros, ou por uma guerra
civil. Assim, este Estado possui uma razão de dissolução a mais do que uma monarquia.
Como cada príncipe da família real tem uma igual capacidade para ser eleito, acontece que
aquele que sobe ao trono manda em primeiro lugar estrangular seus irmãos, como na
Turquia; ou manda cegá-los, como na Pérsia; ou os enlouquece, como no Grão-Mogol; ou, se
não tomar estas precauções, como no Marrocos, cada vacância de trono é seguida por uma
horrível guerra civil.
Segundo as constituições de Moscóvia, o czar pode escolher quem quiser como sucessor,
quer em sua família, quer fora dela. Tal estabelecimento de sucessão causa mil revoluções
e toma o trono tão cambaleante quanto a sucessão é arbitrária. Sendo a ordem da sucessão
uma das coisas mais importantes que o povo deve conhecer, a melhor é aquela mais evidente
a seus olhos; como o nascimento e certa ordem de nascimento. Tal disposição acaba com as
intrigas, sufoca a ambição; não se cativa mais o espírito de um príncipe fraco, e não se
faz mais falarem os moribundos.
Quando a sucessão é estabelecida por uma lei fundamental, um só príncipe é o sucessor, e
seus irmãos não possuem nenhum direito real ou aparente de disputar a coroa. Não se pode
presumir ou fazer valer uma vontade particular do pai. Logo, não se trata mais de prender
ou de mandar matar o irmão do rei, assim como qualquer outro súdito.
Mas nos Estados despóticos, onde os irmãos do príncipe são igualmente seus escravos e
seus rivais, a prudência exige que se garanta contra eles, principalmente nos países
maometanos, onde a religião vê na vitória ou no sucesso como que um julgamento de Deus;
de forma que ninguém é soberano de direito, e sim apenas de fato.
A ambição fica bem mais excitada em Estados onde príncipes do sangue percebem que, se não
subirem ao trono, serão presos ou mortos, do que entre nós, onde os príncipes do sangue
gozam de uma condição que, se não satisfaz a ambição, ao menos satisfaz os desejos
moderados.
Os príncipes dos Estados despóticos sempre abusaram do casamento. Eles tomam normalmente
várias mulheres, principalmente na parte do mundo onde o despotismo está, por assim
dizer, naturalizado, que é a Ásia. Eles têm tantos filhos que não podem ter afeição por
eles, nem estes por seus irmãos.
A família reinante se parece com o Estado: é muito fraca, e seu chefe é muito forte;
parece extensa e se reduz a nada. Artaxerxes mandou matar todos os seus filhos por se
terem conjurado contra ele. Não é verossímil que cinqüenta filhos conspirem contra o pai;
e menos ainda que conspirem porque não quis ceder sua concubina ao filho mais velho. É
mais simples pensarmos que houve aí alguma intriga desses serralhos do Oriente; nestes
lugares onde o artifício, a maldade e a esperteza reinam no silêncio, e são encobertos
por uma noite densa; onde um velho príncipe, que se tomou cada dia mais imbecil, é o
primeiro prisioneiro do palácio.
Após tudo o que dissemos, pareceria normal que a natureza humana se levantasse sem cessar
contra o governo despótico. Mas, malgrado o amor dos homens pela liberdade, malgrado seu
ódio pela violência, a maioria dos povos estão a ele submetidos. É fácil de entender.
Para formar um governo moderado, devem-se combinar os poderes, regulálos, temperá-los,
fazê-los agir, dar, por assim dizer, maior peso a um deles, para colocá-lo em condições
de resistir a outro; é uma obra-prima de legislação, que o acaso cria raramente e que

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raramente se deixa à prudência. Um governo despótico, pelo contrário, salta, por assim
dizer, aos olhos; é uniforme por toda parte: como só precisamos de paixões para
estabelecê-lo, todos são bons para isso.
CAPÍTULO XV
Continuação do mesmo assunto

Nos climas quentes, onde reina normalmente o despotismo, as paixões fazem-se sentir mais
cedo e são também mais cedo arrefecidas; o espírito está mais avançado; os perigos da
dissipação dos bens são menores; há menos facilidade de distinguir-se, menos contato
entre os jovens fechados dentro de casa; casa-se mais cedo: pode-se então ser maior mais
cedo do que em nossos climas da Europa. Na Turquia, a maioridade começa aos quinze anos.
A cessão dos bens não pode acontecer. Num governo onde ninguém tem sua riqueza garantida,
empresta-se mais à pessoa do que aos bens.
Ela entra naturalmente nos governos moderados e principalmente nas repúblicas, por causa
da maior confiança que se deve ter na probidade dos cidadãos e da doçura que deve
inspirar uma forma de governo que cada um parece ter dado a si mesmo.
Se, na república romana, os legisladores tivessem estabelecido a cessão dos bens, não se
teria caído em tantas sedições e discórdias civis e não se teriam suportado os perigos
dos males e os riscos dos remédios.
A pobreza e a incerteza das fortunas, nos Estados despóticos, tornam natural a usura;
todos aumentam o preço de seu dinheiro na proporção do risco que existe em emprestá-lo.
Logo, a miséria vem de todos os lugares nestes países infelizes; tudo é suprimido, até o
recurso aos empréstimos.
Vem daí que um mercador não poderia fazer um grande comércio; vivia no dia-a-dia; se
ficasse repleto de mercadorias, perderia mais pelos juros que pagaria do que ganharia
sobre as mercadorias. Assim, as leis sobre o comércio quase não existem; reduzem-se à
simples polícia.
O governo não poderia ser injusto sem ter mãos que praticassem suas injustiças; ora, é
impossível que estas mãos não trabalhem para si mesmas. O peculato é então natural nos
Estados despóticos.
Sendo este crime o crime normal, os confiscos são úteis. Por aí se consola o povo; o
dinheiro que se tira daí é um tributo considerável, que o príncipe levantaria
dificilmente sobre súditos arruinados; não existe mesmo neste país nenhuma família que se
queira conservar.
Nos Estados moderados, é coisa completamente diferente. Os confiscos tomariam incerta a
propriedade dos bens; espoliariam crianças inocentes; destruiriam uma família, quando só
se trata de punir um culpado. Nas repúblicas, fariam o mal de retirar a igualdade que é
sua alma, privando um cidadão do que lhe é necessário fisicamente.
Uma lei romana pretende que só se