O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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confisque em caso de crime de lesa-majestade contra o
chefe supremo. Seria muitas vezes bastante sábio seguir o espírito desta lei e liriiitar
os confiscos a certos crimes. Nos países onde um costume local dispôs bens de raiz, Bodin
diz muito bem que só se poderiam confiscar os bens adquiridos.

CAPÍTULO XVI
Da comunicação do poder

No governo despótico, o poder passa por inteiro para as mãos daquele a quem foi dado. O
vizir é o déspota em pessoa; e cada oficial particular é o vizir. No governo monárquico,
o poder se aplica menos imediatamente; o monarca, quando o exerce, modera-o. Faz tal
distribuição de sua autoridade, que nunca dá uma parte sem que tenha ficado com outra
maior.
Assim, nos Estados monárquicos, os governadores particulares das cidades dependem menos
do governador da província do que do príncipe; da mesma forma, os oficiais particulares
dos corpos militares dependem menos do general do que do príncipe.
Na maioria dos Estados monárquicos, foi sabiamente estabelecido que aqueles que possuem
um comando um pouco extenso não deveriam estar ligados a nenhum corpo de milícia; de
forma que, possuindo o comando apenas pela vontade particular do príncipe, podendo ser
usados ou não, estão de certa fornia no serviço e de certa forma fora dele.
Isto é incompatível com o governo despótico. Pois, se aqueles que não têm um emprego
atual possuíssem no entanto prerrogativas e títulos, existiriam no Estado homens grandes

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por si mesmos, o que iria ferir a natureza deste governo.
Pois, se o governador de uma cidade fosse independente do paxá, seria preciso todos os
dias um mediador para colocá-los de acordo, coisa absurda num governa despótico. E, além
do mais, já que o governador particular podia não obedecer, como o outro poderia
responder por sua província com sua cabeça?
Neste governo, a autoridade não pode ser equilibrada; a do menor dentre os magistrados
não o é mais do que a do déspota. Nos países moderados, a lei é sábia em toda parte e em
toda parte conhecida, e os menores magistrados podem segui-la. Mas no despotismo, onde a
lei não é nada além da vontade do príncipe, ainda que o príncipe fosse sábio, como um
magistrado poderia seguir uma vontade que não conhece? Deve seguir a sua própria.
E mais: sendo que a lei é só o que o príncipe quer, e sendo que o príncipe só pode querer
o que conhece, é preciso que exista uma infinidade de pessoas que queiram por ele e como
ele.
Enfim, sendo que a lei é a vontade momentânea do príncipe, é necessário que os que querem
por ele queiram subitamente como ele.

CAPÍTULO XVII
Dos presentes

É um costume, nos países despóticos, não nos dirigirmos a ninguém acima de nós sem lhe
darmos um presente, nem mesmo os reis. O Grão-Mogol não recebe nenhum pedido de seus
súditos se não tiver recebido deles alguma coisa. Estes príncipes chegam até a corromper
suas próprias mercês.
Assim deve ser num governo onde ninguém é cidadão; num governo convencido da idéia de que
o superior não deve nada ao inferior; num governo onde os homens só sé crêem ligados
pelos castigos que uns exercem sobre os outros; num governo onde existem poucos negócios,
e onde é raro que alguém precise apresentar-se diante de um grande, fazer-lhe pedidos ou
ainda menos queixas.
Numa república, os presentes são coisa detestável, pois a virtude não precisa deles. Numa
monarquia, a honra é um motivo mais forte do que os presentes. Mas no Estado despótico,
onde não há nem honra nem virtude, só se pode estar determinado a agir na esperança das
comodidades da vida.
Nas idéias da república, Platão queria que aqueles que recebessem presentes para cumprir
seu dever fossem punidos com a morte: "Não se devem receber presentes", diz ele, "nem
para as boas coisas, nem para as más."
Era uma lei ruim a lei romana que permitia que os magistrados recebessem pequenos
presentes, contanto que não ultrapassassem cem escudos no ano inteiro. Aqueles para quem
nada se dá não desejam nada; aqueles para quem se dá um pouco logo desejarão um pouco
mais e, em seguida, muito. Aliás, é mais fácil incriminar aquele que, não devendo receber
nada, recebeu algo do que aquele que recebeu. mais quando deveria receber menos, que
encontra sempre, pretextos, desculpas, causas e razões plausíveis.

CAPÍTULO XVIII
Das recompensas que o soberano dá

Nos governos despóticos onde, como dissemos, só se é determinado a agir pela esperança
das comodidades da vida, o príncipe que recompensa só pode dar dinheiro. Numa monarquia,
onde a honra reina só, o príncipe só recompensaria com distinções, se as distinções que a
honra estabelece não estivessem acompanhadas por um luxo que provoca obrigatoriamente
necessidades: assim, o príncipe recompensa com honrasi que levam à riqueza. Mas numa
república onde reina a vitude, motivo que é suficiente e exclui todos os outros, o
Estado, só recompensa com os testemunhos desta virtude.
É regra geral que as grandes recompensas numa monarquia e numa república são um sinal de
sua decadência, porque provam que seus princípios estão corrompidos; pois, de, um lado, a
idéia de honra não tem mais tanta força; de outro, a qualidade dos cidadãos diminuiu.
Os piores imperadores romanos foram os que mais presentearam: por exemplo, Calígula,
Cláudio, Nero, Otão, Vitélio, Cômodo, Heliogábalo e Caracala. Os melhores, como Augusto,
Vespasiano, Antonino Pio, Marco Aurélio e Pertinax, foram econômicos. Sob os bons
imperadores, o Estado retomava seus princípios; o tesouro da honra substituía os outros

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tesouros.

CAPÍTULO XIX
Novas conseqüências dos princípios dos três governos

Não posso terminar este livro sem fazer ainda algo aplicações de meus três princípios.
PRIMEIRA QUESTÃO. Devem as leis forçar um cidadão aceitar os empregos públicos? Digo que
devem no governo republicano e não no monárquico. No primeiro, as magistraturas são
testemunho de virtude, depósitos que a pátria confia a um cidadão, que só deve viver,
agir e pensar para ela; logo, ele não pode recusá-los. No segundo, as magistraturas são
testemunhos de honra; ora, é tal a esquisitice da honra, que lhe agrada só aceitar o
emprego que bem entender e como bem entender.
O falecido rei da Sardenha punia aqueles que recusavam as dignidades e os empregos de seu
Estado; seguia, sem saber, idéias republicanas. Seu modo de governar, no entanto, prova
bem que esta não era sua intenção.
SEGUNDA QUESTÃO. Trata-se de uma boa máxima esta que diz que um cidadão pode ser obrigado
a aceitar, no exército, um lugar inferior àquele que ocupou? Via-se muitas vezes, entre
os romanos, o capitão servir no ano seguinte sob seu tenente. É que nas repúblicas a
virtude exige que façamos ao Estado um sacrifício contínuo de nós mesmos e de nossas
repugnâncias. Mas nas monarquias a honra, verdadeira ou falsa, não pode tolerar o que
chamaria de degradação.
Nos governos despóticos, onde se abusa igualmente da honra, dos postos e das hierarquias,
faz-se indiferentemente de um príncipe um grosseirão, e de um grosseirão um príncipe.
TERCEIRA QUESTÃO. Dar-se-ão a uma mesma pessoa os empregos civis e militares? Eles devem
ser unidos na república e separados na monarquia. Nas repúblicas, seria muito perigoso
fazer da profissão das armas um estado particular, distinto daquele que têm as funções
civis; e, nas monarquias, não haveria menor perigo em dar duas funções à mesma pessoa.
Pega-se em armas, na república, somente na qualidade de defensor das leis e da pátria; é
por ser cidadão que um homem se toma, por certo tempo, soldado. Se existissem dois
estados distintos, far-se-ia sentir àquele que