O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu


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no exército pensa que é cidadão que não
passa de um soldado.
Nas monarquias, os militares só têm como objetivo a glória, ou pelo menos a honra ou a
riqueza. Deve-se evitar dar empregos civis a tais homens; é preciso, pelo contrário, que
sejam contidos pelos magistrados civis e que as mesmas pessoas não tenham ao mesmo tempo
a confiança do povo e a força para dele abusar.
Reparem, numa nação onde a república se esconde sob a formada monarquia, quanto se teme
um estado particular dos militares e como o guerreiro permanece sempre sendo cidadão, ou
até magistrado, para que estas qualidades sejam um compromisso com a pátria e que nunca
se esqueçam dela.
Esta divisão das magistraturas entre civis e militares, feita pelos romanos após o fim da
república, não foi arbitrária. Foi uma conseqüência da mudança da constituição em Roma;
ela era da,natureza do governo monárquico, e o que havia sido apenas iniciado com Augusto
os imperadores seguintes foram obrigados a concluir para moderar o governo militar.
Assim Procópio, concorrente de Valêncio ao império, não sabia o que estava fazendo
quando, dando a Hormísda, príncipe de sangue real da Pérsia, a dignidade de procônsul,
devolveu a esta magistratura o comando dos exércitos que ela outrora tivera, a não ser
que tivesse razões particulares para isso. Um homem que aspira ao trono procura fazer
menos o que é útil pára o Estado do que o que o é para sua causa.
QUARTA QUESTÃO. É conveniente que os cargos sejam venais? Não devem sê-lo nos Estados
despóticos, onde é preciso que os súditos sejam colocados ou retirados num instante pelo
príncipe.
Essa venalidade é boa nos Estados monárquicos, porque faz que se faça, como uma profissão
de família, o que não sé faria em nome da virtude; porque destina cada um a seu dever e
tora as ordens do Estado mais permanentes. Suídas diz muito bem que Anastácio havia feito
do império uma espécie de aristocracia, vendendo todas as magistraturas.
Platão não suporta essa venalidade. "É como se", diz ele, "num navio, alguém se tornasse
piloto ou marinheiro por seu dinheiro. Será possível que a regra seja ruim em qualquer
outro trabalho que exista na vida e só seja boa para dirigir uma república?" Mas Platão
fala de uma república baseada na virtude, e nós falamos de uma monarquia. Ora, numa
monarquia onde, ainda que os cargos não fossem vendidos segundo um regulamento público, a
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indigência e a avidez dos cortesãos os venderiam de qualquer forma, o acaso formará
melhores súditos do que a escolha do príncipe. Por fim, a maneira de progredir pelas
riquezas inspira e mantém a indústria, coisa de que este tipo de governo precisa
bastante.
QUINTA QUESTÃO. Em que governo se precisa de censores? São necessários numa república,
onde o princípio do governo é a virtude. Não são apenas os crimes que destroem a virtude,
mas também as negligências, as faltas, certa indolência no amor à pátria, exemplos
perigosos, sementes de corrupção, o que não fere as leis, mas as desvia, o que não as
destrói, mas enfraquece: tudo isso deve ser punido pelos censores.
Ficamos espantados com a punição daquele areopagita que havia matado um pardal que,
perseguido por uma ave de rapina, se refugiara em seu seio. Ficamos surpresos ao saber
que o Areópago tenha mandado matar uma criança que havia furado os olhos de seu pássaro.
Prestemos atenção, pois não se trata de uma condenação por um crime, e sim de um
julgamento de costumes numa república baseada nos costumes.
Nas monarquias, os censores não são necessários; elas estão baseadas na honra, e a
natureza da honra é ter como censor todo o universo. Todo homem que falta contra a honra
está submetido às recriminações até mesmo daqueles que não a possuem de forma nenhuma.
Aí, os censores seriam mimados por aqueles que eles deveriam punir. Não seriam bons
contra a corrupção de uma monarquia, mas a corrupção de uma monarquia seria forte demais
contra eles.
Percebemos claramente que os censores não são necessários nos governos despóticos. O
exemplo da China parece derrogar esta regra, mas veremos, na continuação desta obra, as
razões singulares desta afirmação.
LIVRO SEXTO
Conseqüências dos princípios dos diversos governos em relação à simplicidade das leis
civis e criminais, à forma dos julgamentos e ao estabelecimento das penas
CAPÍTULO I
Da simplicidade das leis civis nos diversos governos
O governo monárquico não comporta leis tão simples quanto o governo despótico. Nele, os
tribunais são necessários. Estes tribunais tomam decisões; estas devem ser conservadas;
devem ser aprendidas, para que se julgue hoje da mesma maneira como se julgou ontem e a
propriedade e a vida dos cidadãos sejam garantidas e fixas como a própria constituição do
Estado.
Numa monarquia, a administração de uma justiça que não decide apenas sobre a vida e os
bens, mas também sobre a honra, requer pesquisas escrupulosas. A delicadeza do juiz
aumenta à medida que possuí um maior depósito e se pronuncia sobre maiores interesses.
Não devemos espantar-nos se encontrarmos nas leis destes Estados tantas regras,
restrições, extensões, que multiplicam os casos particulares e parecem fazer da própria
razão uma arte.
A diferença de nível, de origem, de condição que está estabelecida no governo monárquico
leva muitas vezes a distinções na natureza dos bens; e leis relativas à constituição
deste Estado podem aumentar o número destas distinções. Assim, para nós, os bens podem
ser próprios, adquiridos ou conquistados; dotais, parafernais; paternos e maternos;
móveis de várias espécies; livres, substituídos; de linhagem ou não; nobres em alódio ou
não-nobres; rendas fundiárias ou constituídas por dinheiro. Cada tipo de bem está
submetido a regras particulares; elas devem ser seguidas para sobre elas decidir: o que
afasta ainda mais a simplicidade.
Em nossos governos, os feudos tomaram-se hereditários. Foi preciso que a Nobreza
possuísse algum bem, isto é, que o feudo possuísse alguma consistência, para que o
proprietário do feudo estivesse em condições de servir ao príncipe. Tal coisa deve ter
produzido muitas variedades: por exemplo, existem lugares onde não se puderam dividir os
feudos entre os irmãos; em outros, os irmãos mais novos puderam ter uma subsistência
melhor.
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O monarca, que conhece cada uma de suas províncias, pode estabelecer diversas leis, ou
suportar diferentes costumes. Mas o déspota não conhece nada e não pode atentar para
nada; ele precisa de uma postura geral; governa com uma vontade rígida que é a mesma em
todo lugar; tudo se aplaina aos seus pés.
À medida que os julgamentos dos tribunais se multiplicam nas monarquias, a jurisprudência
toma decisões que às vezes são contraditórias, porque os juízes que se sucedem pensam de
maneira diferente, ou porque as mesmas causas são bem ou mal defendidas; ou enfim por uma
infinidade de abusos que se infiltram em tudo o que passa pelas mãos dos homens. É um mal
necessário que o legislador corrige de vez em quando, como contrário até mesmo ao
espírito dos governos moderados. Pois, quando somos obrigados a recorrer aos tribunais,
isto deve vir da natureza da constituição e não das contradições e da incerteza das leis.
Nos governos em que existem necessariamente distinções entre as pessoas, é preciso que
existam privilégios. Isto diminui mais ainda a simplicidade e cria mil exceções.
Um dos privilégios que menos onera a sociedade e principalmente quem o dá é o privilégio
de defender uma cáusa em tal tribunal e não em tal outro. Eis novas questões: isto é,
aquelas em que se trata de saber diante de que tribunal