O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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de sua alçada, à segurança dos particulares.
Segundo esta idéia, os legisladores de Roma fizeram duas coisas: permitiram aos acusados
exilarem-se antes do julgamento e quiseram que os bens dos condenados fossem consagrados,
para que o povo não conseguisse seu confisco. Veremos no livro XI outros limites que
foram colocados ao poder de julgar que o povo tinha.
Sólon soube corretamente prevenir o abuso que o povo poderia fazer de seu poder no
julgamento dos crimes: quis que o Areópago revisse o processo; que se ele achasse que o
acusado tivesse sido injustamente absolvido o acusasse novamente diante do povo; que, se
achasse que ele tivesse sido injustamente condenado, suspendesse a execução e fizesse o
povo julgar novamente a questão: lei admirável, que submetia o povo à censura da
magistratura que ele mais respeitava, e à sua própria!
É bom colocar alguma lentidão em tais assuntos, principalmente a partir do momento em que
o acusado estiver preso, para que o povo possa acalmar-se e julgar com sangue-frio.
Nos Estados despóticos, o próprio príncipe pode julgar. Não o pode nas monarquias: a
constituição seria destruída, os poderes intermediários dependentes varridos: ver-se-ia o
fim de todas as formalidades dos julgamentos; o temor tomaria todos os espíritos;
ver-se-ia a palidez em todos os rostos; não mais confiança, não mais honra, não mais
amor, não mais segurança, não mais monarquia.
Eis aqui, outras reflexões. Nos Estados monárquicos, o príncipe é a parte que persegue os
acusados e faz com que sejam castigados ou absolvidos; se ele próprio julgasse, seria
juiz e parte.
Nestes mesmos Estados, o príncipe possui muitas vezes os confiscos: se ele julgasse os
crimes, seria mais uma vez juiz e parte.
Além do mais, perderia o mais belo atributo de sua soberania, que é o de agradar; seria
insensato que ele fizesse e desfizesse seus julgamentos; ele não ia querer estar em
contradição consigo mesmo. Ademais, isto confundiria todas as idéias; não se saberia se
um homem seria absolvido ou se receberia sua graça.
Quando Luís XIII quis ser juiz no processo do duque de la Valette, e para tanto chamou a
seu gabinete alguns oficiais do parlamento e alguns conselheiros de Estado, como o rei os
forçara a opinar sobre o decreto de detenção, o presidente de Bellièvre disse: "Que via
neste caso uma coisa estranha, um príncipe que opinava no processo de um de seus súditos;
que os reis só haviam reservado para si os indultos e delegavam as condenações a seus
oficiais. E Vossa Majestade gostaria de ver sobre o banco dos réus um homem, em Sua
frente, que, devido a seu julgamento, iria dali a uma hora para a morte! Que a face do
príncipe, que traz os indultos, não pode suportar isto; que só a sua visão levantava os
interditos das igrejas; que só se devia sair satisfeito da frente do príncipe." Quando o
caso foi julgado, o mesmo presidente disse em seu parecer: "Este é um julgamento sem
exemplo, até mesmo contra todos os exemplos do passado até hoje, que um rei de França
tenha condenado, na qualidade de juiz, por seu veredicto, um fidalgo à morte."
Os julgamentos feitos pelo príncipe seriam fonte inesgotável de injustiças e de abusos;
os cortesãos iriam extorquir, com suas importunidades, seus julgamentos. Alguns
imperadores romanos foram tomados pelo furor de julgar; nenhum reinado espantou mais o
universo com suas injustiças.
"Cláudio", diz Tácito, "tendo tomado para si o julgamento dos assuntos e das funções dos
magistrados, deu oportunidades a toda espécie de rapina." Assim Nero, que chegou ao
império depois de Cláudio, querendo conciliar os espíritos, declarou: "Que ele evitava
com cuidado ser o juiz de todas as causas, para que os acusadores e os acusados, dentro
dos muros de um palácio, não ficassem expostos ao infame poder de alguns libertos."
"Sob o reinado de Arcádio", conta Zózimo, "a nação dos caluniadores se expandiu, cercou a
corte e a infectou. Quando um homem morna, se supunha que ele não havia deixado filhos;
doavam-se seus bens com um rescrito. Pois, como o príncipe era estranhamente estúpido e a
imperatriz empreendedora em excesso, ela servia à avareza insaciável de seus empregados e
de suas confidentes; de sorte que, para as pessoas moderadas, não havia nada de tão
desejável quanto a morte."
"Havia outrora", conta Procópio, "muito pouca gente na cofie; mas, sob Justiniano, como
os juízes não tinham mais liberdade de fazer a justiça, seus tribunais estavam desertos,

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enquanto no palácio do príncipe ressoavam os clamores das partes que lá solicitavam suas
causas." Todos sabem como ali se vendiam os julgamentos e até as leis.
As leis são os olhos do príncipe; ele vê através delas o que não poderia ver sem elas.
Deseja ele fazer a função dos tribunais? Então ele trabalha não por si, mas por seus
sedutores contra si.

CAPÍTULO VI
Na monarquia, os ministros não devem julgar

Outro grande inconveniente, na monarquia, é que os ministras do príncipe julguem eles
mesmos as contendas. Vemos ainda hoje Estados onde existem inúmeros juízes para decidirem
sobre os assuntos fiscais e onde os ministros, quem diria!, também querem julgá-los. As
reflexões vêm aos montes; só colocarei a seguinte.
Existe, pela natureza das coisas, uma espécie de contradição entre o Conselho do monarca
e seus tribunais. O Conselho dos reis deve ser composto por poucas pessoas, e os
tribunais de judicatura precisam de muitas. A razão disto é que, no primeiro, devem-se
tomar os assuntos com alguma paixão e segui-los desta mesma maneira; o que só se pode
esperar de quatro ou cinco homens que fazem disto seu trabalho. Pelo contrário,
precisa-se de tribunais de judicatura com sangue-frio, para os quais todas as causas
sejam de certa forma indiferentes.

CAPÍTULO VII
Do magistrado único

Tal magistrado só pode aparecer no governo despótico. Vemos, na história romana, até que
ponto um juiz único pode abusar de seu poder. Como Appius, em seu tribunal, não teria
desprezado as leis, já que violou até aquela que ele mesmo havia elaborado? Tito Lívio
conta-nos a iníqua distinção do decênviro. Ele havia encarregado um homem de lhe pedir
Virgínia como sua escrava; os pais de Virgínia pediram-lhe que, em nome de sua lei, a
deixasse com eles até o julgamento definitivo. Ele declarou que a lei só havia sido
elaborada em favor do pai e, estando Virgínius ausente, ela não poderia ser aplicada.

CAPÍTULO VIII
Das acusações nos diversos governos

Em Roma, era permitido que um cidadão acusasse outro. Isto fora estabelecido segundo o
espírito da república, onde cada cidadão deve ter um zelo sem limites pelo bem público;
onde se supõe que cada cidadão carrega todos os direitos da pátria em suas mãos.
Seguiram-se, sob os imperadores, as máximas da república, e, no início, viram surgir um
tipo de homens funestos, um bando de delatores. Qualquer um que possuísse muitos vícios e
muitos talentos; uma alma bem baixa e um espírito ambicioso procurava um criminoso, cuja
condenação pudesse agradar ao príncipe; era o caminho para chegar às honrarias e à
fortuna, coisa que não temos entre nós.
Possuímos hoje uma lei admirável: é esta que determina que o príncipe, estabelecido para
fazer executar as leis, coloque um oficial em cada tribunal, para perseguir, em seu nome,
todos os crimes: de sorte que a função dos delatores não é conhecida entre nós e, se este
vingador público fosse suspeito de abusar de seu ministério, obrigá-lo-íamos a nomear seu
denunciante.
Nas leis de Platão, aqueles que deixam de avisar os magistrados ou de prestar-lhes
auxilio devem ser punidos. Isto não seria conveniente hoje. A parte pública vela pelos
cidadãos; ela age e eles ficam tranqüilos.

CAPÍTULO IX
Da severidade das penas nos diversos governos

A severidade das penas é mais conveniente