O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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ao governo despótico, cujo princípio é o
terror, do que à monarquia ou à república, que têm como motor a honra e a virtude.

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Nos Estados moderados, o, amor à pátria, a vergonha e o temor da reprovação são motivos
repressivos, que podem acabar com muitos crimes. A maior pena por uma má ação será a de
ser condenado por ela. As leis civis corrigirão estas más ações mais facilmente e não
terão necessidade de tanta força.
Nesses Estados, um bom legislador estará menos atento em punir os crimes do que em
preveni-los; estará mais aplicado em morigerar do que em infligir suplícios.
Trata-se de uma constatação perpétua dos autores chineses que, em seu império, quanto
mais se via aumentarem os suplícios, mais a revolução estava próxima. É que os suplícios
eram aumentados à medida que se faltava contra os costumes.
Seria fácil provar que, em todos ou quase todos os Estados da Europa, as penas diminuíram
ou aumentaram à medida que estes se aproximavam ou se afastavam da liberdade.
Nos países despóticos, os homens são tão infelizes que temem mais a morte do que lamentam
a perda da vida; assim, os suplícios devem ser ali mais rigorosos. Nos Estados moderados,
teme-se mais perder a vida do que se receia a morte em si mesma; os suplícios que
simplesmente suprimem a vida são, portanto, suficientes.
Os homens extremamente felizes e os homens extremamente infelizes são igualmente
propensos à dureza; prova disso são os monges e os conquistadores. Só a mediocridade e a
mistura da boa e da má fortuna propiciam a doçura e a piedade.
O que se vê nos homens em particular encontra-se nas diversas nações. Nos povos
selvagens, que levam uma vida muito dura, e nos povos dos governos despóticos, onde só
há um homem exorbitantemente favorecido, pela fortuna, enquanto todo o resto é dela
privado, as pessoas são igualmente cruéis. A mansuetude reina nos governos moderados.
Quando lemos nas histórias os exemplos da justiça atroz dos sultões, percebemos, com
alguma dor, os males da natureza humana.
Nos governos moderados, para um bom legislador tudo pode servir como castigo. Não é
bastante extraordinário que em Espana uma das penas principais tenha sido a de não poder
emprestar sua mulher a outro, nem receber a mulher de outro, e só ficar em sua casa com
virgens? Em uma palavra, tudo a que a lei chama castigo é efetivamente um castigo.

CAPÍTULO X
Das antigas leis francesas

É realmente nas antigas leis francesas que encontramos o espírito da monarquia. Nos casos
em que se trata de penas pecuniárias, os não nobres são menos castigados do que os
nobres. É o contrário nos crimes; o nobre perde a honra e o direito de opinar num
tribunal, enquanto que o vilão, que não possui honra, é punido em seu corpo.

CAPÍTULO XI
Quando um povo é virtuoso, precisa de poucas penas

O povo romano tinha probidade. Esta probidade teve tanta força, que muitas vezes o
legislador só precisou mostrar-lhe o bem para fazê-lo seguir. Parecia que no lugar de
ordens era suficiente dar-lhe conselhos.
As penas das leis reais e das leis das Doze Tábuas foram quase todas abolidas na
república, quer em conseqüência da lei Valeriana, quer em conseqüência da lei Pórcia. Não
repararam que a república tivesse ficado mais mal ordenada ou que tivesse resultado
daquilo alguma lesão da ordem.
Essa lei Valeriam, que proibia aos magistrados qualquer via de fato contra um cidadão que
havia apelado para o povo, só infligia àquele que a infringisse a pena de ser conhecido
como mau.

CAPÍTULO XII
Do poder das penas

A experiência demonstrou que nos países onde as penas são suaves o espírito do cidadão é
marcado por elas, como o é, em outros lugares, pelas grandes. Surge algum inconveniente
num Estado: um governo violento quer imediatamente corrigi-lo e, em vez de pensar em

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mandar executar as antigas leis, estabelece uma pena cruel que acaba com o mal no
instánte. Mas os mecanismos do governo se desgastam: a imaginação acostuma-se com esta
grande penalidade, assim como se tinha acostumado com a menor; e, como se diminuiu o
temor por esta, é-se forçado a estabelecer a outra para todos os casos. Os roubos nas
estradas eram comuns em alguns Estados; quiseram acabar com eles; inventaram o suplício
da roda, que os suspendeu por algum tempo. A partir daí, se roubou como antes nas
estradas.
Nos nossos dias, a deserção foi muito freqüente; estabeleceram a pena de morte contra os
desertores, e a deserção não diminuiu. A razão disto é muito natural: um soldado,
acostumado a expor sua vida todos os dias, despreza, ou vangloria-se de desprezar, o
perigo. Ele foi acostumado a temer todos os dias a vergonha: era, então, necessário criar
uma pena que o fizesse trazer uma ferida pelo resto da vida. Pensaram que estavam
aumentando a pena, na realidade ela foi diminuída.
Não se devem conduzir os homens pelas vias extremas: devem-se proteger os meios que a
natureza nos dá para conduzi-los. Examinemos a causa de todos os relaxamentos e veremos
que eles vêm da impunidade dos crimes e não da moderação das penas.
Sigamos a natureza, que deu aos homens a vergonha como flagelo, e seja a maior pare da
pena a infâmia de sofrê-la.
Pois, se se encontram países onde a vergonha, não é uma conseqüência do suplicio, isto
decorre da tirania, que infligiu as mesmas penas aos celerados e às pessoas de bem.
E se se virem outros países onde os homens só se retêm com suplícios cruéis, estejam
certos mais uma vez de que isto provém em grande pane da violência do governo, que usou
esses suplícios contra faltas leves.
Muitas vezes, um legislador que quer corrigir um mal só pensa nessa correção; seus olhos
estão abertos para esse objetivo e fechados para os inconvenientes. Uma vez corrigido o
mal, não se percebe mais a dureza do legislador, mas fica um vício no Estado, que esta
dureza produziu; os espíritos estão corrompidos, acostumaram-se com o despotismo.
Tendo Lisandro vencido os atenienses, julgaram os prisioneiros; os atenienses foram
acusados de terem lançado ao mar todos os seus cativos de duas galeras e de terem
resolvido, em plena assembléia, cortar o pulso dos prisioneiros que fariam. Foram todos
degolados, exceto Adimanto, que se tinha oposto a este decreto. Lisandro acusou Filócles,
antes de matá-lo, de ter depravado os espíritos e dado lições de crueldade a toda a
Grécia.
"Tendo os argivos", conta Plutarco, "mandado matar mil e quinhentos de seus cidadãos, os
atenienses encomendaram os sacríficios de expiação, para que os deuses tirassem do
coração dos atenienses tal pensamento."
Existem dois gêneros de corrupção: uiva, quando o povo não respeita as leis; outra,
quando é corrompido pelas leis; mal incurável este, pois está no próprio remédio.

CAPÍTULO XIII
Impotência das leis japonesas

As penas exageradas podem corromper até o próprio despotismo. Vamos dar uma olhada no
Japão.
Punem-se com a morte quase todos os crimes, porque a desobediência a um imperador tão
grande quanto o do Japão é um crime enorme. Não se trata de corrigir o culpado, e sim de
vingar o príncipe. Estas idéias são tiradas da servidão, e provêm principalmente do fato
de que, como o imperador é proprietário de todos os bens, quase todos os mimes são feitos
diretamente contra seus interesses.
Punem-se com a morte as mentiras que são ditas aos magistrados, coisa contrária à defesa
natural.
O que não tem aparência de crime é severamente punido; por exemplo, um homem que arrisca
dinheiro no jogo é punido com a morte.
É verdade que o caráter surpreendente deste povo teimoso, caprichoso, determinado,
estranho, que enfrenta todos os