O espírito das leis Montesquieu
315 pág.

O espírito das leis Montesquieu

Disciplina:Teoria do Estado226 materiais10.592 seguidores
Pré-visualização50 páginas
perigos e todas as desgraças parece, à primeira vista,
absolver seus legisladores da atrocidade de suas leis. Mas pessoas que desprezam
naturalmente a morte e rasgam seu ventre pela menor fantasia serão corrigidas ou detidas
pela visão contínua dos suplícios? E será que não ficam familiarizadas?
Os relatos contam-nos, sobre a educação dos japoneses, que se devem tratar as crianças
com doçura, porque elas teimam contra as penas; que os escravos não devem ser tratados

file:////Lenin/Rede Local/Equipe/Michele/MONTESQUIEU - O Espírito das Leis2.txt

file:////Lenin/Rede Local/Equipe/Michele/MONTESQUIEU - O Espírito das Leis2.txt (42 of 315) [5/6/2001 15:03:20]

rudemente demais, porque se colocam primeiramente na defensiva. Pelo espírito que deve
reinar no governo doméstico, não poderíamos julgar aquele que se deve ter no governo
político e civil?
Um legislador sábio teria procurado conciliar os espíritos com uma justa medida entre
punições e recompensas; com máximas de filosofia e de moral condizentes com estes
caracteres; com a aplicação justa das regras da honra; com o suplício da vergonha; com o
gozo de uma felicidade constante e uma doce tranqüilidade; e, se temesse que os
espíritos, acostumados a só serem refreados com uma pena cruel, não pudessem sê-lo com
uma mais suave, teria agidos de um modo surdo e insensível; teria, nos casos particulares
mais agraciáveis, moderado a pena do crime, até que pudesse chegar a modificá-la em todos
os casos.
Mas o despotismo não conhece estes recursos, não caminha por estas vias. Pode abusar de
si, mas é tudo o que pode fazer. No Japão, fez um esforço e se tornou mais cruel do que
ele mesmo.
As almas, em todo lugar assustadas e tornadas mais atrozes, só puderam ser conduzidas por
uma maior atrocidade.
Eis a origem, eis o espírito das leis no Japão. Mas elas tiveram mais furor do que força.
Conseguiram destruir o cristianismo, mas tão inauditos esforços são prova de impotência.
Quiseram estabelecer uma boa ordem, e sua fraqueza apareceu ainda mais.
Deve-se ler a narrativa do encontro entre o imperador e o dairo em Meaco. A quantidade
daqueles que lá foram sufocados ou mortos por vagabundos foi incrível; raptaram moças e
rapazes; estes foram encontrados todos os dias, completamente nus, em horas indevidas;
costurados em sacos de pano, para que não reconhecessem os lugares pelos quais tinham
passado; roubaram tudo o que quiseram; cortaram os ventres dos cavalos para derrubar
aqueles que os montavam; tombaram carros para roubar as damas. Os holandeses, a quem
disseram que eles não podiam passar as noites sobre os patíbulos sem serem assassinados,
deles desceram, etc.
Passarei rapidamente por outro acontecimento. O imperador, dado a prazeres infames, não
se casava: corria o risco de morrer sem sucessor. O loiro enviou-lhe duas moças muito
bonitas: casou-se com uma delas por respeito, mas não teve nenhuma relação com ela. Sua
ama mandou buscar as mais belas mulheres do império; tudo era inútil; a filha de um
armeiro despertou seu gosto; decidiu-se, teve um filho com ela. As damas da corte,
indignadas por ele ter preferido uma pessoa de tão baixa extração, sufocaram a criança.
Este crime foi escondido do imperador, pois ele teria vertido rios de sangue. Logo, a
atrocidade das leis impede sua execução. Quando a pena não tem medida, somos muitas vezes
obrigados a preferir a impunidade.

CAPÍTULO XIV
Do espírito do senado de Roma

Sob o consulado de Acilius Glabrio e de Pisão, foi decretada a lei Acilia para acabar com
as intrigas. Dion conta que o senado levou os cônsules a propô-la, porque o tribuno C.
Comelius tinha resolvido decretar penas terríveis contra esse crime, coisa pela qual o
povo estava inclinado. O senado pensava que penas imoderadas causariam muito terror nos
espíritos, mas teriam o efeito de que não se encontraria mais ninguém para acusar ou
condenar; ao invés disso, propondo penas módicas, teriam juízes e acusadores.

CAPÍTULO XV
Das leis dos romanos sobre as penas

Sinto-me seguro em minhas máximas quando tenho comigo os romanos, e creio que as penas
estão relacionadas com a natureza do governo, quando vejo que esse grande povo trocava, a
este respeito, de leis civis à medida que ia trocando de leis políticas.
As leis reais, feitas para um povo composto por fugitivos, escravos e bandidos, foram
muito severas. O espírito da república teria exigido que os decênviros não tivessem
incluído essas leis em suas Doze Tábuas, mas pessoas que aspiravam à tirania não se
preocupavam com seguir o espírito da república.
Tito Lívio disse, sobre o suplicio de Metius Suffetius, ditador de Alba, que foi
condenado por Tullus Hostilius a ser puxado por duas carroças, que este tinha sido o

file:////Lenin/Rede Local/Equipe/Michele/MONTESQUIEU - O Espírito das Leis2.txt

file:////Lenin/Rede Local/Equipe/Michele/MONTESQUIEU - O Espírito das Leis2.txt (43 of 315) [5/6/2001 15:03:20]

primeiro e último suplício onde se testemunhou que haviam perdido a lembrança da
humanidade. Ele está errado; a lei das Doze Tábuas está cheia de disposições muito
cruéis.
Aquela que melhor revela a intenção dos decênvìros é a pena máxima pronunciada contra os
autores de libelos e os poetas. Isto não faz parte do gênio da república, onde o povo
gosta de ver os grandes serem humilhados. Mas pessoas que pretendiam derrubar a liberdade
temiam escritos que pudessem lembrar o espírito de liberdade.
Após a expulsão dos decênviros, quase todas as leis que tinham fado as penas foram
suprimidas. Não foram expressamente revogadas, mas, tendo a lei Pórcia proibido que se
matasse um cidadão romano, elas não tiveram mais aplicação.
Eis o tempo em que se pode lembrar o que Tito Lívio disse dos romanos: jamais um povo
amou mais a moderação das penas.
Se acrescentarmos à suavidade das penas o direito que tinha um acusado de retirar-se
antes do julgamento, veremos que os romanos tinham seguido este espírito que eu disse ser
natural à república.
Sila, que confundiu tirania, anarquia e liberdade, criou as leis Comelianas. Parecia que
só criara ordenações para estabelecer crimes. Assim, qualificando uma infinidade de ações
com o nome de assassínio, encontrou assassinos em todos os lugares; e, segundo uma
prática que foi seguida até demais, armou armadilhas, semeou espinhos, abriu abismos no
caminho de todos os cidadãos.
Quase todas as leis de Sila só traziam a interdição do fogo e da água. César acrescentou
o confisco dos bens, porque, como os ricos mantinham no exílio seu patrimônio, eram mais
audazes ao cometerem crimes.
Quando os imperadores estabeleceram um governo militar, logo sentiram que este não era
menos terrível contra eles do que contra seus súditos; procuraram moderá-lo; acreditaram
necessitar das dignidades e do respeito que se tinha por elas.
Aproximaram-se um pouco da monarquia e dividiram as penas em três classes: as que
tratavam das primeiras pessoas do Estado, que eram bastante suaves; as que eram
infligidas às pessoas de uma posição inferior, que eram mais severas; enfim, as que só
tratavam das pessoas de baixa condição, que foram as mais rigorosas.
O feroz e insensato Maximino irritou, por assim dizer, o governo militar que deveria ter
abrandado. O senado tomava conhecimento, conta Capitolino, de que uns haviam sido
colocados na cruz, outros expostos às feras ou fechados dentro de peles de feras
recentemente mortas, sem nenhum respeito pelas dignidades. Parecia que ele queria exercer
uma disciplina militar, modelo segunda o qual pretendia resolver os assuntos civis.
Encontraremos nas Considerações sobre a grandeza dos romanos e sua decadência de que
forma Constantino transformou o despotismo militar num despotismo militar e civil e se
aproximou da monarquia. Podemos acompanhar as diversas revoluções deste Estado e ver como
se passou do rigor à indolência e da indolência à impunidade.

CAPÍTULO XVI
Da justa proporão entre as penas e os crimes

É essencial que as penas