O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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se harmonizem, porque é essencial que se evite mais um grande
crime do que um crime menor, aquilo que agride mais a sociedade do que aquilo que a fere
menos.
"Um impostor, que dizia ser Constantino Ducas, provocou um grande levante em
Constantinopla. Foi preso e condenado ao açoite; mas, tendo ele acusado pessoas
consideráveis, foi condenado, como caluniador, a ser queimado." É singular que se tenham
assim proporcionado as penas entre o crime de lesa-majestade e o de calúnia.
Isso lembra um dito de Carlos II, rei da Inglaterra. Ele viu, enquanto passava, um homem
no pelourinho; perguntou por que ele estava lá. "Senhor", disseram-lhe, "é porque
escreveu libelos contra seus ministros." "Grande bobo!", disse o rei; "por que não os
escreveu contra mime Não lhe teriam feito nada."
"Setenta pessoas conspiraram contra o imperador Basíliosz; ele mandou açoitá-los;
queimaram seus cabelos e seus pêlos. Tendo-o um cervo apanhado pelo cinto com sua
galhada, alguém de seu séquito sacou da espada, cortou o cinto e o libertou; ele mandou
que lhe cortassem a cabeça porque tinha, dizia ele, puxado a espada contra sua pessoa."
Quem poderia pensar que, sob o mesmo príncipe, fossem feitos estes dois julgamentos?
É um grande mal, entre nós, fazerem sofrer a mesma pena aquele que rouba nas estradas e

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aquele que rouba e mata. É claro que, para a segurança pública, deveria ser colocada
alguma diferença na pena.
Na China, os ladrões cruéis são cortados em pedaços os outros não: esta diferença faz com
que se roube, mas não se assassine.
Na Moscóvia, onde as penas dos ladrões e dos assassinos são as mesmas, continua-se
assassinando: Os mortos, dizem, não contam nada.
Quando não há diferença na pena, deve-se colocar essa diferença na esperança de perdão.
Na Inglaterra, não se assassina, porque os ladrões podem ter a esperança de serem levados
para as colônias, e não os assassinos.
As cartas de indulto são um grande recurso dos governos moderados. Este poder de perdoar
que o príncipe possui, executado com sabedoria, pode ter efeitos admiráveis. 0 princípio
do governo despótico, que não perdoa e nunca é perdoado, priva-o destas vantagens.

CAPÍTULO XVII
Da tortura ou tormento contra os criminosos

Porque os homens são maus, a lei é obrigada a supô-los melhores do que são. Assim o
depoimento de duas testemunhas é suficiente no castigo de todos os crimes. A lei acredita
nelas, como se falassem com a boca da verdade. Julga-se também que toda criança concebida
durante o casamento é legítima; a lei confia na mãe como se ela fosse o próprio pudor.
Mas a tortura contra os criminosos não está num caso forçado como estes. Podemos ver,
hoje, uma nação muito bem policiada rejeitá-la sem inconvenientes. Logo, ela não é
necessária por natureza.
Tantas pessoas habilidosas e tantos belos gênios escreveram contra essa prática, que não
ouso falar depois deles. Eu ia dizer que ela poderia ser conveniente nos governos
despóticos, onde tudo o que inspira o temor entra no mecanismo do governo; eu ia dizer
que os escravos sob os gregos e os romanos... Mas ouço a voz da natureza que grita contra
mim.

CAPÍTULO XVIII
Das penas pecuniárias e das penas corporais

Nossos pais, os germanos, quase que só admitiam penas pecuniárias. Esses homens
guerreiros e livres pensavam que seu sangue só deveria ser derramado de armas na mão. Os
japonesess, pelo contrário, rejeitam esse tipo de pena sob o pretexto de que os ricos
escapariam do castigo. Mas será que os ricos não temem perder seus bens? As penas
pecuniárias não poderiam ser proporcionais às fortunas? E, por fim, não se poderia juntar
a infâmia a estas penas?
Um bom legislador fica num justo meio; nem sempre ordena penas pecuniárias, nem sempre
inflige penas corporais.

CAPÍTULO XIX
Da lei de talião

Os Estados despóticos, que gostam de leis simples, usam muito a lei de talião. Os Estados
moderados admitem-na às vezes: mas existe a diferença seguinte: os primeiros fazem-na
exercer rigorosamente, e os outros quase sempre a abrandam.
A lei das Doze Tábuas admitia duas; ela só condenava ao talião quando não se tinha
conseguido satisfazer àquele que se queixava. Podia-se, após a condenação, pagar as
perdas e danos, e a pena corporal era convertida em pena pecuniária
CAPÍTULO XX
Do castigo dos pais em lugar dos filhos

Na China, punem-se os pais pelos erros dos filhos. Isto era costume no Peru e também
provém das idéias despóticas.
Ainda que se diga que na China o pai é punido por não ter feito uso do poder paterno que
a natureza estabeleceu e as leis até aumentaram, isto ainda supõe que não exista honra
entre os chineses. Entre nós, os pais cujos filhos são condenados ao suplício e os filhos

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cujos pais sofrem a mesma norte são tão punidos pela vergonha quanto o seriam na China
com a perda da vida.

CAPÍTULO XXI
Da clemência do príncipe

A clemência é a qualidade distintiva dos monarcas. Na república, onde se tem como
princípio a virtude, ela é menos necessária. No Estado despótico, onde reina o temor, ela
é menos,costumeira porque é preciso que os grandes do Estado sejam contidos com exemplos
de severidade. Nas monarquias, onde se é governado pela honra, que muitas vezes exige o
que a lei proíbe, ela é mais necessária. A desgraça é um equivalente da pena; as próprias
formalidades do julgamento são castigos. Eis que a vergonha vem de todos os lados para
formar tipos particulares de penas.
Os grandes são punidos tão fortemente pela desgraça, pela perda muitas vezes imaginária
de sua fortuna, de seu crédito, de seus hábitos e de seus prazeres, que o rigor, para
eles, é inútil; ele só pode servir para retirar dos súditos o amor que eles têm à pessoa
do príncipe e o respeito que devem ter pelos cargos.
Assim como a instabilidade dos grandes pertence à natureza do governo despótico, sua
segurança pertence à natureza da monarquia.
Os monarcas têm tanto a ganhar com a clemência, ela é seguida de tanto amor, eles tiram
dela tanta glória, que é quase sempre uma felicidade para eles ter a oportunidade de
exercitá-la; e isto quase sempre é possível em nossos países.
Haverá talvez disputa por uma parte da autoridade, quase nunca por toda a autoridade; e
se às vezes eles combatem pela coroa não combatem pela vida.
Mas, dir-se-ia, quando se deve punir? Quando se deve perdoar? É algo que se deixa melhor
sentir do que prescrever. Quando a clemência traz perigos, estes perigos são muito
visíveis; distinguimo-la facilmente dessa fraqueza que leva o príncipe ao desprezo e à
própria impotência de punir.
O imperador Maurício tomou a decisão de nunca verter o sangue de seus súditos. Anastácio
não castigava os crimes. Isaac, o Anjo, jurou que, durante seu reinado, não mandaria
matar ninguém. Os imperadores gregos esqueceram que não era em vão que portavam a espada.

LIVRO SÉTIMO
Conseqüências dos diferentes princípios dos três governos em relação às leis suntuárias,
ao luxo e à condição das mulheres

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CAPÍTULO I
Do luxo

O luxo é sempre proporcional à desigualdade das fortunas. Se, num Estado, as riquezas são
igualmente divididas, não haverá luxo, pois ele só está baseado nas comodidades que
obtemos com o trabalho dos outros.
Para que as riquezas permaneçam igualmente repartidas, é necessário que a lei só dê a
cada um o necessário físico. Se possuírem mais do que isso, uns gastarão, outros
comprarão, e a desigualdade