O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu


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estará estabelecida.
Supondo que o necessário físico seja igual a uma soma determinada, o luxo daqueles que só
possuirão o necessário será igual a zero; aquele que possuir o dobro terá um luxo igual a
um; aquele que possuir o dobro do bem deste último terá um luxo igual a três; quando
tiver ainda o dobro, terá um luxo igual a sete; de sorte que se supusermos que o bem do
particular seguinte seja sempre o dobro do anterior, o luxo crescerá do dobro mais uma
unidade, na seguinte progressão: 0, 1, 3, 7, 15, 31, 63, 127.
Na república de Platão, o luxo poderia ser calculado com exatidão. Existiam quatro tipos
de censo estabelecidos. Sendo o primeiro precisamente o termo onde a pobreza termina; o
segundo era o dobro, o terceiro o triplo, o quarto o quádruplo do primeiro. No primeiro
censo, o luxo era igual a zero; era igual a um no segundo; a dois no terceiro; a três no
quarto; e assim seguia na proporção aritmética.
Considerando-se o luxo dos diversos povos uns em relação aos outros, ele está em cada
Estado na razão composta da desigualdade das fortunas que existe entre os cidadãos e da
desigualdade das riquezas dos diversos Estados. Na Polônia, por exemplo, as fortunas são
de uma extrema desigualdade; mas a pobreza do total impede que exista tanto luxo quanto
num Estado mais rico.
O luxo também é proporcional ao tamanho das cidades, e principalmente da capital; de
forma que ele está na razão composta das riquezas do Estado, da desigualdade das fortunas
dos particulares e do número de homens que se reúnem em certos lugares.
Quanto maior o número de homens reunidos, mais vãos eles se tornam e sentem nascer dentro
de si a vontade de se singularizar por meio de pequenas coisas. Se estão em tão grande
número que a maioria seja desconhecida uns dos outros, a vontade de se destacar redobra,
porque há mais esperança de ser bem-sucedido. O luxo dá esta esperança; cada um assume o
aspecto da condição que lhe é superior. Mas, de tanto querer singularizar-se, tudo se
torna igual, e ninguém mais se destaca: como todos querem fazer-se notar, ninguém é
notado.
Resulta disso tudo um incômodo geral. Aqueles que são excelentes numa profissão colocam
em sua arte o preço que querem; os talentos menores seguem este exemplo; não há mais
harmonia entre as necessidades e os meios. Quando sou forçado a queixar-me na justiça, é
necessário que eu possa pagar um advogado; quando estou doente, preciso poder conseguir
um médico.
Algumas pessoas pensaram que reunindo tanta gente numa capital diminuiriam o comércio,
porque os homens mão estão mais a certa distância uns dos outros. Não penso assim: têm-se
mais desejos, mais necessidades, mais fantasias quando se está junto.
CAPÍTULO II
Das leis suntuárias na democracia
Acabo de dizer que nas repúblicas onde as riquezas são igualmente repartidas não pode
haver luxo; e, como vimos no livro quinto que esta igualdade de distribuirão constituía a
excelência de uma república, segue-se que quanto menos luxo houver numa república mais
perfeita será. Ele não existia sob os primeiros romanos, não existia sob os lacedemônios,
e nas repúblicas onde a igualdade não foi completamente perdida o espírito de comércio,
de trabalho e de virtude faz com que cada um possa e deseje viver de seus próprios bens e
que, conseqüentemente, haja pouco luxo.
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As leis da nova divisão dos campos, pedidas com tanta insistência em algumas repúblicas,
eram salutares por natureza. Elas só são perigosas como ação repentina. Retirando de
repente as riquezas de uns, e aumentando da mesma forma as de outros, elas fazem em cada
família uma revolução e devem produzir uma revolução geral no Estado.
À medida que o luxo se instala numa república, o espírito volta-se para o interesse
particular. Para pessoas que só precisam do necessário, resta apenas desejar a glória de
sua pátria e a sua particular. Mas uma alma corrompida pelo luxo tem muitos outros
desejos. Cedo ela se torna inimiga das leia que a incomodam. O luxo que a guarnição de
Régio começou a conhecer fez com que ela degolasse seus habitantes.
Assim que os romanos foram corrompidos, seus desejos tornaram-se imensos. Podemos
avaliá-lo pelo preço que atribuíram às coisas. Um pote de vinho de Falerno era vendido
por cem dinheiros romanos; um barril de carne salgada do Ponto custava quatrocentos; um
bom cozinheiro, quatro talentos: os moços não tinham preço. Quando, por uma impetuosidade
geral, todo o mundo se entregava à volúpia, o que acontecia com a virtude?
CAPÍTULO III
Das leis suntuárias na aristocracia
A aristocracia mal constituída tem a seguinte desgraça: os nobres possuem riquezas e no
entanto não devem gastá-las; o luxo contrário ao espírito de moderação deve ser daí
banido. Só existem então pessoas muito pobres, que não podem receber, e pessoas muito
ricas, que não podem gastar.
Em Veneza, as leis forçam os nobres à modéstia. Eles acostumaram-se tanto à economia, que
só as cortesãs conseguem fazê-los dar dinheiro. Esta via é utilizada para manter a
indústria; as mais desprezíveis mulheres gastam sem perigo, enquanto que seus tributários
levam a vida mais obscura do mundo.
As boas repúblicas gregas tinham, a este respeito, instituições admiráveis. Os ricos
gastavam seu dinheiro em festas, cm coros de músicas, em carruagens, em cavalos de
corrida, em caras magistraturas. As riquezas davam tanto trabalho quanto a pobreza.
CAPÍTULO IV
Das leis suntuárias nas monarquias
"Os suões, nação germânica, prestam homenagem às riquezas", conta Tácito; "o que faz com
que vivam sob o governo de um só." Isto significa que o luxo é singularmente próprio às
monarquias e que elas não precisam de leis suntuárias.
Como, pela constituição das monarquias, as riquezas são desigualmente repartidas, é
necessário que haja luxo. Se os ricos não gastarem muito, os pobres morrerão de fome. É
preciso até que os ricos gastem na proporção da desigualdade das fortunas e, como
dissemos, o luxo aumente nesta proporção. As riquezas particulares só aumentaram porque
elas retiraram dos cidadãos o necessário físico; é preciso, então, que este lhes seja
devolvido.
Assim, para que o Estado monárquico se sustente, o luxo deve ir crescendo, do lavrador ao
artesão, ao negociante, aos nobres, aos magistrados, aos grandes senhores, aos
financistas principais, aos príncipes; sem o que tudo estaria perdido.
No senado de Roma, composto por graves magistrados, por jurisconsultos e por homens
imbuídos da idéia dos primeiros tempos, foi proposta, sob Augusto, a correção dos
costumes e do luxo das mulheres. É curioso ver em Dioncom que arte ele eludiu os pedidos
importunos desses senadores. É que ele estava fundando uma monarquia e dissolvendo uma
república.
Sob Tibério, os edis propuseram no senado o restabelecimento das antigas leis suntuárias.
Este príncipe, que tinha luzes, opôs-se: "O Estado não poderia sobreviver", dizia, "na
situação em que estão as coisas. Como Roma poderia viver? Como poderiam viver as
províncias? Éramos frugais quando éramos cidadãos de uma só cidade; hoje, nós consumimos
as riquezas de todo o universo; fazemos trabalhar por nós os senhores e os escravos." Ele
percebia que não mais se precisava de leis suntuárias.
Quando, sob o mesmo imperador, propuseram ao senado proibir aos governadores levarem suas
mulheres para as províncias, por causa dos desregramentos que elas traziam, tal coisa foi
rejeitada. Disseram "que os exemplos da dureza dos antigos foram substituídos por um
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jeito de viver mais agradável". Sentiram que eram precisos outros costumes.
Logo, o luxo é necessário nos