O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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Estados monárquicos; é-o também nos Estados despóticos. Nos
primeiros, é um uso que se faz do fato de se ter liberdade; nos outros, é um abuso que se
faz das vantagens da servidão, como quando um escravo escolhido por seu senhor para
tiranizar os outros escravos, incerto quanto ao dia seguinte de sua sorte de cada dia,
não tem outra felicidade a não ser a de saciar o orgulho, os desejos e as volúpias de
cada dia.
Tudo isso leva a uma reflexão: as repúblicas acabam pelo luxo; as monarquias, pela
pobreza.

CAPÍTULO V
Em que casos as leis suntuárias são úteis numa monarquia

Foi no espírito da república, ou em alguns casos particulares, que no meio do século XIII
criaram em Aragão leis suntuárias. Jaime I ordenou que nem o rei nem nenhum de seus
súditos podiam comer mais de dois tipos de carne em cada refeição e que cada uma delas só
seria preparada de um único modo, a não ser que fosse caça que ele mesmo tivesse caçado.
Foram decretadas, em nossos dias, na Suécia, leis suntuárias; mas elas têm um objetivo
diferente das de Aragão.
Um Estado pode elaborar leis suntuárias no sentido de uma frugalidade absoluta; é o
espírito das leis suntuárias das repúblicas; e a natureza da coisa mostra que este foi o
objetivo das de Aragão.
As leis suntuárias podem também ter como objetivo uma frugalidade relativa, quando um
Estado, sentindo que mercadorias estrangeiras com um preço alto demais demandariam tal
exportação das suas, que ele se privaria mais de suas necessidades por estas do que as
satisfaria com aquelas, proíbe terminantemente sua entrada; este é o espírito das leis
que foram criadas em nossos dias na Suécia. São as únicas leis suntuárias que são
convenientes às monarquias.
Em geral, quanto mais um Estado é pobre, mais é arruinado pelo seu luxo relativo. Quanto
mais um Estado é rico, mais seu luxo relativo o enriquece; e deve-se evitar com cuidado
criar para ele leis suntuárias relativas. Explicaremos melhor isto no livro sobre o
comércio. Só se trata aqui do luxo absoluto.

CAPÍTULO VI
Do luxo na China

Razões particulares requerem leis suntuárias em alguns Estados. O povo, por causa do
clima, pode tornar-se tão numeroso e, por outro lado, os meios de fazê-lo subsistir podem
ser tão incertos, que é bom que ele se aplique inteiramente ao cultivo das terras. Nestes
Estados, o luxo é perigoso, e as leis suntuárias devem ser rigorosas. Assim, para saber
se se deve encorajar ou proscrever o luxo, deve-se primeiro examinar a relação entre a
quantidade de habitantes e a facilidade de fazê-los viver. Na Inglaterra, o solo produz
muito mais grãos do que o necessário para alimentar aqueles que cultivam as terras e
aqueles que fornecem roupas; logo, podem-se ter artes frívolas e conseqüentemente luxo.
Na França, cresce trigo suficiente para a alimentação dos lavradores e daqueles que estão
empregados nas manufaturas. Além do mais, o comércio com os estrangeiros pode obter pelas
coisas frívolas tantas coisas necessárias, que não se deve temer o luxo.
Na China, pelo contrário, as mulheres são tão férteis e a espécie humana multiplica-se a
tal ponto, que as terras, por mais cultivadas que sejam, são quase insuficientes para a
alimentação dos habitantes. Assim, o luxo ali é pernicioso e o espírito de trabalho e de
economia é tão necessário quanto em qualquer república. Precisam apegar-se às artes
necessárias e evitar as artes da volúpia.
Eis o espírito das belas ordenações dos imperadores chineses. "Nossos antigos", conta um
imperador da família dos Tang, "tinham como máxima que, se houvesse um homem que não
arasse, uma mulher que não estivesse ocupada fiando, alguém estava sofrendo de frio ou de
fome no império..." E , segundo este princípio, ele mandou destruir uma infinidade de
mosteiros de bonzos.
O terceiro imperador da vigésima primeira dinastia, para quem tinham levado pedras
preciosas encontradas numa mina, mandou fechá-la, pois não queria cansar seu povo por uma
coisa que não poderia nem alimentá-lo, nem vesti-lo.

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"Nosso luxo é tão grande", conta Kiayventi, "que o povo enfeita com bordados os sapatos
dos jovens e das moças que ele é obrigado a vender." Quando tantos homens estão ocupados
fazendo roupas para um só, como poderiam deixar de existir pessoas sem roupas? Existem
dez homens que comem os produtos da terra para cada lavrador: como poderiam não existir
pessoas sem alimentos?

CAPÍTULO VII
Conseqüência fatal do luxo na China

Vemos na história da China que ela teve vinte e duas dinastias que se sucederam; isto é,
que ela enfrentou vinte e duas revoluções gerais, sem contar uma infinidade de revoluções
particulares. As três primeiras dinastias duraram um tempo bastante longo, porque foram
sabiamente governadas e o império era menos extenso do que se tornou posteriormente. Mas
pode-se dizer que, em geral, todas essas dinastias começaram razoavelmente bem. A
virtude, o cuidado, a vigilância são necessários para a China; foram-no no início das
dinastias e faltaram no final. De fato, era natural que imperadores, criados em meio ao
cansaço das guerras, que conseguiram destronar uma família imersa em delícias,
conservassem a virtude que haviam provado ser tão útil e temessem as volúpias que haviam
visto serem tão funestas. Mas, após os três ou quatro primeiros príncipes, a corrupção, o
luxo, o ócio, as delícias se apossam dos sucessores; eles se trancam em seu palácio, seu
espírito se enfraquece, sua vida encurta, a família entra em declínio; grandes elevam-se,
os eunucos ganham força, só crianças são entronizadas; o palácio torna-se inimigo do
império; uma população ociosa que o habita arruina o povo que trabalha, o imperador é
assassinado ou destruído por um usurpador que funda uma família, cujo terceiro ou quarto
sucessor vai, no mesmo palácio, mais uma vez trancar-se.

CAPÍTULO VIII
Da continência pública

Existem tantas imperfeições ligadas à perda da virtude das mulheres, toda sua alma fica
tão degradada, supriìnido este ponto principal, ele faz caírem tantos outros, que se pode
considerar, num Estado popular, a incontinência pública como a pior das desgraças e a
certeza de uma mudança na constituição.
Assim, os bons legisladores exigiram das mulheres certa gravidade nos costumes.
Proscreveram de suas repúblicas não somente o vício, mas a aparência do vício. Baniram
até este comércio de galanteria que o ócio produz, que faz com que as mulheres corrompam
antes mesmo de serem corrompidas, dá um preço a todas as coisas insignificantes, e
rebaixa o que é importante, e faz com que as pessoas passem a se comportar segundo as
máximas do ridículo, que as mulheres tão bem sabem criar.

CAPÍTULO IX
Da condirão das mulheres nos diversos governos

As mulheres têm pouca compostura nas monarquias porque, como a distinção das posições as
chama à corte, elas lá adquirem este espírito de liberdade que é como que o único ali
tolerado. Todas usam de suas graças e de suas paixões para melhorar sua fortuna, e como
sua fraqueza não lhes permite o orgulho, e sim a vaidade, o luxo sempre reina com elas.
Nos Estados despóticos, as mulheres não introduzem o luxo; elas mesmas são um objeto de
luxo. Devem ser extremamente escravas. Todos seguem o espírito do governo e trazem para
casa o que vêem em outros lugares. Como as leis são severas e executadas imediatamente,
tem-se medo de que a liberdade das mulheres crie casos. Suas briguinhas, suas
indiscrições, suas repugnâncias, suas inclinações, seus ciúmes, suas birras, esta arte
que possuem as almas pequenas de interessar as grandes, não poderiam ficar sem
conseqüência.
Além do mais, como nesses Estados os príncipes se divertem com a natureza humana, eles
possuem várias mulheres, e mil considerações obrigam-nos a trancá-las.
Nas repúblicas, as mulheres são livres