O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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pelas leis e cativas pelos costumes; o luxo está
banido e com ele a corrupção e os vícios.

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Nas cidades gregas, onde não se vivia sob esta religião que estabelece que, até nos
homens, a pureza dos costumes é uma parte da virtude, nas cidades gregas, onde um vício
cego reinava de maneira desenfreada, onde o amor só tinha uma forma que não ouso
pronunciar, enquanto que a simples amizade se tinha retirado para os casamentos, a
virtude, a simplicidade e a castidade das mulheres eram tais que nunca se viu povo que
tenha tido, neste sentido, melhor ordem.

CAPÍTULO X
Do tribunal doméstico dos romanos

Os romanos não possuíam, como os gregos, magistrados particulares que inspecionassem a
conduta das mulheres. Os censores só as vigiavam como vigiavam o resto da república. A
instituição do tribunal doméstico supriu a função da magistratura estabelecida entre os
gregos.
O marido reunia os parentes da mulher e julgava-a na frente deles. Este tribunal
resguardava os costumes da república. Mas estes mesmos costumes resguardavam este
tribunal. Ele devia julgar não só a violação das leis, mas também a violação dos
costumes. Ora, para se julgar a violação dos costumes, é preciso tê-los.
As penas deste tribunal deviam ser arbitrárias e o eram de fato; pois tudo o que diz
respeito aos costumes, às regras da modéstia, não pode ser compreendido num código de
leis. É fácil regulamentar pelas leis o que se deve aos outros; é difícil englobar tudo o
que se deve a si mesmo.
O tribunal doméstico cuidava da conduta geral das mulheres. Mas havia um crime que, além
da animadversão deste tribunal, era também submetido a uma acusação pública: era o
adultério; quer porque numa república tão grande violação dos costumes interessasse ao
governo; quer porque o desregramento da mulher pudesse fazer desconfiar do desregramento
do marido; quer enfim porque se temesse que as pessoas preferissem esconder esse crime a
puni-lo, ignorá-lo a vingá-lo.

CAPÍTULO XI
Como as instituições mudaram em Roma com o governo
Assim como o tribunal doméstico supunha costumes, a acusarão pública também os supunha; e
daí resultou que estas duas coisas caíssem junto com os costumes e acabassem junto com a
república.
O estabelecimento das questões perpétuas, isto é, da divisão da jurisdição entre os
pretores, e o costume que se introduziu cada vez mais de que estes mesmos pretores
julgassem todas as causas enfraqueceram o uso do tribunal doméstico; o que fica claro com
a surpresa dos historiadores, que vêem como fatos singulares e como uma renovação da
prática antiga os julgamentos que Tibério mandou fazer por este tribunal.
O estabelecimento da monarquia e a mudança dos costumes também fizeram cessar a acusação
pública. Podia-se temer que um homem desonesto, vexado pelos desprezos de uma mulher,
indignado com suas recusas, irado até com sua virtude, planejasse perdê-la. A lei Júlia
ordenou que não se poderia acusar uma mulher de adultério sem antes ter acusado seu
marido de favorecer esses desregramentos, o que restringiu muito esta acusação e a
destruiu, por assim dizer.
Sixto Quinto deu sinais de querer renovar a acusação pública. Mas basta um pouco de
reflexão para ver que esta lei, numa monarquia como a dele, estava ainda mais deslocada
do que em qualquer outra.

CAPÍTULO XII
Da tutela sobre as mulheres sob os romanos

As instituições dos romanos colocavam as mulheres sob uma perpétua tutela, a não ser que
elas estivessem sob a autoridade de um marido. Esta tutela era dada ao mais próximo
parente do lado masculino; e parece, no dizer de uma expressão vulgar, que elas ficavam
muito incomodadas. Isto era bom numa república, e não era necessário numa monarquia.
Parece, segundo os diversos códigos das leis dos bárbaros, que as mulheres, sob os
primeiros germanos, também estavam sob uma tutela constante. Este costume passou para as

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monarquias que eles fundaram: mas não subsistiu.

CAPÍTULO XIII
Das penas estabelecidas pelos imperadores contra
a devassidão das mulheres

A lei Júlia estabeleceu uma pena contra o adultério. Mas, longe de que esta lei, e
aquelas que se fizeram depois dela, tosse um sinal de bondade dos costumes, foi, pelo
contrário, um sinal de sua depravação.
Todo o sistema político sobre as mulheres mudou na monarquia. Não se tratava mais de
estabelecer nelas a pureza dos costumes, mas de castigar seus crimes. Só se criavam novas
leis para castigar estes crimes porque não se castigavam mais as violações, que não eram
estes crimes.
O horrível desregramento dos costumes obrigava os imperadores a criar leis para acabar,
até certo ponto, com o despudor; mas sua intenção não foi a de corrigir os costumes em
geral. Fatos positivos, relatados por historiadores, provam isto melhor do que todas
estas leis que não seriam capazes de provar o contrário. Podemos ver em Dion a conduta de
Augusto sobre este assunto, e de que maneira eludiu, durante sua pretoria e sua censura,
os pedidos que neste sentido lhe foram feitos.
Podemos encontrar nos historiadores julgamentos rígidos que foram feitos, sob Augusto e
sob Tibério, contra o impudor de algumas damas romanas; mas ao nos revelarem o espírito
destes reinados eles nos revelam o espírito destes julgamentos.
Augusto e Tibério pensaram principalmente em castigar a devassidão de seus parentes. Eles
não estavam castigando o desregramento dos costumes, mas certo crime de impiedade ou de
lesa-majestade que eles haviam inventado, útil para impor respeito, útil para sua
vingança. Daí que os autores romanos protestem tão fortemente contra essa tirania.
A pena da lei Júlia era leve. Os imperadores quiseram que, nos julgamentos, se aumentasse
a pena da lei que eles haviam criado. Este foi o alvo dos ataques dos historiadores. Eles
não examinavam se as mulheres mereciam ser punidas, mas se tinham violado a lei para
puni-las.
Uma das principais tiranias de Tibério foi o abuso que fez das antigas leis. Quando quis
punir alguma dama romana além da pena estabelecida pela lei Júlia, restabeleceu contra
ela o tribunal doméstico.
Estas disposições sobre as mulheres só envolviam as famílias dos senadores, e não as do
povo. Queriam-se pretextos para as acusações contra os grandes, e as deportações das
mulheres podiam fornecê-los em grande quantidade.
Enfim, o que eu disse, que a bondade dos costumes não é o princípio do governo de um só,
nunca se verificou melhor do que sob estes primeiros imperadores; e se duvidarem disto
basta ler Tácito, Suetônio, Juvenal e Marcial.

CAPÍTULO XIV
Leis suntuárias entre os romanos

Falamos da incontinência pública, porque ela está unida ao luxo, porque é sempre seguida
por ele e sempre o segue. Se deixarmos em liberdade as reações do coração, como poderemos
conter as fraquezas do espírito?
Em Roma, além das instituições gerais, os censores mandaram fazer, pelos magistrados,
diversas leis particulares, para manter as mulheres na frugalidade. As leis Faniana,
Liciniana e Oppiana tiveram este objetivo. É preciso ver em Tito Lívio como o senado
ficou agitado, quando elas pediram a revogação da lei Oppiana. Valério Máximo situa a
época do maior luxo entre os romanos pela revogação desta lei.

CAPÍTULO XV
Dos dotes e das vantagens nupciais nas diversas constituições

Os dotes devem ser consideráveis nas monarquias, para que os maridos possam sustentar sua
posição e o luxo estabelecido. Devem ser medíocres nas repúblicas, onde o luxo não deve
reinar. Devem ser mais ou menos nulos nos Estados despóticos, onde as mulheres sào, de
alguma maneiras, escravas.

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