O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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A comunidade de bens, introduzida pelas leis francesas wre o marido e a mulher, é muito
conveniente no governo márquico, porque ela faz com que as mulheres se interessem pelos
assuntos domésticos e as traz de volta, como que nitra si mesmas, para os assuntos da
casa. Ela o é menos na república, onde as mulheres possuem mais virtude. Seria absurda
nos Estados despóticos, onde quase sempre as muilheres são elas mesmas propriedade do
senhor.
Como as mulheres, por seu estado, possuem certa queda pelo casamento, os ganhos que a lei
lhes dá sobre os bens du seus maridos são inúteis. Mas eles seriam muito perniciosos numa
república, porque suas riquezas pessoais produzem o luxo. Nos Estados despóticos, os
ganhos de núpcias devem ser sua subsistência, e nada mais.

CAPÍTULO XVI
Belo costume dos samnitas

Os samnitas tinham um costume que, numa pequena república, e principalmente na situação
em que se encontrava a deles, deveria produzir efeitos admiráveis. Reuniam todos os
jovens e eles eram julgados. Aquele que fosse declarado o melhor de todos tomava por
mulher a moça que desejasse; aquele que obtivesse o segundo lugar também escolhia; e
;msim por diante. Era admirável o fato de só se considerarem entre os bens do moço suas
belas qualidades e os serviços prestados à pátria. Aquele que era o mais rico neste tipo
de bens escolhia uma moça em toda a nação. O amor, a beleza, a castidade, a virtude, o
nascimento, as próprias riquezas, tudo era, por assim dizer, o dote da virtude. Seria
difícil imaginar uma recompensa mais nobre, maior, menos cara para um pequeno Estado,
mais capaz de agir sobre um sexo e o outro.
Os samnitas descendiam dos lacedemônios; e Platão, cujas instituições não são mais do que
a perfeição das leis de Licurgo, criou uma lei mais ou menos parecida.

CAPÍTULO XVII
Da administração das mulheres
É contrário à razão e contrário à natureza que as mulheres sejam senhoras dentro da casa,
como se estabeleceu entre os egípcios; mas não o é que governem um império. No primeiro
caso, o estado de fraqueza em que se encontram não lhes permite a preeminência: no
segundo, sua própria fraqueza dá-lhes maior doçura e moderação, o que pode proporcionar
um bom governo, mais do que as virtudes duras e ferozes.
Nas índias, estão satisfeitos com o governo das mulheres; e está estabelecido que, se os
homens não provêm de uma mãe do mesmo sangue, as filhas que possuem uma mãe de sangue
real sucedem. Dão-lhes um certo número de pessoas para ajudá-las a suportar o peso do
governo. Segundo Smith, estão também muito satisfeitos com o governo das mulheres na
África. Se acrescentarmos a isto o exemplo de Moscóvia e da Inglaterra, veremos que elas
também têm sucesso no governo moderado e no governo despótico.

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LIVRO OITAVO
Da corrupção dos princípios dos três governos

CAPÍTULO I
Idéia geral deste livro

A corrupção de cada governo começa quase sempre pela corrupção de seus princípios.

CAPÍTULO II
Da corrupção do princípio da democracia

O princípio da democracia corrompe-se não somente quando se perde o espírito de
igualdade, mas também quando se adquire o espírito de igualdade extremo e cada um quer
ser igual àqueles que escolheu para comandá-lo. A partir deste momento, o povo, não
podendo suportar o próprio poder que delegou, quer fazer tudo sozinho, deliberar pelo
senado, executar pelos magistrados e despojar todos os juízes.
Não pode mais existir virtude na república. O povo quer exercer as funções dos
magistrados; logo, estes não são mais respeitados. As deliberações do senado não têm mais
peso; logo, não há mais respeito pelos senadores e, conseqüentemente, pelos velhos. E se
não houver mais respeito pelos velhos também não haverá pelos pais; os maridos não
merecem maior deferência, nem os senhores submissão. Todos chegarão a gostar desta
libertinagem; o incômodo do comando cansará tanto quanto a obediência. As mulheres, as
crianças, os escravos não terão mais submissão a ninguém. Não existirão mais costumes,
amor à ordem e, por fim, virtude.
Vemos, no Banquete de Xenofonte, um retrato bastante ingênuo de uma república onde o povo
abusou da igualdade. Cada conviva conta, na sua vez, a razão pela qual está contente
consigo mesmo. "Estou contente de mim", conta Cármides, “por causa de minha pobreza.
Quando eu era rico, era obrigado a fazer a corte aos caluniadores, sabendo que eu podia
receber maior mal da parte deles do que poderia causar-lhes: a república sempre me pedia
uma nova quantia e eu não podia recusar. Desde que fiquei pobre, ganhei autoridade;
ninguém me ameaça, eu ameaço os outros; posso partir ou ficar. Os ricos já se levantam de
seus lugares e abrem o caminho para mim. Sou um rei, era escravo; eu pagava um tributo à
república, hoje ela me sustenta; não temo mais perder, espero comprar."
O povo cai nesta desgraça quando aqueles a quem confia seu destino, querendo esconder sua
corrupção, tentam corrompê-lo. Para que o povo não perceba sua ambição, só lhe falam de
sua grandeza; para que não perceba sua avareia, elogiam sempre a do povo.
A corrupção aumentará entre os corruptores e entre aqueles que já estão corrompidos. O
povo distribuirá entre si todos os dinheiros públicos e, como terá juntado à sua preguiça
a gestão dos negócios, também vai querer juntar à sua pobreza os divertimentos do luxo.
Mas, com sua preguiça e seu luxo, só o tesouro público poderá ser para ele um objetivo.
Não deveremos ficar surpresos ao vermos que os sufrágios são dados em troca de dinheiro.
Não se pode dar muito ao povo sem tirar ainda mais dele; mas, para tirar dele, devese
derrubar o Estado. Quanto maiores as vantagens que ele parecerá estar tirando de sua
liberdade, mais ele se estará aproximando do momento em que deve perdê-la. Criam-se
pequenos tiranos que têm todos os vícios de um só. Rapidamente, a liberdade que resta
torna-se insuportável; um só tirano ergue-se; e o povo perde tudo, até as vantagens de
sua corrupção.

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Assim, a democracia deve evitar dois excessos: o espírito de desigualdade, que a leva à
aristocracia, ou ao governo de um só; e o espírito de igualdade extrema, que a leva ao
despotismo de um só, assim como o despotismo de um só termina com a conquista.
É verdade que aqueles que corromperam as repúblicas gregas nem sempre se tornaram
tiranos. É que eles estavam mais ligados à eloqüência do que à arte militar; além do que,
existia no coração de todos os gregos um ódio implacável contra aqueles que derrubavam o
governo republicano; o que fez com que a anarquia degenerasse em destruição, ao invés de
transformar-se em tirania.
Mas Siracusa, que estava situada em meio a um grande número de pequenas oligarquias
transformadas em tiranias; Siracusa, que possuía um senado do qual quase nunca se fala na
história, sofreu desgraças que a corrupção habitual não provoca. Esta cidade, sempre na
licenciosidade ou na opressão, igualmente corroída por sua liberdade e pela sua servidão,
sempre recebendo uma e outra como uma tempestade e, malgrado seu poder exterior, sempre
pronta para uma revolução graças à menor força estrangeira, possuía em seu seio um povo
imenso, que sempre só teve esta alternativa cruel de entregar-se a um tirano, ou de sê-lo
ele mesmo.

CAPÍTULO III
Do espírito da igualdade extrema

Assim como o céu está distante da terra, o verdadeiro espírito de igualdade o está do
espírito de igualdade extrema. O primeiro não consiste em fazer com que todos