O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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violam seu princípio;
este perece por causa de seu vício interior, anão ser que algumas causas acidentais
impeçam seu princípio de corromper-se. Assim, ele só se mantém quando circunstâncias
tiradas do clima, da religião, da situação ou do gênio do povo o forçam a seguir certa
ordem ou a suportar certa regra. Estas coisas forçam sua natureza sem transformá-la;
permanece asna ferocidade; ela está domada por algum tempo.

CAPÍTULO XI
Efeitos naturais da excelência e da corrupção dos princípios

Uma vez que os princípios do governo foram corrompidos, as melhores leis tomam-se más e
se voltam contra o Estado; quando os princípios estão sãos, as más leis têm o efeito das
boas; a força do princípio carrega tudo.
Os cretenses; para manterem os magistrados mais importantes na dependência das leis,
usavam de um meio bastante singular: era o da insurreição. Uma parte dos cidadãos
sublevava-se, afugentava os magistrados e obrigava-os a voltar para a condição privada.
Supostamente, isto era feito em conseqüência da lei. Tal instituição, que estabelecia a
sedição para impedir o abuso de poder, parecia dever derrubar qualquer república que
fosse: não destruiu a de Creta. Eis por quê:
Quando os antigos queriam falar de um povo que tinha o maior amor à pátria, citavam os
cretenses. A pátria, dizia Platão, nome tão doce para os cretenses. Eles a chamavam por
um nome que exprimia o amor de uma mãe aos seus filhos. Ora, o amor à pátria tudo
corrige.
As leis da Polônia também possuem sua insurreição. Mas os inconvenientes que resultam
disto mostram claramente que só o povo de Creta estava em condições de utilizar com
sucesso tal remédio.
Os exercíçios de ginástica estabelecidos entre os gregos não, dependeram menos da
excelência do princípio do governo: "Foram os lacedemônios e os cretenses", conta Platão,
"que abriram as academias famosas, que as colocaram imundo numa condição tão distinta. O
pudor alarmou-se no, começo, mas acabou cedendo à utilidade pública." Na época de Platão,
estas instituições eram admiráveis; remetiam a, um grande objetivo, que era a arte

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militar. Mas, quando os gregos perderam a virtude, elas destruíram a própria arte
militar; não se descia mais à arena para se formar, e sim para corromper-se.
Plutarco conta-nos que, em sua época, os romanos pensavam que esses jogos tivessem sido a
principal causa da servidão ém que tinham caído os gregos. Era, pelo contrário, a
servidão dos gregos que havia corrompido aqueles exercícios. Na época de Plutarco, os
parques onde se lutava com as mãos nuas e os jogos da luta tornavam os jovens covardes,
levavam-nos a um amor infame e só faziam deles vagabundos; mas na época de Epaminondas o
exercício da luta fazia os tebanos vencerem a batalha de Leuctra.
Existem poucas leis que não sejam boas, quando o Estado não perdeu seus princípios; e,
como dizia Epicuro falando das riquezas: "Não é o licor que está corrompido, é o vaso."

CAPÍTULO XII
Continuação do mesmo assunto

Escolhiam-se em Roma os juízes na ordem dos senadores. Os Gracos transportaram esta
prerrogativa para os cavaleiros. Drusus deu-a aos senadores e. aos cavaleiros; Sila,
somente aos senadores; Cotta, aos senadores, aos cavaleiros e aos tesoureiros da
poupança. César excluiu estes últimos. Antônio criou decúrias de senadores, de cavaleiros
e de centuriões.
Quando uma república está corrompida, só se pode remediar aos males que nascem extirpando
a corrupção e trazendo de volta os princípios: qualquer outra correção ou é inútil ou
constitui um novo mal. Enquanto Roma conservou seus princípios, os julgamentos puderam
ficar, sem abuso, entre as mãos dos senadores; mas, quando se tornou corrupta, para
qualquer corporação para a qual se transportassem os julgamentos, para os senadores, os
cavaleiros; os tesoureiros da poupança, a dois destes corpos, a todos os três juntos, a
qualquer outra corporação, sempre se estava mal. Os cavaleiros não possuíam mais virtude
do que os senadores, os tesoureiros da poupança não mais do que os cavaleiros e estes tão
pouca quanto os centuriões.
Quando o povo de Roma conseguiu participar das magistraturas patrícias, era natural
pensar que seus bajuladores iriam ser os árbitros do governo. Não: viu-se este povo, que
tornava as magistraturas comuns aos plebeus; sempre eleger patrícios. Porque era
virtuoso, era magnânimo; porque era livre, desdenhava o poder. Mas, quando perdeu seus
princípios, quanto mais poder possuía, menos cuidados tinha; até que, afinal, tornando-se
seu próprio tirano e seu próprio escravo, perdeu a força da liberdade para cair na
fraqueza da licenciosidade.

CAPÍTULO XIII
Efeito do juramento num povo virtuoso

Nunca existiu povo, conta Tito Lívio, no qual a dissolução se tenha introduzido mais
tarde do que no povo romano, e onde a moderação e a pobreza tivessem sido mais tempo
honradas.
O juramento teve tanta força para este povo, que nada o ligou tanto às leis. Ele fez
muitas vezes para ser-lhe fiel o que não teria feito nunca pela glória ou pela pátria.
Quando Quintius Cincinnatus, cônsul, quis formar um exército na cidade contra os équos e
os volscos, os tribunos fizeram oposição. "Pois bem", disse, "que todos aqueles que
prestaram juramento ao cônsul do ano passado marchem sob minha insígnia." Em vão os
tribunos protestaram que não se estava mais ligado por este juramento, pois, quando foi
feito, Quintius era um homem privado: o povo foi mais religioso do que aqueles que
pretendiam conduzi-lo; não escutou nem as distinções nem as interpretações dos tribunos.
Quando este mesmo povo quis retirar-se no Monte Sagrado, sendo-se preso pelo juramento
que havia feito aos cônsules de segui-tos na guerra. Formou o desígnio de matá-los;
fizeram-no entender que o juramento continuaria existindo. Podemos julgar a idéia que
tinha da violação do juramento pelo crime que pretendia cometer.
Após a batalha de Canes, o povo, assustado, .quis retirarse para a Sicília: Cipião fê-lo
jurar que ficaria em Roma; o temor de violar seu juramento superou qualquer outra temor.
Roma era um navio mantido por duas âncoras na tempestade: a religião e os costumes.

CAPÍTULO XIV

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Como a menor mudança na constituição leva
à ruína dos princípios

Aristóteles fala-nos da república de Cartago como de uma república muito bem regrada.
Políbio conta-nos que na segunda guerra púnica havia em Cartago o inconveniente de que o
senado havia perdido quase toda sua autoridade. Tiro Lívio ensina-nos que quando Aníbal
voltou para Cartago achou que os magistrados e os cidadãos principais estavam desviando
em seu próprio proveito as finanças públicas e estavam abusando de seu poder. Assim, a
virtude dos magistrados caiu junto com a autoridade do senado; tudo decorreu do mesmo
princípio.
Conhecemos os prodígios da censura entre os romanos. Houve um tempo em que ela se tornou
pesada; mas mantiveram-na porque havia mais luxo do que corrupção. Cláudio enfraqueceu-a;
e com este enfraquecimento a corrupção tornou-se maior do que o luxo; e a censura
praticamente aboliu a si mesma. Perturbada, exigida, retomada, largada, ela foi
inteiramente interrompida até o momento em que se tomou inútil; estou falando dos
reinados de Augusto e de Cláudio.

CAPÍTULO XV
Meios muito eficientes para a conservação dos três princípios

Só poderei fazer-me entender quanto tiverem lido os quatro capítulos seguintes.

CAPÍTULO XVI
Propriedades distintivas de uma república

É da natureza da república que ela só possua um pequeno território; sem isto não pode
subsistir. Numa república grande, existem grandes fortunas