O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu


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e conseqüentemente pouca
moderação nos espíritos; existem depósitos muito grandes para colocar entre as mãos de um
cidadão; os interesses particularizam-se; um homem sente, primeiro, que pode ser feliz,
grande, glorioso, sem sua pátria; e, logo, que pode ser o único grande sobre as ruínas de
sua pátria.
Numa república grande, o bem comum é sacrificado em prol de mil considerações, está
subordinado a exceções, depende de acidentes. Numa república pequena, o bem público é
mais bem sentido, mais bem conhecido, mais próximo de cada cidadão; os abusos são menores
e, conseqüentemente, menos protegidos.
O que fez a Lacedemônia sobreviver tanto tempo é que após todas as suas guerras sempre
manteve seu território. O único objetivo da Lacedemônia era a liberdade; a única vantagem
da liberdade era a glória.
Foi o espírito das repúblicas gregas contentar-se com suas terras, assim como com suas
leis. Atenas adquiriu ambição e deu ambição à Lacedemônia: mas foi mais a de comandar
povos livres do que a de governar escravos; mais a de estar no comando da união do que a
de rompê-la. Tudo isto se perdeu quando uma monarquia se elevou, governo cujo espírito é
mais voltado para o crescimento.
Sem circunstâncias particulares, é difícil que qualquer outro governo que não o
republicano possa subsistir numa só cidade. Um príncipe de um Estado tão pequeno
procuraria naturalmente oprimir, porque possuiria um grande poder e poucos meias.para
usufruir dele; ou para fazê-lo respeitar: logo, ele reprimiria muito seus povos. Por
outro lado, tal príncipe seria facilmente oprimido por uma força estrangeira ou mesmo uma
força doméstica; o povo poderia a todo instante juntar-se e reunir-se contra ele. Ora,
quando o príncipe de uma cidade é éxpulso de sua cidade, o processo acabou; se ele
possuir várias cidades, o processo só começou.
CAPÍTULO XVII
Propriedades distintivas da monarquia
Um Estado monárquico deve ter um tamanho médio. Se fosse pequeno, formar-se-ia uma
república; se fosse muito extenso, os principais do Estado, grandes por si mesmos, não
estando sob a vigilância do príncipe, tendo sua corte longe da corte, protegidos, aliás,
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das execuções rápidas pelas leis e pelos costumes, poderiam parar de obedecer; eles não
temeriam um castigo lento e distante demais. 
Dessa forma, assim que Carlos Magno fundou seu império, foi preciso dividi-lo, quer
porque os governadores das províncias não obedecessem, quer porque, para fazê-los
obedecer melhor, fosse necessário dividir o império em diversos reinos.
Após a morte de Alexandre, seu império foi dividido. De que forma os grandes da Grécia e
da Maçedônia, livres, ou ao menos chefes dos conquistadores espalhados por esta vasta
conquista, teriam podido obedecer?
Após a morte de Átila, seu império foi dissolvido; tantos reis que não eram mais contidos
não podiam retomar seus grilhões.
O rápido estabelecimento do poder sem limites é o remédio que, nestes casos, pode evitar
a dissolução; nova desgraça depois da do crescimento!
Os rios correm para se misturar ao mar: as monarquias vão perder-se no despotismo.
CAPÍTULO XVIII
A monarquia da Espanha era um caso particular
Que não citem o caso da Espanha; ela prova melhor o que eu estou dizendo. Para manter a
América, fez o que o próprio despotismo não fez; destruiu seus habitantes. Foi
necessário, para conservar sua colônia, que a mantivesse até na dependência de sua
subsistência.
Tentou o despotismo nos Países Baixos; e tão logo o abandonou seus problemas aumentaram.
Por um lado, os valões não queriam ser governados pelos espanhóis; e, por outro, os
soldados espanhóis não queriam obedecer aos oficiais valões.
Só se manteve na Itália à força de enriquecê-la e de arruinar-se: pois aqueles que teriam
tido vontade de livrar-se do rei da Espanha não estavam dispostos, no entanto, a
renunciar a seu dinheiro.
CAPÍTULO XIX
Propriedades distintivas do governo despótico
Um grande império supõe uma autoridade despótica naquele que governa. É preciso que a
rapidez das resoluções supra a distância dos lugares para onde foram levadas; que o temor
impeça a negligência do governador ou de um magistrado distante; que a lei esteja numa só
cabeça e mude incessantemente, como os acidentes, que sempre se multiplicam no Estado, na
proporção de sua grandeza.
CAPÍTULO XX
Conseqüência dos capítulos anteriores
Que se a propriedade natural dos pequenos Estados é serem gqvernados em república; a dos
médios, serem submetidos a um monarca; a dos grandes impérios, serem don-iinados por um
déspota; segue-se que, para conservar os princípios do governo estabelecido, é preciso
manter o Estado na grandeza que já possuía, e que este Estado mude seu espírito, na
medida em que se estreitarem ou aumentarem seus limites.
CAPÍTULO XXI
Do império da China
Antes de terminar este livro, responderei a uma objeção que se pode fazer a tudo o que eu
disse até o presente momento.
Nossos missionários falam-nos do vasto império da China como sendo um governo admirável,
que mescla em seu princípio o temor, a honra e a virtude. Logo, eu terei feito uma
distinção vã, quando estabeleci os princípios dos três governos.
Ignoro o que vem a ser esta honra da qual falam em povos que não fazem nada a não ser sob
pauladas.
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Além disto, nossos comerciantes estão longe de nos darem uma idéia dessa virtude de que
falam nossos missionários: podemos consultá-los sobre as ladroeiras dos mandarins.
Tomo ainda por testemunha o grande homem que é milorde Anson.
Por outro lado, as cartas do P. Parennin sobre o processo que o imperador moveu contra
neófitos príncipes do sangue, que lhe haviam desagradado, mostram-nos um plano de tirania
constantemente seguido e injúrias feitas à natureza humana com regra, isto é, com
sangue-frio.
Temos também as cartas do senhor de Mairam e do mesmo P. Parennin sobre o governo da
China. Após perguntas e respostas muito sensatas, o maravilhoso desapareceu.
Não seria possível que os missionários tenham sido enganados por uma aparência de ordem;
que tivessem ficado impressionados com este exercício contínuo da vontade de um só, pelo
qual eles próprios são governados e que tanto gostam de encontrar nas cortes dos reis das
índias, porque indo lá apenas para realizar grandes mudanças, é mais fácil para eles
convencer os príncipes de que podem tudo fazer do que persuadir os povos de que podem
tudo sofrer.
Enfim, há muitas vezes algo de verdadeiro nos próprios erros. Circunstâncias
particulares, e talvez únicas, podem fazer com que o governo da China não seja tão
corrupto quanto deveria ser. Causas, em sua maioria, tiradas do físico do clima podem ter
forçado as causas morais neste país e criado uma espécie de prodígio.
O clima da China é tal que favorece prodigiosamente a propagação da espécie humana. As
mulheres são de uma fecundidade tão grande que não se vê nada igual na terra. A mais
cruel tirania não pára o progresso da propagação. O príncipe não pode dizer como o faraó:
Oprimamo-los com sabedoria. Estaria mais propenso a formar o desejo de Nero, que o gênero
humano tivesse uma só cabeça. Mesmo com a tirania, a China, pela força do clima, sempre
se povoará e vencerá a tirania.
A China, como todos os países onde cresce o arroz, está sujeita a forres freqüentes.
Quando o povo morre de fome, ele se dispersa para procurar subsistência; formam-se em
toda parte bandos de três, quatro ou cinco ladrões. A maioria é logo exterminada; outros
aumentam e também são exterminados. Mas, num tão grande número de províncias, e tão
distantes entre si, pode acontecer que algum