O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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bando faça fortuna. Mantém-se, fortifica-se,
organiza-se como exército, vai direto para a capital e o chefe sobe ao trono.
Tal é a natureza da coisa que o mau governo é castigado em primeiro lugar. A desordem
nasce de repente porque esse povo prodigioso tem falta de alimentas. O que faz com que,
em outros países, se corrijam tão dificilmente os abusos é que eles não possuem efeitos
sensíveis; o príncipe não é avisado tão rápida e ruidosamente quanto o é na China.
Ele não sentirá, como nossos príncipes, que, se governa mal, será menos feliz na outra
vida e menos poderoso e menos rico nesta. Saberá que, se seu governo não for bom, perderá
o império e a vida.
Como, apesar das exposições de crianças, o povo sempre aumenta na China, precisa-se de um
trabalho incansável para fazer com que as terras produzam o necessário para alimentálo:
isto demanda grande atenção da parte do governo. Está, em todos os instantes, interessado
em que todos possam trabalhar sem medo de serem frustrados por seu suor. Deve ser menos
um governo civil do que um governo doméstico.
Eis o que produziram as ordenações de que tanto falamos. Quiseram fazer as leis reinarem
com o despotismo; mas o que se junta ao despotismo não tem mais força. Em vão este
despotismo, pressionado por suas dificuldades, quis encadear-se; ele se arma de suas
cadeias e se torna ainda mais terrível.
A China é, então, um Estado despótico cujo princípio é o temor. Talvez nas primeiras
dinastias, quando o império não era tão extenso, o governo declinasse um pouco deste
princípio. Mas hoje isto não acontece.

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SEGUNDA PARTE

LIVRO NONO
Das leis na relação que possuem com a força defensiva

CAPÍTULO I
Como as repúblicas provêem à sua segurança

Se uma república for pequena, ela será destruída por uma força estrangeira; se for
grande, será destruída por um vício interior.
Este duplo inconveniente infecta igualmente as democracias e as aristocracias, sejam elas
boas ou más. O mal está na própria coisa; não há nenhuma forma que possa remediar.
Assim, parecia muito provável que os homens fossem afinal obrigados a viver sob o governo
de um só, se não tivessem imaginado uma forma de constituição que possui todas as
vantagens internas do governo republicano e a força externa da monarquia. Estou
referindo-me à república federativa.
Esta forma de governo é uma convenção segundo a qual vários Corpos políticos consentem em
se tomar cidadãos de um Estado maior que pretendem formar. É uma sociedade de sociedades,
que formam uma nova sociedade, que pode crescer com novos associados que se unirem a ela.
Foram associações deste tipo que fizeram florescer tanto tempo o corpo da Grécia. Com
elas, os romanos atacaram o universo e só com elas o universo se defendeu contra eles; e,
quando Roma chegou ao máximo de sua grandeza, foi com associações de trás do Danúbio e do
Reno; àssõciaçõés que o pavor engendrou, que os bárbaros puderam resistir-lhe.

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É assim que a Holanda, a Alemanha, as Ligas Suíças são vistas, na Europa, como repúblicas
eternas.
As associações das cidades eram outrora mais necessárias do que são hoje. Uma cidade sem
poder corria os maiores perigos. A conquista fazia com que perdesse não só o poder
executivo e o legislativo, como hoje, mas também tudo o que há de propriedade entre os
homens.
Este tipo de república, capaz de resistir à força externa, pode manter-se em sua grandeza
sem que o interior se corrompa: a forma desta sociedade previne todos os inconvenientes.
Aquele que preterìdesse usurpar não poderia ser igualmente aceito em todos os Estados
confederados. Se se tornasse poderoso demais em um deles, alarmaria todos os outros; se
subjugasse uma parte, aquela que ficasse livre ainda poderia resistir-lhe com forças
independentes daquelas que ele teria usurpado e derrotá-lo antes que tivesse terminado de
se estabelecer.
Se acontecer alguma sedição em um dos membros confederados, os outros podem pacificá-la.
Se abusos se introduzirem em alguma parte, serão corrigidos pelas partes sãs. Este Estado
pode perecer de um lado sem perecer de outro; a confederação pode ser dissolvida, e os
confederados permanecer soberanos.
Composto por repúblicas, goza da excelência do governo interior de cada uma; e, quanto ao
exterior, possui, pela força da associação, todas as vantagens das grandes monarquias.

CAPÍTULO II
A constituição federativa deve ser composta por Estados da
mesma natureza, principalmente por Estados republicanos

Os cananeus foram destruidos porque eram pequenas monarquias que não se tinham
confederado e não se defenderam juntas. É que a natureza das pequenas monarquias não é a
confederação.
A república federativa da Alemanha é composta por cidades livres e pequenos Estados
submetidos a príncipes. A experiência mostra que ela é mais, imperfeita do que as da
Holanda e da Suíça.
O espírito da monarquia é a guerra e o crescimento; o espírito da república é a paz e a
moderação. Estes dois tipos de governo só podem subsistir forçados numa república
federativa.
Assim, vemos na história romana que, quando os véios escolheram um rei, todas as pequenas
repúblicas de Toscana os abandonaram. Tudo foi perdido na Grécia, quando os reis da
Macedônia conseguiram um lugar entre os anfictiões.
A república federativa da Alemanha, composta por príncipes e cidades livres, subsiste
porque possui um chefe, que é de alguma forma o magistrado da união e de alguma forma seu
monarca.

CAPÍTULO III
Outras coisas necessárias na república federativa

Na república da Holanda, uma província não pode fazer uma aliança sem o consentimento das
outras. Esta lei é muito boa, e até mesmo necessária, numa república federativa. Ela
falta na constituição germânica, onde preveniria as desgraças que podem acontecer com
todos os seus membros, por causa da imprudência, da ambição ou da avareza de um só. Uma
república que se uniu numa confederação política deu-se por inteiro e não tem mais nada
para dar.
É difícil que os Estados que se associam sejam da mesma grandeza e possuam igual poder. A
república dos lícios era uma associação de vinte e três cidades; as grandes tinham três
votos no conselho comum; as medianas, dois; as pequenas, um. A república da Holanda é
composta por sete províncias, grandes ou pequenas, que possuem um voto cada.
As cidades da Lícia pagavam os encargos na proporção dos sufrágios. As províncias da
Holanda não podem seguir esta proporção; devem seguir a de seu poder.
Na Lícia, os juízes e os magistrados das cidades eram eleitos pelo conselho comum e
segundo a proporção de que falamos. Na república da Holanda, eles não são eleitos pelo
conselho comum, e cada cidade nomeia seus magistrados. Se fosse preciso um modelo de uma
bela república federativa, eu escolheria a república da Lícia.

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CAPÍTULO IV
Como os Estados despóticos provêem à sua segurança

Assim como as repúblicas provêem à sua segurança unindo-se, os Estados despóticos
fazem-no separando-se e ficando, por assim dizer, sós. Sacrificam uma parte do país,
arrasam as fronteiras e tornam-nas desertas; o corpo dó império toma-se inacessível.
É sabido em geometria que, quanto mais extensos são os corpos, mais sua circunferência
relativa é pequena. Esta prática de devastar as fronteiras é, então, mais tolerável nos
grandes Estados do que nos médios.
Este Estado faz a si mesmo todo o mal que poderia fazer um inimigo cruel,