O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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mas um inimigo
que não poderia ser detido.
O Estado despótico conserva-se por um outro tipo de separação, que se faz colocando as
províncias distantes nas mãos de um príncipe que seja seu feudatário. O Mogol, a Pérsia,
os imperadores da China possuem seus feudatários, e os turcos acharam-se contentes por
terem colocado entre seus inimigos e eles os tártaros, os moldávios, os valáquios e,
outrora, os transilvanos.

CAPÍTULO V
Como a monarquia provê à sua segurança

A monarquia não destrói a si mesma como o Estado despótico; mas um Estado de uma grandeza
média poderia logo ser invadido. Assim ela possui fortificações que protegem suas
fronteiras e exércitos que protegem suas fortificações. O menor terreno é disputado com
arte, com coragem, com teimosia. Os Estados despóticos fazem entre si invasões; só ás
monarquias fazem a guerra.
As fortificações pertencem às monarquias; os Estados despóticos temem possuí-ias. Não
ousam confiá-las a ninguém, pois ninguém ama o Estado e o príncipe.

CAPÍTULO VI
Da força defensiva dos Estadas em geral

Para que um Estado esteja em sua maior força, é preciso que sua grandeza seja tal que
exista uma relação entre a rapidez com que se pode executar contra ele alguma ofensiva e
a prontidão com que pode torná-la vã. Como aquele que ataca pode, no início, aparecer em
todo lugar, é preciso que aquele que se defende também possa se mostrar em todo lugar; e,
conseqüentemente, que a extensão do Estado seja mediana, para que seja proporcional ao
grau de velocidade que a natureza deu aos homens para que se transportassem de um a outro
lugar.
A França e a Espanha são precisamente do tamanho certo. As forças comunicam-se tão bem
que logo se transportara para onde se quer; os exércitos reúnem-se e passam rapidamente
de uma fronteira a outra; e não se teme nenhuma das coisas que necessitam de certo tempo
para serem executadas.
Na França, por uma sorte admirável, a capital encontrase mais próxima das diferentes
fronteiras justamente na proporção de sua fraqueza; e o príncipe vê melhor cada parte de
seu país na medida em que está mais exposta.
Mas quando um Estado vasto, como a Pérsia, é atacado são necessários vários meses para
que as tropas dispersas possam reunir-se; e não se força sua marcha por tanto tempo,
quanto se faz por quinze dias. Se o exército que está na fronteira é vencido, ele
certamente se dispersa, porque suas defesas não estão próximas. O exército vitorioso,
que, ião encontra resistência, avança rapidamente, chega diante da capital. e faz seu
cerco, quando os governadores das pfovcias acabam de ser avisados de que devem mandar
socorro. Aqueles que julgam que a revolução está próxima apressam-na, não obedecendo.
Pois pessoas fiéis unicamente porque o castigo está próximo deixam de sê-lo assim que ele
está distante; trabalham em prol de seus interesses particulares. O império se dissolve,
a capital é tomada,e o conquistador disputa as províncias com os governadares.
O verdadeiro poder de um príncipe não consiste tanto na facilidade que há em
conquistá-lo, e sim na dificuldade em atacá-lo e, por assim dizer, na imutabilidade de

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sua condição. Mas o crescimento dos Estados faz com que mostrem novos flancos por onde se
podem tomar.
Desta forma, assim como os monarcas devem possuir sabedoria para aumentar seu poder,
também não devem possuir menos prudência para limitá-lo. Fazendo cessar os inconvenientes
da pequenez, é preciso que vigiem sempre os inconvenientes da grandeza.
CAPÍTULO VII
Reflexões

Os inimigos de um grande príncipe, que reinou tanto tempo, acusaram-no mil vezes, mais,
penso eu, por causa de seus temores do que de suas razões, de ter formado e levado
adiante o projeto da monarquia universal. Se ele tivesse tido êxito, nada seria mais
fatal para a Europa, para seus antigos: súditos, para ele, para sua família. O céu, que
conhece as verdadeiras vantagens, serviu-o melhor com as derrotas do que o teria feito
com vitórias. Em vez de torná-lo o único rei da Europa, favoreceu-o tomando-o o mais
poderoso de todos.
Sua nação que, nos países estrangeiros, só é tocada pelo, que deixou; que, partindo de
casa, vê a glória como o bem maior e, nos países distantes, como um obstáculo para a sua,
volta; que indispõe por sua próprias boas qualidades, porque; parece juntar a elas o
desprezo; que pode suportar as feridas,: os perigos, os cansaços, mas não a perda dos
prazeres; que: não ama nada tanto quanto sua alegria e se consola da perda de uma batalha
quando cantou os feitos do general, não teria nunca levado até o fim uma empresa que não
pode falhar num país sem falhar em todos os outros, nem falhar por um momento sem falhar
para sempre.

CAPÍTULO VIII
Caso em que a força defensiva de um Estado
é inferior à sua força ofensiva

Disse o senhor de Coucy ao rei Carlos V "que os ingleses nunca são tão fracos nem tão
fáceis de vencer quanto quando estão em casa". É o que se dizia dos romanos; foi o que
sentiram os cartagineses; é o que acontecerá com qualquer potência que tiver enviado
exércitos ao longe para reunir pela força da disciplina e do poder militar aqueles que
estão divididos em seu território por interesses políticos ou civis. O Estado está fraco
por causa do mal que sempre permanece, e ainda foi enfraquecido pelo remédio.
A máxima do senhor de Coucy é uma exceção à regra geral que pretende que não se
empreendam guerras distantes. E esta exceção confirma a regra, pois só se verifica contra
aqueles mesmos que a violaram.

CAPÍTULO IX
Da força relativa dos Estados

Toda grandeza, toda força, todo poder é relativo. É preciso que se tome bastante cuidado
para que, procurando aumentar a grandeza real, não se diminua a grandeza relativa.
Por volta de meados do reinado de Luís XIV, a França esteve no ponto mais alto de sua
grandeza relativa. A Alemanha ainda não possuía os grandes monarcas que teve depois. A
Itália estava no mesmo caso. A Escócia e a Inglaterra não formavam um só corpo de
monarquia. Aragão não estava unido a Castela; as partes separadas da Espanha ficavam
enfraquecidas e com isso a enfraqueciam. A Moscóvia não era mais conhecida na Europa do
que a Criméia.

CAPÍTULO X
Da fraqueza dos Estados vizinhos

Quando temos como vizinho um Estado que se encontra em decadência, devemos evitar
apressar sua ruína, porque estamos, neste sentido, na situação mais feliz em que podemos
estar; e não há nada que seja mais cômodo para um príncipe do que estar perto de outro
que recebe todos os golpes e todos os ultrajes da sorte. E é raro que, com a conquista de
tal Estado, cresçamos tanto em poder real quanto perdemos em poder relativo.

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LIVRO DÉCIMO
Das leis na relação que possuem com a força ofensiva

CAPÍTULO I
Da força ofensiva

A força ofensiva é regulada pelo direito das gentes, que é a lei política das nações
consideradas na relação que possuem umas com as outras.

CAPÍTULO II
Da guerra

A vida dos Estados é como a dos homens. Estes possuem o direito de matar no caso de
defesa natural; aqueles possuem o direito de fazer a guerra para sua própria conservação.
No caso da defesa natural, tenho o direito de matar, porque minha vida me pertence, como
a vida do homem que me ataca lhe pertence; da mesma forma, um Estado faz a guerra porque
sua conservação é exatamente como qualquer outra conservação.
Entre os cidadãos, o direito à defesa natural não traz consigo a necessidade do ataque.
Em vez de atacar, eles podem recorrer aos tribunais. Logo, eles só podem exercer o
direito desta defesa nos casos momentâneos em que estariam perdidos se esperassem