O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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socorro das leis: Mas; entre às sociedades, o direito à defesa natural leva às vezes à
necessidade de atacar, quando um povo percebe que. uma paz mais prolongada colocaria
outro Estado em condições de destruí-lo e que o ataque é, neste momento, o único meio de
impedir esta destruição.
Segue-se daí que as pequenas sociedades têm o direito de fazer a guerra com mais
freqüência do que as maiores, porque se encontram com maior freqüência no caso de temerem
ser destruídas.
O direito à guerra deriva então da necessidade e do justo rigoroso. Se aqueles que
dirigem a consciência ou os conselhos do príncipe não se mantiverem aí, tudo estará
perdido; e, enquanto estiverem fundamentados nos princípios arbitrários de glória, de
conveniência, de utilidade, ondas de sangue inundarão a terra.
Sobretudo não se fale da glória do príncipe; sua glória seria seu orgulho; é uma paixão e
não um direito legítimo.
É verdade que a reputação de seu poder poderia aumentar as forças de seu Estado; mas a
reputação de sua justiça as aumentaria da mesma forma.

CAPÍTULO III
Do direito de conquista

Do direito à guerra deriva o de conquista, que é sua conseqüência; logo, deve seguir seu

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espírito.
Quando um povo foi conquistado, o direito que o conquistador possui sobre ele obedece a
quatro tipos de lei: a lei da natureza, que faz com que tudo tenda à conservação das
espécies; a lei da luz natural, que quer que façamos aos outros o que gostaríamos que nos
fizessem; a lei que forma as sociedades políticas, que são tais que a natureza não
limitou sua duração; enfim, a lei tirada da própria coisa. A conquista é uma aquisição; o
espírito de aquisição traz consigo o espírito de conservação e de uso, e não o de
destruição.
Um Estado que conquistou outro trata-o de uma das quatro maneiras seguintes: continua a
governá-lo segundo suai leis e só toma para si, o exercício do governo político e civil,
ou dá-lhe um novo governo político e civil; ou destrói a sociedade e dispersa-a; ou enfim
extermina todos os cidadãos.
A primeira conforma-se ao direito das gentes que seguimos hoje; a quarta conforma-se mais
ao direito das gentes dos romanos: sobre o que os deixo julgarem até que ponto nos
tornamos melhores. Deve-se aqui prestar uma homenagem a nossos tempos modernos, à razão
presente, à religião de hoje, a nossa filosofia, a nossos costumes.
Os autores de nosso direito público, fundamentados nas histórias antigas, tendo saído dos
casos rígidos, caíram em grandes erros. Tornaram-se arbitrários; supuseram nos,
conquistadores não sei que direito de matar: o que fez com que tirassem conseqüências tão
terríveis quanto o princípio e estabelecessem máximas que os próprios conquistadores,
quando tiveram o menor bom senso, nunca adotaram. Está claro que, quando a conquista está
realizada, o conquistador não tem mais o direito de matar, pois não está mais no caso da
defesa natural e de sua própria conservação.
O que os fez pensar assim foi acreditarem que o conquistador tinha o direito de destruir
a sociedade: donde concluíram que ele tinha o direito de destruir os homens que a
compõem, o que é uma conseqüência falsamente tirada de um princípio falso. Pois do fato
de que a sociedade seria destruída não se segue que os homens que a formam devessem
também ser destruídos. A sociedade é a união dos homens, e não os homens; o cidadão pode
morrer e o homem permanecer.
Do direito de matar na conquista, os políticos tiraram o direito de reduzir à servidão;
mas a conseqüência é tão mal fundamentada quanto o princípio.
Só se tem o direito de reduzir à servidão quando ela é necessária para a conservação da
conquista. O objetivo da conquista é a conservação: a servidão nunca ,é o objetivo da
conquista; mas pode acontecer que ela seja um,meio necessário para se chegar à
conservação.
Neste caso, é contrário à.naturezá:da coisa que esta servidão seja eterna. É preciso que
ó povo escravo, possa tornar-se súdito. A escravidão na conquista é coisa acidental.
Quando, após certo espaço de tempo todas as partes do Estado conquistador se ligaram com
as do Estado conquistado através de costumes, de casamentos, ele leis, de associações e
de uma certa conformidade de espíritas á. servidão deve cessar. Pois os direitos do
conquistador só se fundam no fato de estas coisas não existirem e de existir uma
distância entre as duas nações, deforma que uma não pode confiar na outra.
Assim, o conquistador que reduz o povo, a servidão deve sempre reservar-se meios, e estes
meios são inumeráveis, de fazê-lo dela sair.
Não estou dizendo aqui coisas vagas. Nossos pais, que conquistaram o império romano,
agiram assim. As leis que eles fizeram no fogo, na ação, no ímpeto, no orgulho da vitória
os abrandaram; suas leis eram duras, eles as tomaram imparciais. Os borgonheses, os godos
e os lombardos ainda queriam que os romanos fossem o povo vencido; as leis de Eurico, de
Gondebaldo e de Rotharis fizeram do bárbaro e do romano concidadãos.
Carlos Magno, para domar os saxões, retirou-lhes a ingenuidade e a propriedade dos bens.
Luís, o Brando, alforriou-os; não fez nada melhor em todo seu reinado. O tempo e a
servidão haviam abrandado seus costumes; sempre lhe foram fiéis.
CAPÍTULO IV
Algumas vantagens do povo conquistado

Em vez de tirar do direito de conquista conseqüências, tão fatais, os políticos teriam
feito melhor se falassem das vantagens que este direito pode, às vezes, trazer para o
povo vencido. Eles as teriam sentido melhor se nosso direito das gentes fosse seguido
exatamente e se estivesse estabelecido por toda a terra.
Os Estados que são conquistados não estão normalmente no vigor de sua instituição. A
corrupção introduziu-se neies; as leis cessaram de ser executadas; o governo tomou-se

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opressor. Quem pode duvidar de que tal Estado não ganhas se e não tirasse algumas
vantagens da própria conquista, se ela não fosse destruidora! Um governo que chegou ao
ponto em que não pode mais reformar a si mesmo, o que perderia em ser refundido? Um
conquistador que invade um povo onde, graças a mil astúcias e mil artifícios, o rico se
valeu, sem que se percebesse, de uma infinidade de meios de usurpar; onde o infeliz que
geme, vendo o que pensava serem abusos tornar-se lei, é oprimido e acredita estar errado
por senti-la; um conquistador, digo, pode arruinar tudo, e a tirania surda é a primeira
coisa que. sofre a violência.
Foram vistos, por exemplo, Estados oprimidos pelos financistas serem aliviados pelo
conquistador, que não tinha nem os compromissos, nem as necessidades, do príncipe
legítimo. Os abusos corrigiam-se mesmo sem que o conquistador os corrigisse.
Algumas vezes, a frugalidade da nação conquistadora colocou-a em condições de deixar aos
vencidos o necessário, que lhes era retirado sob o príncipe legítimo.
Uma conquista pode destruir preconceitos nocivos e colocar, se ouso dizer, uma nação sob
um melhor gênio.
Que bem não poderiam os espanhóis ter feito aos mexicanos? Eles tinham para dar-lhes uma
religião branda; levaram-lhes uma superstição furiosa. Poderiam ter tomado os escravos
homens livres e tomaram os homens livres escravos. Poderiam tê-los esclarecido sobre os
abusos dos sacrifícios humanos; em vez disto, os exterminaram. Eu nunca acabaria se
quisesse contar todos os bens que eles não fizeram e todos os males que fizeram.
É dever de um conquistador reparar uma parte dos males que fez. Defino assim o direito de
conquista: um direito necessário, legítimo e infeliz, que sempre deixa a pagar uma dívida
imensa para com a natureza humana.

CAPÍTULO V
Gelon, rei de Siracusa