O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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O mais belo tratado de paz de que fala a história é, penso eu, aquele que Gelon fez com
os cartagineses. Ele quis que abolissem o costume de imolar seus filhos. Coisa admirável!
Após ter vencido trezentos mil cartagineses, ele impunha uma condição que só era útil
para eles, ou melhor, ele estipulava uma cláusula a favor do gênero humano.
Os bactrianos faziam com que grandes cães comessem seus velhos pais: Alexandre
proibiu-os, e foi um triunfo que obteve contra a superstição.

CAPÍTULO VI
De uma república que conquista

É contrário à natureza da coisa que, num regime federativo, um Estado confederado
conquiste outro, como vimos em nossos dias no caso dos suíços. Nas repúblicas federativas
mistas, onde a associação se dá entre pequenas repúblicas e pequenas monarquias, isto
choca menos.
É também contrário à natureza da coisa que uma república democrática conquiste cidades
que não podem entrar na esfera da democracia. É preciso que o povo conquistado possa
gozar dos princípios da soberania, como os romanos estabeleceram no início. Deve-se
limitar a conquista ao número de cidadãos que se fixou para a democracia.
Se uma democracia conquistar um povo para governálo como súdito, exporá a sua própria
liberdade, porque confiará um poder grande demais aos magistrados que enviar ao Estado
conquistado.
Em que perigo teria estado a república de Cartago se Ambal tivesse tomado Roma? Que não
teria feito ele em sua cidade após a vitória, ele que causou tantas revoluções após sua
derrota?
Hannon nunca teria podido persuadir o senado a não enviar socorro a Aníbal sé só tivesse
feito falar sua inveja. Este senado, que segundo Aristóteles foi tão sábio (coisa que a
prosperidade desta república prova tão bem), só podia ser detemiinado por razões
sensatas. Seria preciso ser estúpido demais para não perceber que um exército, a
trezentas léguas dali, tinha perdas necessárias que deviam ser reparadas.
O partido de Hannon queria que se entregasse Aníbal aos romanos. Não se podia, então,
temer os romanos; logo, temia-se Aníbal.
Não podiam acreditar, dizem, nos sucessos de Anibal; mas como deles duvidar? Os

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cartagineses espalhados por toda a terra ignoravam o que acontecia na Itália? É porque
não o ignoravam que não queriam enviar socorro a Aníbal.
Hannon torna-se mais firme após Trébia, após Trasimeno, após Cannes: não é sua
incredulidade que aumenta, é seu temor.

CAPÍTULO VII
Continuação do mesmo assunto

Existe ainda um inconveniente nas conquistas feitas pelas democracias. Seu governo é
sempre odioso para os Estados sujeitados. É monárquico na ficção, mas na verdade é mais
duro do que o monárquico, como a experiência de todos os tempos e de todos os países
demonstrou.
Os povos conquistados ficam num triste estado; não gozam nem das vantagens da república,
nem das da monarquia.
O que eu disse do Estado popular pode ser aplicado à aristocracia.

CAPÍTULO VIII
Continuação do mesmo assunto
Assim, quando uma república mantém algum povo em sua dependência, é preciso que ela
procure reparar os inconvenientes que nascem da natureza da coisa, dando-lhe um bom
direito político e boas leis civis.
Uma república da Itália mantinha insulares sob sua obediência; mas seu direito político e
civil era vicioso com relação a eles. Podemos lembrar o ato de anistia que fez com que
não fossem mais condenados a penas aflitivas ex informata conscientia do governadora.
Vimos muitas vezes povos pedirem privilégios: aqui o soberano acede ao direito de todas
as nações.

CAPÍTULO IX
De uma monarquia que conquista à sua volta

Se uma monarquia pode agir muito tempo antes que o crescimento a tenha enfraquecido, ela
se tornará temível, e sua força durará tanto quanto será pressionada pelas monarquias
vizinhas.
Assim, ela só deve conquistar enquanto permanece nos limites naturais de seu governo. A
prudência requer que ela pare assim que ultrapassar estes limites.
É preciso, neste tipo de conquista, deixar as coisas como foram encontradas: os mesmos
tribunais, as mesmas leis, os mesmos costumes, os mesmos privilégios; nada deve ser
mudado, a não ser o exército e o nome do soberano.
Quando a monarquia tiver estendido seus limites pela conquista de algumas províncias
vizinhas, é preciso que as trate com grande suavidade.
Numa monarquia que trabalhou muito tempo em conquistar, as províncias de seu antigo
domínio estão normalmente muito maltratadas. Elas precisam sofrer os novos abusos e os
antigos e, muitas vezes, uma grande capital, que engole tudo, despovoou-as. Ora, se,
depois de ter conquistado em volta deste domínio, se tratassem os povos vencidos como se
tratam seus antigos súditos, o Estado estaria perdido; o que as províncias conquistadas
mandariam em forma de tributo para a capital não mais retornaria; as fronteiras estariam
arruinadas e, conseqüentemente, mais fracas; os povos estariam mal afeiçoados a elas; a
subsistência dos exércitos, que devem permanecer e agir, seria mais precária.
Tal é o estado de uma monarquia conquistadora; um luxo absurdo na capital, a miséria nas
províncias que estão distantes; a abundância nas extremidades. É como o nosso planeta, o
fogo no centro, a verdura na supecie,uma terra árida, fria e estéril entre os dois.

CAPÍTULO X
De uma monarquia que conquista outra monarquia

Algumas vezes, uma monarquia conquista outra. Quanto menor for esta última, melhor será
contida por fortalezas; quanto maior for, melhor será conservada por colônias.

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CAPÍTULO XI
Dos costumes do povo vencido

Nestas conquistas, não é suficiente deixar para a nação vencida suas leis; é talvez mais
necessário deixar-lhe seus costumes, porque um povo conhece, ama e defende sempre melhor
seus costumes do que suas leis.
Os franceses foram expulsos nove vezes da Itália, por causa, contam os historiadores, de
sua insolência para com as mulheres e as moças. É demais para uma nação ter de suportar o
orgulho do vencedor, e ainda sua incontinência, e ainda sua indiscrição, sem dúvida mais
nefasta porque multiplica os ultrajes ao infinito.

CAPÍTULO XII
De uma lei de Ciro

Não considero como uma boa lei a que Ciro fez para que os lídios só pudessem exercer
profissões vis, ou profissões infames. Vai-se ao que tem mais urgência; pensa-se nas
revoltas, e não nas invasões. Mas as invasões logo virão; os dois povos se unem,
corrompem-se ambos. Eu prefiro manter pelas leis a rudeza do povo vencedor a entreter com
elas a indolência do povo vencido.
Aristodemo, tirano de Cumes, procurou irritar a coragem dos jovens. Quis que os moços
deixassem seus cabelos crescer, como as moças; que os enfeitassem com flores e usassem
vestidos até o calcanhar com diferentes cores; que, quando fossem à casa de seus mestres
de dança e música, mulheres levassem-lhes sombrinhas, perfumes e leques; que, no banho,
elas lhes dessem pentes e espelhos. Esta educação durava até a idade de vinte anos. Isto
só pode convir a um pequeno tirano, que expõe sua soberania para proteger sua vida.

CAPÍTULO XIII
Carlos XII

Este príncipe, que só usou suas próprias forças, determinou sua queda formando projetos
que só poderiam ser executados mediante uma longa guerra, o que seu reino não podia
sustentar.
Não era um Estado que estivesse em decadência que ele resolveu conquistar, e sim um
império nascente. Os moscovitas utilizaram a guerra que ele lhes fez como uma escola. A
cada derrota, eles se aproximavam da vitória; e, perdendo para fora, aprendiam a
defender-se por dentro.
Carlos achava que era o dono do mundo nos desertos da Polônia onde vagava e nos quais a
Suécia estava como