O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu


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mão se fechava para as despesas privadas, abria-se para as
despesas públicas. Quando devia. cuidar de sua casa, era um macedonio; quando devia pagar
as dívidas dos soldados, relatar sua. conquista para os gregos, fazer a fortuna de cada
homem de seu exército, era Alexandre.
Cometeu duas ações más: queimou Persépolis e matou Clito. Tornou-se famoso por seu
arrependimento: de sorte que esqueceram suas ações criminosas, para se lembrarem de seu
respeito pela virtude; de sorte que foram consideradas mais como uma infelicidade do que
como coisas que lhe fossem próprias; de sorte que a posteridade descobre a beleza de sua
alma quase ao lado de seus transbordamentos e de suas fraquezas; de sorte que se precisou
ter pena dele e não era mais possível odiá-lo.
Vou compará-lo a César. Quando César quis imitar os reis da Ásia, desesperou os romanos
por algo de pura ostentação; quando Alexandre quis imitar os reis da Ásia, fez algo que
fazia parte do plano de sua conquista.
CAPÍTULO XV
Novos meios de conservar a conquista
Quando um monarca conquista um grande Estado, exis te uma prática admirável, igualmente
própria para modera o despotismo e para conservar a conquista; os conquistadores da China
serviram-se dela.
Para não desesperar o povo vencido e não orgulhar o vencedor, para impedir que o governo
se tornasse militar e para manter os dois povos dentro dos limites do dever, a família
tártara que reina atualmente na China estabeleceu que cada corpo de tropas, nas
províncias, seria.composto por metade de chineses e metade de tártaros, para que a inveja
entre as duas nações as mantivesse dentro dos limites do dever. Os tribunais também são
meio chineses, meio tártaros. Isto produz vários bons efeitos: 1º as duas nações contêm
uma a outra; 2º ambas mantêm o poder militar e civil, e uma não é destruída pela outra;
3º a nação conquistadora pode espalhar-se por toda parte sem se enfraquecer e se perder;
ela se torna capaz de resistir às guerras civis e estrangeiras. Instituição tão sensata,
que é a falta de uma igual que perdeu quase todos aqueles que fizeram conquistas.
CAPÍTULO XVI
De um Estado despótico que conquista
Quando a conquista é imensa, ela supõe o despotismo. Para tanto, o exército espalhado
pelas províncias não é suficiente. É preciso que sempre haja em volta do príncipe uma
guarda particularmente fiel, sempre pronta a lançar-se sobre a parte do império que
poderia rebelar-se. Esta milícia deve conter as outras e fazer tremer todos aqueles a
quem se foi obrigado a deixar alguma autoridade no império. Existe em torno do imperador
da China uma grande guarda de tártaros sempre prontos para qualquer necessidade. No
Mogol, entre os turcos, no Japão, há uma guarda a soldo do príncipe, independentemente da
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que é mantida pela renda das terras. Estas forças particulares mantêm o respeito pelas
gerais.
CAPÍTULO XVII
Continuação do mesmo assunto
Dissemos que os Estados que o monarca despótico conquista devem ser feudatários. Os
historiadores esgotam-se em elogios sobre a generosidade dos conquistadores que
devolveram a coroa aos príncipes que haviam vencido. Os romanos eram então muito
generosos, pois faziam reis em todo lugar, para terem instrumentos de servidão. Tal ação
é um ato necessário. Se o conquistador guarda para si o Estado conquistado, os
governadores que enviará não poderão conter os súditos, nem ele mesmo seus governadores.
Será obrigado a desguarnecer de tropas seu antigo patrimônio para garantir o novo. Todas
as desgraças dos dois Estados serão comuns; a guerra civil de um será a guerra civil do
outro. Se, pelo contrário, o conquistador devolver o trono ao príncipe legítimo, terá um
aliado necessário, que com as forças que lhe são próprias aumentará as suas. Acabamos de
ver o xá Nadir conquistar os tesouros do Mogol e lhe deixar o Industão.
LIVRO DÉCIMO PRIMEIRO
Das leis que formam a liberdade política em sua relação com a constituição
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CAPÍTULO I
Idéia geral
Eu distingo as leis que formam a liberdade política em sua relação com a constituição
daquelas que a formam em sua relação com o cidadão. As primeiras serão o assunto deste
livro; tratarei das segundas no livro seguinte.
CAPÍTULO II
Diversos significados atribuídos à palavra liberdade
Não existe palavra que tenha recebido tantos significados e tenha marcado os espíritos de
tantas maneiras quanto a palavra liberdade. Uns a tomaram como a facilidade de depor
aquele a quem deram um poder tirânico; outros, como a faculdade de eleger a quem devem
obedecer; outros, como o direito de estarem armados e de poderem exercer a violência;
estes, como o privilégio de só serem governados por um homem de sua nação, ou por suas
próprias leis. Certo povo tomou por muito tempo a liberdade como sendo o costume de
possuir uma longa barbai. Estes ligaram este nome a uma forma de governo e excluíram as
outras. Aqueles que experimentaram o governo republicano colocaram-na neste governo;
aqueles que gozaram do governo monárquico puseramna na monarquia. Enfim, cada um chamou
liberdade ao governo conforme a seus costumes ou a suas inclinações; e como numa
república não se têm diante dos olhos, e de maneira tão presente, os instrumentos dos
males dos quais se queixa, e como até as leis parecem falar mais e os executores da lei
falar menos, ela é normalmente situada nas repúblicas e excluída das monarquias. Enfim,
como nas democracias o povo parece mais ou menos fazer o que quer, situou-se a liberdade
nestes tipos de governo e confundiu-se o poder do povo com a líberdade do povo.
CAPÍTULO III
Que é a liberdade
É verdade que nas democracias o povo parece fazer o que quer; mas a liberdade política
não consiste em se fazer o que se quer. Em um Estado, isto é, numa sociedade onde existem
leis, a liberdade só pode consistir em poder fazer o que se deve querer e em não ser
forçado a fazer o que não se tem o direito de querer.
Deve-se ter em mente o que é a independência e o que é a liberdade. A liberdade é o
direito de fazer tudo o que as leis permitem; e se um cidadão pudesse fazer o que elas
proíbem ele já não teria liberdade, porque os outros também teriam este poder.
CAPÍTULO IV
Continuação do mesmo assunto
A democracia e a aristocracia não são Estados livres por natureza. A liberdade política
só se encontra nos governos moderados. Mas ela nem sempre existe nos Estados moderados;
só existe quando não se abusa do poder; mas trata-se de uma experiência eterna que todo
homem que possui poder é levado a dele abusar; ele vai até onde encontra limites. Quem,
diria! Até a virtude precisa de limites.
Para que não se possa abusar do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder
limite o poder. Uma constituição pode ser tal que ninguém seja obrigado a fazer as coisas
a que a lei não obriga e a não fazer aquelas que a lei permite.
CAPÍTULO V
Do objeto dos diversos Estados
Ainda que todos os Estados possuam em geral o mesmo objeto, que é conservar-se, cada
Estado, no entanto, possui um que lhe é particular. O crescimento era o de Roma; a
guerra, o da Lacedemônia; a religião, o das leis judaicas; o comércio, o de Marselha; a
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tranqüilidade pública, o das leis da China; a navegação, o das leis dos habitantes de
Rodes; a liberdade natural, o objeto da organização dos selvagens; em geral, as delícias
do principe, o dos Estados despóticos; sua