O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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elegê-los, como se praticava em Roma em algumas oportunidades.
O povo é admirável quando escolhe aqueles aos quais deve delegar uma parte de sua
autoridade. Ele deve ser determinado apenas por coisas que não pode ignorar e por fatos
que se encontram à vista. Sabe muito bem que um homem foi muitas vezes para a guerra e
que teve tais sucessos; logo, é muito capaz de eleger um general. Sabe que o juiz é
assíduo, que muita gente sai de seu tribunal satisfeita com ele, que não o acusaram de
corrupção; eis o suficiente para elegê-lo pretor. Espantou-se com a magnificência ou com
as riquezas de um cidadão; isto é suficiente para que possa escolher um edil. Todas estas
coisas são fatos sobre os quais se está mais bem informado em praça pública do que um
monarca em seu palácio. Mas .seria ele capaz de conduzir um negócio, conhecer os lugares,
as oportunidades, os momentos, e aproveitar-se disto? Não, não seria capaz.
Se pudéssemos duvidar da capacidade natural que o povo tem de perceber o mérito, era só
darmos uma olhada nesta série contínua de escolhas surpreendentes que os atenienses e os
romanos fizeram; coisas que; sem dúvida, não poderíamos atribuir ao acaso.
Sabe-se que em Roma, ainda que o povo tivesse outorgado a si mesmo o direito de dar
cargos aos plebeus, não conseguia decidir-se a elegê-los; e, ainda que em Atenas fosse

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possível, pela lei de Aristides, escolher magistrados entre todas as classes, nunca
aconteceu, diz Xenofonte, que a arraia miúda pedisse aquelas que pudessem ser do
interesse da sua salvação ou da sua glória.
Assim como a maioria dos cidadãos, que têm pretensão bastante para eleger, mas não para
serem eleitos, o povo, que tem capacidade suficiente para fazer com que se prestem contas
da gestão dos outros, não está capacitado para gerir.
É preciso que os negócios funcionem, e que funcionem com um certo movimento que não seja
nem muito lento, nem muito rápido. Mas o povo sempre tem ação ou de mais ou de menos.
Algumas vezes com cem mil braços ele derruba tudo; outras vezes, com cem mil pés, só
caminha como os insetos.
No Estado popular, o povo está dividido em certas classes. É pela maneira de fazer esta
divisão que se destacaram os grandes legisladores, e é disto que a duração da democracia
e sua prosperidade sempre dependeram.
Servius Tullius seguiu, na composição de suas classes, o espírito da aristocracia.
Podemos ver, em Tito Lívio e em Dionísio de Halicarnasso, de que maneira ele colocou o
direito de sufrágio nas mãos dos principais cidadãos. Ele dividira o povo de Roma em
cento e noventa e três centúrias, que formavam seis classes. E, colocando os ricos, mas
em menor número, nas primeiras centúrias; os menos ricos, mas em maior número, nas
centúrias seguintes, lançou toda a multidão dos indigentes na última: e, como cada
centúria só tinha um votoó, eram os meios e as riquezas que davam o sufrágio, e não as
pessoas.
Sólon dividiu o povo de Atenas em quatro classes. Levado pelo espírito da democracia, não
as estabeleceu para fixar aqueles que deviam eleger, roas aqueles que podiam ser eleitos:
e, deixando para cada cidadão o direito de eleição, quis que em cada uma destas quatro
classes pudessem ser eleitos juízes; mas foi apenas nas três primeiras, onde se
encontravam os cidadãos abastados, que se puderam escolher os magistrados.
Como a divisão daqueles que têm direito ao sufrágio é, numa república, uma lei
fundamentai, a maneira de dá-lo é outra lei fundamental.
O sufrágio pelo sorteio é da natureza da democracia; o sufrágio pela escolha é da
natureza da aristocracia.
O sorteio é uma maneira de eleger que não aflige ninguém; deixa a cada cidadão uma
esperança razoável de servir sua pátria.
Mas, como é defeituoso por si, foi em sua regulamentação e em sua correção que os grandes
legisladores se superaram.
Sólon estabeleceu em Atenas que se nomearia par escolha para todos os cargos militares e
que os senadores e os juízes seriam eleitos por sorteio.
Quis que se dessem por escolha as magistraturas civis que exigissem grandes despesas e
que as outras fossem dadas por sorteio.
Mas, para corrigir o sorteio, estabeleceu que só poderiam ser eleitos aqueles que se
apresentassem; que aquele que tivesse sido eleito seria examinado por Juízes e que
qualquer um poderia acusá-lo de ser indigno; isso tinha ao mesmo tempo algo de escolha e
de sorteio. Quando se tivesse acabado o período de magistratura, era preciso sofrer outro
julgamento sobre a maneira como se tinha comportado. As pessoas incapazes não deviam
gostar muito de dar seu nome para o sorteio.
A lei que fixa a maneira de dar os bilhetes de sufrágio é também urna lei fundamental na
democracia. É uma grande questão saber se os sufrágios devem ser públicos ou secretos.
Cícero escreve que as leis que os tómaram.secretos nos últimos tempos da república romana
foram, das grandes causas de sua queda. Como isto se pratica diversamente em diferentes
repúblicas, eis, acho eu, o que se devepensar a respeito.
Sem dúvida, quando o povo dá seu sufrágio, ele deve ser público; e isto deve ser visto
como uma lei fundamental da democracia. É preciso que a arraia miúda seja esclarecida
pelos principais e contida pela gravidade de certas personalidades. Assim, na república
romana; tomando secreto o sufrágio, tudo foi destruída; não foi mais possível esclarecer
um populacho que se perdia. Mas quando trama aristocracia, o corpo dos. nobres dá o
sufrágio, ou, numa democracia, o senado, como nestes casos trata-se apenas de impedir os
conluios, os sufrágios não seriam nunca secretos demais.
O conluio é perigoso em um senado; é perigoso num corpo de nobres: não o é no povo, cuja
natureza é agir por paixão. Nos Estados onde não tem nenhuma participação no governo, ele
se inflamará por um ator, como o teria feito por negócios. A infelicidade de uma
república é quando não há mais conluios; isto acontece quando se corrompeu o povo com
dinheiro; ele começa a ter sangue-frio, afeiçoa-se ao dinheiro, mas não mais se apega aos

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negócios: sem preocupação sobre o governo e sobre o que nele é proposto, espera
tranqüilamente, seu salário.
Outra lei fudamental da democracia é aquela que diz que somente o povo elabora as leis.
Existem, no entanto, mil oportunidades nas quais é necessário que o senado possa
legislar; é até mesmo muitas vezes interessante que uma lei seja experimentada antes de
ser estabelecida. A constituição de Roma e a de Atenas eram muitos sábias. As decisões do
senado tinham força de lei durante um ano; só se tomavam perpétuas pela vontade do povo.

CAPÍTULO III
Das leis relativas à natureza da aristocracia

Na aristocracia, o poder soberano está nas mãos de certo número de pessoas. São elas que
elaboram as leis e que mandam executá-las; e o resto do povo está para elas, no máximo,
como os súditos estão para o monarca, numa monarquia.
Nela, não se deve dar o sufrágio por sorteio; só se teriam os seus inconvenientes. Com
efeito, num governo que já estabeleceu as mais tristes distinções, ainda que os cargos
fossem escolhidos por sorteio, isso não seria menos odioso: é do nobre que se tem inveja,
não do magistrado.
Quando há nobres em grande número, precisa-se de um senado que regulamente as questões
sobre as quais o corpo dos nobres não seria capaz de decidir e prepare as questões sobre
as quais ele decide. Neste caso, podemos dizer que a aristocracia está, por assim dizer,
no senado, a democracia no corpo de nobres, e o povo não é nada.
Seria uma coisa muito boa na aristocracia se, por alguma via indireta, se tirasse o povo
de seu nada: assim, em Gênova,