O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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CAPÍTULO VII
Das monarquias que conhecemos

As monarquias que conhecemos não possuem, como aquela da qual acabamos de falar, a
liberdade como objeto direto; elas só tendem para a glória dos cidadãos, do Estado e do
príncipe. Mas desta glória resulta um espírito de liberdade que, nestes Estados, pode
fazer coisas tão grandes e talvez contribuir tanto para a felicidade quanto a própria
liberdade.
Nelas, os três poderes não estão distribuídos e fundidos segundo o modelo da constituição
da qual falamos. Possuem cada um uma distribuição particular, segundo a qual se aproximam
mais ou menos da liberdade política; e, se dela não se aproximassem, a monarquia
degeneraria em despotismo.

CAPÍTULO VIII
Por que os antigos não tinham uma idéia muito
clara da monarquia
Os antigos não conheciam o governo fundado num corpo de nobreza, e ainda menos o governo
fundado num corpo legislativo formado pelos representantes de uma nação. As repúblicas da
Grécia e da Itália eram cidades que, possuíam cada uma seu governo e reuniam seus
cidadãos centro de seus muros. Antes que os romanos tivessem absorvido todas as
repúblicas, quase não havia rei em lugar nenhum, na Itália, na Gália, na Espanha, na
Alemanha; tudo eram peqúénos povos ou pequenas repúblicas; até a África estava submetida
a uma grande; a Ásia Menor estava ocupada pelas colônias gregas. Logo, não havia exemplo
de deputados de, cidades nem de assembléias de Estados; precisava-se ir até a Pérsia para
encontrar o governo de um só.
É verdade que havia repúblicas federativas; várias cidades enviavam deputados a uma
assembléia. Mas afirmo que não havia monarquia baseada nesse modelo.
Eis como se formou o primeiro plano das monarquias que conhecemos. As nações germânicas
que conquistaram o império romano eram, como se sabe, muito livres. É só ler sobre este
assunto Tácito, Sobre os costumes dos germanos. Os conquistadores espalharam-se pelo
país; moravam nos campos e pouco nas cidades. Quando estavam na Germânia, toda a nação
podia reunir-se. Quando foram dispersos pela conquista, não o puderam mais. No entanto,
era preciso que a nação deliberasse sobre seus negócios, como o fazia antes da conquista:
ela o fez através de representantes. Eis a origem do governo gótico entre nós. Foi, no
início, uma mistura de aristocracia e de monarquia. Havia o inconveniente de que o baixo
povo era escravo. Era um bom governo que tinha em si a capacidade de se tornar melhor. O
costume veio dar cartas de alforria, e logo a liberdade civil do povo, as prerrogativas
da nobreza e do clero, o poder dos reis encontraram-se em tal concerto, que não creio que
tenha havido na terra um governo tão bem moderado quanto o foi o de cada parte dá Europa
durante o tempo em que subsistiu. E é admirável que a corrupção do governo de um povo
conquistador tenha formado a melhor espécie de governo que os homens tenham podido
imaginar.

CAPÍTULO IX
Maneira de pensar de Aristóteles

O embaraço de Aristóteles mostra-se visivelmente quando ele trata da monarquia.
Estabelece cinco tipos: não as distingue segundo a forma da constituição, mas segundo
coisas de acidente, como as virtudes e vícios do príncipe; ou segundo coisas alheias a
ela, como a usurpação da tirania ou a sucessão da tirania.
Aristóteles classifica entre as monarquias tanto o império dos persas quanto o reino da
Lacedemônia. Mas quem não percebe que um era um Estado despótico e o outro uma república?
Os antigos, que não conheciam a distribuição dos três poderes no governo de um só, não
podiam ter uma idéia clara da monarquia.

CAPÍTULO X
Maneira de pensar dos outros políticos

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Para moderar o governo de um só, Arribas, rei de Épiro, só conseguiu imaginar uma
república. Os molossos, não sabendo como limitar este mesmo poder, fizeram dois reis:
assim se enfraquecia o Estado mais do que o comando; queriam rivais e tinham inimigos.
Dois reis só eram toleráveis na Lacedemônia; eles não formavam a constituição, mas eram
uma parte da constituição.

CAPÍTULO XI
Dos reis dos tempos heróicos dos gregos

Entre os gregos, nos tempos heróicos, se estabeleceu uma espécie de monarquia que não
subsistiu. Aqueles que haviam inventado artes, feito a guerra pelo povo, reunido homens
dispersos, ou que lhes tinham dado terras obtinham o reino para eles e o transmitiam a
seus filhos. Eram reis, sacerdotes e juízes. É um dos cinco tipos de monarquia dos quais
fala Aristóteles; e é o único que pode apontar para a idéia da constituição monárquica.
Mas o plano desta constituição é oposto ao de nossas monarquias de hoje.
Os três poderes estavam distribuídos de forma que o povo tivesse o poder legislativo; e o
rei, o poder executivo com o poder de julgar; no lugar disto, nas monarquias que
conhecemos, o príncipe tem o poder executivo e o legislativo, ou pelo menos parte do
legislativo, mas não julga.
No governo dos reis dos tempos heróicos, os três poderes estavam mal distribuídos. Estas
monarquias não podiam manter-se, pois, assim que o povo possuía a legislação, podia, ao
menor capricho, aniquilar a realeza, como o fez em toda lugar.
Num povo livre, que possuía o poder legislativo; num povo fechado numa cidade, onde tudo
o que existe de detestável se torna ainda mais detestável, a obra-prima da legislação é
saber bem situar o poder de julgar. Mas ela não podia estar pior do que entre as mãos
daquele que já possuía o poder executivo. A partir daí, o monarca se tomava terrível.
Mas, ao mesmo tempo, como não tinha a legislação, não podia defender-se da legislação;
ele tinha poder demais e não tinha poder suficiente.
Não se tinha ainda descoberto que a verdadeira função do príncipe era estabelecer
tribunais e não ele mesmo julgar. A política contrária tornou o governo de um só
insuportável. Todos estes reis foram cassados. Os gregos não imaginaram a verdadeira
distribuição dos três poderes no governo de um só; imaginaram-na apenas no governo de
vários e chamaram a este tipo de constituição polícia.

CAPÍTULO XII
Do governo das reis de Roma e como os três poderes
foram ali distribuídos

O governo dos reis de Roma tinha alguma relação com o dos reis dos tempos heróicos dos
gregos. Caiu, assim como os outros, devido ao seu vício geral, ainda que, em si mesmo e
por sua natureza particular, fosse muito bom.
Para explicar este governo, distinguirei o dos cinco primeiros reis, o de Sérvio Túlio e
o de Tarquínio.
A coroa era eletiva; sob os cinco primeiros reis, coube ao senado a parte mais importante
na eleição.
Depois da morte do rei, o senado examinava se manteria a forma de governo que estava
estabelecida. Se julgasse bom mantê-la, nomeava um magistrado tirado de seu seio, que
elegia um rei; o senado devia aprovar a eleição; o povo, confirmá-la; os auspícios,
garanti-ha. Se uma destas três condições faltasse, devia-se fazer outra eleição.
A constituição era monárquica, aristocrática e popular; e a harmonia do poder foi tal,
que não se viu inveja nem disputa durante os primeiros reinados. O rei comandava os
exércitos e tinha a intendência dos sacrifícios; tinha o poder de julgar os assuntos
civis e os criminais; convocava o senado; reunia o povo; comunicava-lhe certos assuntos e
resolvia outros com o senado.
O senado possuía uma grande autoridade. Os reis muitas vezes chamaram senadores para
julgar com eles: não levavam assuntos ao povo que não tivessem sido deliberados antes no
senado.
O povo tinha o direito de eleger os magistrados, de aprovar as novas leis e, quando o rei

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o permitia, o de declarar guerra e de fazer a paz. Não