O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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tinha o poder de julgar. Quando
Tullus Hostilizes remeteu o julgamento de Horácio ao povo, teve razões particulares que
se encontram em Dionísio de Halicarnasso.
A constituição mudou sob Sérvio Túlio. O senado não participou de sua eleição; ele se fez
proclamar pelo povo. Livrou-se dos julgamentos civis e se reservou apenas os criminais;
levou diretamente ao povo todos os assuntos, aliviou-o dos impostos e colocou todo seu
peso sobre os patrícios. Assim, à medida que enfraquecia o poder real e a autoridade do
senado, aumentava o poder do povo.
Tarquínio não se fez eleger nem pelo senado, nem pelo povo. Considerou Sérvio Túlio como
um usurpador e tomou a coroa como um direito hereditário; exterminou a maioria dos
senadores; não consultou os que sobraram e não os chamou nem para os seus julgamentos.
Seu poder aumentou; mas o que havia de detestável neste poder tomou-se ainda mais
detestável: ele usurpou o poder do povo; criou leis sem ele e criou algumas até contra
eles. Ele teria reunido os três poderes em sua pessoa, mas o povo lembrou-se por um
momento de que era legislador, e foi o fim de Tarquínio.

CAPÍTULO XIII
Reflexões gerais sobre o Estado de Roma após
a expulsão dos reis

Não podemos nunca abandonar os romanos: é assim que, ainda hoje, em sua capital, deixamos
de lado os novos palácios para ir procurar as ruínas; é assim que o olho que descansou
sobre o esmalte dos prados gosta de ver os rochedos e as montanhas.
As famílias patrícias sempre haviam tido grandes prerrogativas. Estas distinções, grandes
sob os reis, tornaram-se muito mais importantes após sua expulsão. Isto causou a inveja
dos plebeus, que quiseram rebaixá-las. As contestações centravam-se sobre a constituição
sem enfraquecer o governo; pois, contanto que os magistrados conservassem sua autoridade,
era bastante indiferente de que família provinham os magistrados.
Uma monarquia eletiva, como era Roma, supõe necessariamente um corpo aristocrático
poderoso que a sustente, sem o que ela logo se transforma em tirania ou em Estado
popular. Foi o que fez com que os patrícios, que eram partes necessárias da constituição
no tempo dos reis, se tomassem uma parte supérflua no tempo dos cônsules; o povo pôde
rebaixá-los sem se destruir e mudar a constituição sem a corromper.
Quando Sérvio Túlio aviltou os patrícios, Roma teve que cair das mãos dos reis nas do
povo. Mas o povo, rebaixando os patrícios, não devia temer recair nas mãos dos reis.
Um Estado pode mudar de duas maneiras: ou porque a constituição se corrige ou porque ela
se corrompe. Se ele tiver conservado seus princípios e a contituição mudar, é que ela se
corrige; se tiver perdido seus princípios quando a constituição mudou, é que ela se
corrompe.
Roma, depois da expulsão dos reis, devia ser uma democracia. O povo já possuía o poder
legislativo: era seu sufrágio unânime que tinha cassado os reis e se não persistisse
nesta vontade os Tarquínios poderiam voltar a qualquer momento. Pretender que ele tivesse
querido cassá-los para cair na escravidão de algumas famílias não era razoável. A
situação exigia então que Roma fosse uma democracia; e, no entanto, não o era. Foi
necessário moderar o poder dos principais e que as leis se inclinassem para a democracia.
 Muitas vezes, os Estados florescem mais durante a imperceptível passagem de uma
constituição a outra do que floresceram durante uma ou outra dessas constituições. É
neste momento que todas as molas do governo estão tensas, todos os cidadãos têm
pretensões, as pessoas se atacam e se acariciam, existe uma nobre rivalidade entre
aqueles que defendem a constituição que declina e aqueles que levam adiante aquela que
prevalecerá.

CAPÍTULO XIV
Como a distribuirão dos três poderes começou a mudar após
a expulsão dos reis

Quatro coisas sobretudo feriam a liberdade de Roma. Só os patrícios conseguiam todos os
cargos sagrados, políticos, civis e militares; tinha-se atribuído ao consulado um poder
exorbitante; faziam-se ultrajes ao povo; enfim, não lhe deixavam quase nenhuma influência

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nos sufrágios. Foram estes quatro abusos que o povo corrigiu.
1o Estabeleceu que existiriam magistraturas às quais os plebeus poderiam aspirar; e
obteve pouco a pouco que participaria de todas, exceto daquelas de entre-rei.
2o O consulado foi decomposto, e dele se formaram várias magistraturas. Criaram-se
pretores, a quem se deu o poder de julgar os assuntos privados; nomearam-se questores
para julgar os crimes públicos; estabeleceram-se edis, a quem se deu a polícia;
fizeram-se tesoureiros, que tiveram a. aglministração dos dinheiros públicos; enfim, com
a criação dos censores, retirou-se dos cônsules esta parte do poder legislativo que
regulamentava os costumes dos cidadãos e a policia momentânea dos diversos corpos do
Estado. As principais prerrogativas que restaram aos cônsules foram a de presidir aos
grandes Estados do povo, a de reunir o senado e á de comandar os exércitos.
3° As leis sagradas estabeleceram tribunos que podiam a qualquer instante barrar as
iniciativas dos patrícios; e não impediam apenas as injúrias particulares, mas também as
gerais.
Por fim, os plebeus aumentaram sua influência nas decisões públicas. O povo romano estava
dividido de três maneiras: por centúrias, por cúrias e por tribos; e quando dava seu
sufrágio estava reunido e formado de uma destas três maneiras.
Na primeira, os patrícios, os principais, as pessoas ricas, o senado, o que era mais ou
menos a mesma coisa, tinham quase toda a autoridade; na segunda, tinham menos; na
terceira, ainda menos.
A divisão por centúrias era mais uma divisão de censo e de meios do que uma divisão de
pessoas. Todo o povo estava repartido em cento e noventa e três centúrias, que tinham um
voto cada. Os patrícios e os principais formavam as noventa e oito primeiras centúrias; o
resto dos cidadãos estava espalhado nas outras noventa e cinco. Assim, os patrícios eram,
segundo esta divisão, os senhores dos sufrágios.
Na divisão por cúrias, os patrícios não tinham as mesmas vantagens. Tinham- algumas, no
entanto. Deviam-se consultar os auspícios, ds quais os patrícios eram senhores; não se
podia fazer proposta ao povo que não fosse primeiro levada ao senado e aprovada por um
senatus-consulto. Mas, na divisão por tribos, não havia nem auspícios, nem
senatusconsulto, e os patrícios não eram admitidos.
Ora, o povo sempre procurou fazer por cúrias as assembléias que se costumavam fazer por
centúrias, e fazer por tribos as assembléias que se faziam por cúrias; o que fez passar
para as mãos dos plebeus as questões que estavam entre as mãos dos patrícios.
Assim, quando os plebeus conseguiram o direito de julgar os patrícios; o que começou
quando do caso de Coriolano, os plebeus quiseram julgá-lo reunidos em tribos, e não em
centúrias; e, quando se estabeleceu em favor do povo as novas magistraturas de tribunos e
de edis, o povo conseguiu que se reuniria em cúrias para nomeá-los; e quando seu poder se
fortaleceu obteve que seriam nomeados numa assembléia por tribos.

CAPÍTULO XV
Como, no estado florescente da república, Roma perdeu
repentinamente sua liberdade

No calor da disputa entre os patrícios e os plebeus, estes pediram que fossem criadas
leis fixas, para que os julgamentos não mais fossem o efeito de uma vontade caprichosa ou
de um poder arbitrário. Após muitas resistências, o senado concordou. Para compor estas
leis, nomearam-se decênviros. Pensaram que deveriam dar-lhes um grande poder, porque
deviam criar leis para partidos que eram quase incompatíveis. Suspendeu-se a nomeação de
todos os magistrados e, no comício, eles foram eleitos como os únicas administradores da
república. Eles acharam-se revestidos do poder consular e do poder tribunício. Um lhes
dava o direito de reunir