O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu


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o senado; o outro, o de reunir o povo; mas eles não convocaram
nem o senado, nem o povo. Dez homens na república tiveram, sozinhos, todo o poder
legislativo, todo o poder executivo, todo o poder dos julgamentos. Roma viuse submetida a
uma tirania tão cruel quanto a de Tarquínio. Quando Tarquínio exerceu suas vexações, Roma
ficou indignada com o poder que ele havia usurpado; quando os decênviros exerceram as
suas, ela ficou espantada com o poder que lhes havia outorgado.
Mas qual era este sistema de tirania, produzido por pessoas que só tinham conseguido o
poder político e militar por causa de seu conhecimento dos assuntos civis e que, nas
circunstâncias daquele momento, precisavam, por dentro, da covardia dos cidadãos para que
estes se deixassem governar e, por fora, de sua coragem, para defendê-los?
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O espetáculo da morte de Virgínia, imolada por seu pai em nome do pudor e da liberdade,
fez desvanecer-se o poder dos decênviros. Todos se acharam livres, porque todos foram
ofendidos: todos se tomaram cidadãos, porque todos se acharam pais. O senado e o povo
recuperaram uma liberdade que havia sido confiada a ridículos tiranos.
O povo romano, mais do que qualquer outro, emocionava-se com os espetáculos. O do corpo
sangrento de Lucrécia acabou com a monarquia. O devedor que apareceu na praça coberto de
feridas mudou a forma da república. A visão de Virgínia expulsou os decênviros. Para
condenar Manlio, foi necessário retirar do povo a visão do Capitólio. A veste
ensangüentada de César trouxe Roma de volta à servidão.
CAPÍTULO XVI
Do poder legislativo na república romana
Não se tinham direitos a disputar sob os decêìiviros; mas quando a liberdade voltou se
viu renascerem as invejas: enquanto sobrou algum privilégio para os patrícios, os plebeus
lhos retiraram.
Não teria havido nenhum mal, se os plebeus se tivessem contentado com privar os patrícios
de suas prerrogativas, e se não os tivessem ofendido em sua própria qualidade de
cidadãos. Quando o povo estava reunido em cúrias ou centúrias, era composto por senadores
patrícios e plebeus. Nas disputas, os plebeus ganharam o seguinte ponto: sós, sem os
patrícios e sem o seriado, eles poderiam criar leis, que foram chamadas plebiscitos; e os
comícios em que foram feitos foram chamados comícios por tribos. Assim, houve casos em
que os patrícios não participaram do poder legislativo e em que foram submetidos ao poder
legislativo de outro corpo do Estado. Foi um delírio da liberdade. O povo, para
estabelecer a democracia, feriu os próprios princípios da democracia. Parecia que um
poder tão exorbitante devesse destruir a autoridade do senado; mas Roma possuía
instituições admiráveis, principalmente duas: por uma delas, o poder legislativo do povo
era regulamentado; pela outra, era limitado.
Os censores, e antes deles os cônsules, formavam e criavam, por assim dizer, a cada cinco
anos, o corpo do povo; exerciam a legislação sobre o próprio corpo que possuía o poder
legislativo: "Tibério Graco, censor", diz Cícero, "transferiu os libertos às tribos da
cidade, não com a força de sua eloqüência, mas com uma palavra e um gesto; e, se não o
tivesse feito, esta república, que hoje mal sustentamos, não a teríamos mais."
Por outro lado, o senado tinha o poder de retirar, por assim dizer, a república das mãos
do povo, com a criação de um ditador, diante do qual o soberano baixava a cabeça e as
leis mais populares ficavam em silêncio. 
CAPÍTULO XVII
Do poder executivo na mesma república
Se o povo foi zeloso de seu poder legislativo, o foi menos de seu poder executivo.
Deixou-o quase que inteiro para o senado e para os cônsules e só reservou para si o
direito de eleger os magistrados e de confirmar os atos do senado e dos generais.
Roma, cuja paixão era comandar, cuja ambição era tudo submeter, que sempre tinha
usurpado, que ainda usurpava, tinha continuamente grandes problemas; seus inimigos
conjuravam contra ela, e ela conjurava contra seus inimigos.
Obrigada a portar-se, por um lado, com uma coragem heróica e, por outro, com uma
sabedoria consumada, o estado das coisas requeria que o senado tivesse a direção dos
negócios. O povo disputava com o senado todos os ramos de seu poder legislativo, porque
era zeloso de sua liberdade; não disputava os ramos do poder executivo, porque era zeloso
de sua glória.
A participação do senado no poder executivo era tão grande, que Políbio disse que todos
os estrangeiros pensavam que Roma era uma aristocracia. O senado dispunha dos dinheiros
públicos e distribuía os recursos; era o árbitro das questões dos aliados; decidia sobre
a guerra e a paz e dirigia, a este respeito, os cônsules; fava o número das tropas
romanas e das tropas aliadas; distribuía as províncias e os exércitos entre os cônsules
ou entre os pretores; e, expirando o ano de seu comando, podia dar-lhes um sucessor;
atribuía os triunfos; recebia embaixadas e enviava outras; nomeava reis, recompensava-os,
castigava-os, julgava-os, concedia-lhes ou fazia com que perdessem o título de aliados do
povo romano.
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Os cônsules faziam o recrutamento das tropas que deviam conduzir à guerra; comandavam o
exército de terra ou de mar, dispunham dos aliados; tinham nas províncias todo o poder da
república; davam a paz aos povos vencidos, impondo-lhes condições ou remetendo-os ao
senado.
Nos primeiros tempos, quando o povo tomava alguma parte nas questões da guerra e da paz,
exercia mais o poder legislativo do que o poder executivo. Só fazia confirmar o que os
reis e, depois deles, os cônsules ou o senado haviam realizado. Longe de ser o povo o
árbitro da guerra, vemos que os cônsules ou o senado declaravam guerra muitas vezes
malgrado a oposição dos tribunos. Mas, na embriaguez das prosperidades, ele aumentou seu
poder executivo. Assim, criou ele mesmos os tribunos das legiões, que os generais tinham
nomeado até então, e algum tempo antes da guerra púnica decidiu que só ele tinha o
direito de declarar a guerra. 
CAPÍTULO XVIII
Do poder de julgar no governo de Roma
O poder de julgar foi dado ao povo, ao senado, aos magistrados, a certos juízes. É
preciso ver coma foi distribuído. Vou começar pelos assuntos civis.
Os cônsules julgaram depois dos reis, assim corro os pretores julgaram depois dos
cônsules. Sérvio Tíxlio tinha se despojado do julgamento dos assuntas.civis; os cônsules
também não os julgaram, a não ser em casos muito raros? que se chamaram,. por esta razão,
extraordinários. Eles se contentaram com nomear os juizes e formar os tribunais que
deviam julgar. Parece, segundo o discurso de Ápio Cláudio, em Dionísio de Halicarnasso,
que, desde o ano de Roma de 259, isto era visto como um costume estabelecido entre os
romanos; e não é fazê-lo remontar a muito tempo ligá-lo à Sérvio Túlio.
Cada ano, o pretor estabelecia uma lista ou um quadro daqueles que escolhera paia cumprir
a função de juiz durante o ano de sua magistratura. Escolhia-se um número suficiente para
cada questão. Pratica-se mais ou menos o mesmo na Inglaterra. E o que era muito favorável
à líberdade, o pretór escolhia os juizes segundo o consentimento das partes. O grande
número de recusas que se pode fazer hoje na Inglaterra refere-se mais ou menos a este
costume.
Estes juizes só decidiam sobre questões de fato: por exemplo, se uma quantia havia sido
paga ou não; se uma ação havia sido cometida ou não. Mas, quanto às questões de direito;
como clãs demandavam certa capacidade, eram levadas ao tribunal dos Centúnviros.
Os réis reservaram-se o julgamento das questões criminais, e nisto os cônsules lhes
sucederam.