O espírito das leis Montesquieu
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O espírito das leis Montesquieu

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Foi erra conseqüência desta autoridade que o cônsul Brutus mandou matar seus
filhos e todos aqueles que haviam conjurado em favor dos Tarquínios. Este poder era
exorbitante. Sendo que os cônsules já possuíam o poder militar, levavam este exercício
para os assuntos da cidade; e seus procedimentos, sem as formas da justiça, eram mais
ações violentas do que julgamentos.
Isto fez com que se criasse a lei Valeriam, que permitiu que se apelasse para o povo de
todas as sentenças dos cônsules que colocassem em periga a vida de um cidadão. Os
cônsules não puderam mais pronunciar urna pena: capital contra um cidadão romano, a não
ser pela vontade dia povo.
Vê-se que, na primeira conjuração Viela-vote dos Tarquínios, o cônsul Brutus os julga
culpados; na seda, reúnem-se o senado e os comícios para julgar.
As leis que foram chamadas sagradas deram aos plebeus tribunos que formaram um corpo que
teve, no início, pretensões imensas. Não se sabe qual foi maior, se no plebeus a covarde
petulância de pedir ou no senado a condescendência e a facilidade de permitir. A lei
Vaieriana havia permitido belos ao povo, isto é, ao povo composto por senadores,
patrícios e plebeus. Os plebeus estabeleceram que os apelos seriam levados a eles.
Rapidamente se colocou em questão se os plebeus poderiam julgar um patrício: isto foi o
objeto de uma disputa levantada pela questão de Coriolano e que acabou junto com esta
questão. Coriolano, acusado pelos tribunos diante,do povo, sustentava, contra o espírito
da lei Valeriana, que, sendo patrício, só podia ser julgado pelos cônsules: os plebeus,
contra o espírito daquela mesma lei, pretendiam que ele só devia ser julgado por eles, e
julgaram-no.
A lei das Doze Tábuas modificou tal coisa. Ordenou que só se poderia decidir sobre a vida
de um cidadão nos grandes Estados do povo. Assim, o corpo dos plebeus, ou, o que é a
mesma coisa, os comícios por tribos, julgaram apenas, a partir deste momento, crimes cuja

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pena era somente uma multa pecuniária. Era, necessária uma lei para infligir uma pena
capital: para condenar-a uma pena pecuniária, bastava um plebiscito.
Esta disposição da lei das Doze Tábuas foi muita sábia. Formou uma conciliação admirável
entre o corpo dos plebeus e o senado. Pois, como a competência de uns e outros dependia
do tamanho da pena e da natureza do crime, foi necessário que eles agissem em conjunto:
A lei Valeriana acabou com tudo o que restava em Roma do governo que estava relacionado
com o dos reis gregos dos tempos heróicos. Os cônsules viram-se sem poder para a punição
dos crimes. Embora todos os crimes sejam públicos, deve-se distinguir, no entanto,
aqueles que interessam mais aos cidadãos entre eles daqueles que interessam mais ao
Estado em sua relação com um cidadão. Os primeiros são chamados privados, os segundos são
os crimes públicos. O próprio povo julgou os crimes públicos; e, em relação aos crimes
privados, ele nomeou para cada crime, por meio de uma comissão particular, um questor
para conduzilo. Era muitas vezes um dos magistrados, às vezes um homem privado, que o
povo escolhia. Chamavam-no questor do parricídio. É citado na lei das Doze Tábuas.
O questor nomeava o que se chamava juiz da questão, que sorteava os juízes, formava o
tribunal e presidia, sob ele, ao julgamento.
É bom notar aqui a participação do senado na nomeação do questor, para que se veja como
os poderes estavam, neste sentido, equilibrados. Por vezes, o senado elegia um ditador,
para que este desempenhasse a função de questor; por vezes, ordenava que o povo fosse
convocado por um tribuno, para que nomeasse um questor; enfim, o povo nomeava por vezes
um magistrado para que este fizesse ao senado o relato de um certo crime e para que
pedisse que este nomeasse um questor, como se vê no caso do julgamento de Lúcio Cipião,
em Tito Lívio.
No ano de Roma de 604; algumas destas comissões tornaram-se permanentes. Pouco a pouco,
todas as matérias criminais foram divididas em diversas partes, que foram chamadas
questões perpétuas. Criaram-se diversos pretores, e atribuiu-se a cada um alguma destas
questões. Dava-se-lhes, por um ano, o poder de julgar os crimes que delas dependiam, e
depois eles iam governar sua província.
Em Cartago, o senado dos cem era composto por juízes vitalícios. Mas, em Roma, os
pretores eram anuais; e os juízes não o eram nem por um ano, pois eram escolhidos para
cada caso. Vimos, no capítulo VI deste livro, quanto, em certos governos, esta disposição
era favorável à liberdade.
Os juízes foram escolhidos na ordem dos senadores, até a época dos Gracos. Tibério Graco
fez com que se ordenasse que eles seriam escolhidos na ordem dos cavaleiros: mudança tão
notável que o tribuno se gabou de ter, com uma só rogação, cortado os nervos da ordem dos
senadores.
É preciso notar que os três poderes podem estar bem distribuídos em relação à liberdade
da constituição, ainda que não o estejam .tão bem em relação à liberdade do cidadão. Em
Roma, como o povo tinha a maior parte do poder legislativo, uma parte do poder executivo
e uma parte do poder de julgar, constituía um grande poder que devia ser equilibrado por
outro. É certo que o senado possuía uma parte do poder executivo; possuía uma parte do
poder legislátivo; mas isto não era suficiente para contrabalançar o povo. Era preciso
que participasse do poder de julgar, e dele participava quando os juízes eram escolhidos
entre os senadores: Quando os Gracos privaram os senadores do poder de julgar, o senado
não pôde mais resistir ao povo. Eles feriram, então, a liberdade da constituição para
favorecer a liberdade do cidadão; mas esta se perdeu com aquela.
Disto resultaram males infinitos. Mudou-se a constituição num momento em que, no fogo das
discórdias civis, quase não havia uma constituição. Os cavaleiros não foram mais aquela
ordem média que unia o povo ao senado, e a cadeia da constituição foi rompida.
Havia até razões particulares que deviam impedir que os julgamentos passassem para os
cavaleiros. A constituição de Roma estava fundada sobre o princípio de que deviam ser
soldados aqueles que possuíssem bens suficientes para responder por sua conduta perante a
república. Os cavaleiros, sendo os mais ricos, formaram a cavalaria das legiões. Quando
sua dignidade foi aumentada, não quiseram mais servir naquela milícia; foi preciso formar
outra cavalaria: Marius pôs toda sorte, de gente nas legiões, e a república se perdeu.
Além do mais, os cavaleiros eram os publicanos da república; eram ávidos, semeavam
desgraças nas desgraças e faziam nascer necessidades públicas das necessidades públicas.
Longe de atribuir a tal gente o poder de julgar, teria sido necessário que estivessem
sempre sob os olhos dos juízes. Deve-se dizer isto em louvor às antigas leis francesas;
elas tratavam com os negociantes com a desconfiança que se reserva aos inimigos. Quando,
em Roma, os julgamentos passaram para as mãos dos publicanos, não houve mais virtude, nem

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policia, nem leis; nem magistraturas nem magistrados.
Encontramos um quadro muito ingênuo disto em alguns fragmentos de Diodoro de Sicília e de
Dion. "Mutius Scevola", conta Diodoro, "quis lembrar: os costumes antigos e viver de seus
próprios bens com frugalidade e integridade. Porque, como seus antecessores fizeram uma
sociedade com os publicanos, que detinham, na época os julgamentos em Roma, eles tinha
enchido a província de toda sorte de crimes. Mas Scevola fez justiça aos publicanos e
mandou levar para a prisão aqueles que para ela arrastavam os outros."
Dion conta-nos que Publíus Rutilius, seu tenente,